Igreja na Guiné Bissau no meio da pandemia: solidariedade e conscientização

“A Igreja tem um papel muito importante nesse serviço de informação, prevenção e sensibilização para evitar o novo coronavírus. A Caritas diocesana faz um trabalho muito bonito na impressão de cartazes. Está formando equipes para levar a informação às comunidades mais distantes sobre como se evita o vírus.” A Redação da Editora Mundo e Missão entrevistou o padre “Celo” Moreira, originário de Porecatú-PR, e missionário do PIME na Guiné-Bissau sobre a situação atual no país africano.

por Redação Mundo e Missão


A Agência de Notícias da Guiné publicou no seu Portal que o número de pessoas infectadas pelo novo coronavírus no país subiu de 18 para 33, segundo os dados do dia 07 de abril. As autoridades sanitárias na capital, Bissau, alertaram as populações que os casos tendem a se multiplicar rapidamente. A informação foi divulgada na Coletiva de Imprensa diária sobre a evolução da doença. Foi prestada pelos médicos do Centro Operacional de Emergência em Saúde (COES), instituição criada pelas autoridades locais para lidar com a pandemia de covid-19 na Guiné-Bissau.

Padre Celo, quais são as medidas que o governo fassumiu em relação à pandemia do coronavírus?

O governo da Guiné-Bissau está seguindo a posição de muitos outros países, a opção pelo isolamento social, que é a de bloquear todos os lugares onde haja aglomeração de pessoas. Já foram fechadas as escolas, o comércio, a feira principal de Bissau, que é o coração econômico do país. A feira praticamente funcionava 24 horas por dia. É estranho ver como ela estava vazia quando fui à capital, logo no começo da pandemia, a cerca de dez dias que antecederam o seu fechamento preventivo. No mercado e na agência bancária há sempre disponível um balde com água sanitária para que as pessoas lavem as mãos. Os serviços não essenciais estão todos inativos.

Quais são as medidas e iniciativas de solidariedade por parte da Igreja durante a quarentena?

A igreja exerce um papel fundamental nesse serviço de informação, prevenção e sensibilização para evitar o avanço do coronavírus. A Caritas diocesana está fazendo um trabalho muito bonito na impressão de cartazes. Forma equipes de voluntários para levar a informação às pessoas e às aldeias mais distantes sobre como se faz para evitar o contágio com o vírus.  No período anterior, quando teve surto do Ebola, foram distribuídos equipamentos em cada paroquia para a fabricação de água sanitária a ser distribuída nas comunidades. Ambas as dioceses do país, a de Bissau e a de Bafatá, incentivam as pessoas e as paróquias a produzirem mais água sanitária para ser distribuída na região. Infelizmente, alguns equipamentos estão danificados, mas muitas dessas máquinas ainda estão em bom funcionamento. Isso possibilita a muitas paróquias a atual produção de água sanitária. A Rádio Sol Mansi, emissora católica da Guiné-Bissau, está produzindo e distribuindo gratuitamente às rádios comunitárias do país inúmeros programas de sensibilização e prevenção. Assim, estes estão sendo retransmitidos nos mais distantes recantos guineenses.

O que é essa tal “renúncia queresmal” à qual você se referia ao chegar à entrevista?

Aqui, durante a Quaresma, temos o costume de promover a renúncia quaresmal. Durante a Via Sacra, cada cristão traz aquilo que pode doar. Trata-se de um gesto concreto de jejum. Os cristãos trazem à comunidade paroquial aquele alimento que deixaram de comer, ou um dinheirinho economizado para esse fim.  Sua doação é colocada na caixinha das ofertas da Via Sacra. Aqueles valores serão, durante o restante do ano, destinados a um projeto específico. Por exemplo, durante um ano, eles foram encaminhados à Casa das Mães, uma entidade que ajuda mães que têm problema na gestação. Em outros anos, foram para o ambiente prisional, por exemplo, ou para ambulatórios médicos. Nos três eventos de Via Sacra que conseguimos realizar neste ano, toda a arrecadação que as dioceses conseguiram, está sendo canalizada no trabalho de prevenção do coronavírus. Esse será o nosso grande gesto da mais urgente solidariedade cristã.

Qual será o impacto dessa quarentena sobre o emprego?

Essa é uma questão espinhosa, difícil, porque a nossa realidade não é diferente do quadro mundial. O impacto é de âmbito mundial. Por aqui, o emprego é um desafio constante, uma vez que as pessoas trabalham na agricultura ou no comércio local. As mulheres, sobretudo, vendem o que elas cultivam em sua horta. Algumas vão no Senegal, onde compram algumas coisas para, no retorno, negociar na feira ou nas calçadas. É a partir daí que tiram o seu sustento imediato. O dinheiro obtido na véspera é hoje utilizado para a alimentação própria e dos familiares. Hoje, como tudo está parado, o desafio para sobreviver é enorme, sobretudo no trato comercial. Muitas pessoas perambulam sem saber como suprir as suas necessidades mais vitais. Para tanto, acabam se contagiando através de contatos inevitáveis com outros desvalidos. E apesar dos controles policiais que, diga-se, nem sempre ocorrem com respeito, civilidade e discrição. O resultado do desespero coloca em risco a prevenção. Esse é um dos graves problemas que enfrentamos no momento. O governo, por sua vez, pouco ou quase nada faz. Na verdade, não se espera dele nenhum subsídio humanitário, nenhum gesto de solidariedade social. Nada do governo vem em favor dos mais carentes, sempre expostos ao perigo dos contágios. Essa questão é muito grave e, como já disse, é espinhosa, nos preocupa. Infelizmente, nem sempre temos condições de intervir.


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