Importância do tempo para “fazer nada”

tranquilidade para fazer nada

(Foto: Julia Caesar/Unsplash)

Estamos, na maior parte do tempo, no automático, nos desdobrando em mil para dar conta de todas as coisas da vida, e os questionamentos vão ficando em segundo plano

 

A
o conversar com amigos em encontros aleatórios, sempre surge um assunto em comum: não temos mais tempo. O celular, o trabalho, o espírito empreendedor, as referências, os livros, os filmes, as séries, as festas, tudo é prioridade. Estamos muito ocupados. Trabalhamos demais, estudamos demais, fazemos atividades demais. Vivemos imersos nesse oceano violento de ações cotidianas, e, a qualquer sinal de tempo livre, o celular tá na mão, com um milhão de estímulos e distrações.

A quantidade de informações que recebemos por dia é gigantesca, mas em que momento processamos tudo isso? Num mundo onde a maioria fala para colocar o pé no acelerador e viver com a produtividade nas alturas, fazendo cada vez mais, em menos tempo, quero falar de ócio. Não é sobre ficar no Instagram até passar por todos os instastories, mas sim um tempo pra fazer nada. Permitir momentos de nada na rotina louca de trabalho, estudos, sonhos, relacionamentos e burocracias.

Por quê? Sinto que estamos, na maior parte do tempo, no automático, nos desdobrando em mil para dar conta de todas as coisas da vida, e os questionamentos vão ficando em segundo plano.

Precisamos de tempo e espaço para entender o que acontece no dia a dia. E colocar mais tarefas e mais celular em todo o tempo que sobra não abre brecha para o pensamento livre acontecer. Eu tenho tentado (e é difícil) “fazer mais nada”.

Como assim? Fazer nada pode ser andar a pé. Perceber os detalhes da cidade, ver coisas que nunca tinha reparado (impressionante como sempre tem algo novo pra ver). Caminhar na rua é uma chuva de referências de arquitetura, texturas, comportamentos, estilos de vida. Uma caminhada à toa pode resultar numa ideia de como resolver aquele problemão que você tá fritando a semana toda.

Fazer nada também pode ser um passeio pra fotografar. Sem pauta, sem obrigações. Fazer nada com uma câmera na mão pode dar insights que nunca tinham aparecido: olhares novos para coisas normais. Na virada do ano, fiquei fazendo nada com a câmera, no jardim da casa onde estava com uns amigos, e resultou numa sequência de fotos de frutas que parecem tímidas. Não que sejam as fotos mais incríveis do mundo, mas foi muito interessante o processo de pensar em nada e perceber tudo. Eu gostei.

Fazer nada também pode ser parar pra tomar um café. Enquanto o corpo faz os movimentos já decorados para preparar a bebida, deixo o pensamento solto, e quando sento pra tomar o café, me permito pensar em nada, ou pensar em tudo, mas não pego o celular. Sei que ele me distrai. Tenho medo de estarmos nos tornando seres distraídos, que não percebem mais os detalhes que não valem dinheiro ou likes.

Fazer nada tem me permitido uma conexão maior comigo mesma e com as coisas que eu acredito. Porque sempre que faço nada dou espaço pra pensar. Ainda não somos robôs, mas precisamos tomar cuidado com o modo automático.

Então, aí vai uma dica: coloca um tempo pra fazer nada na agenda e vê o que acontece. Tem funcionado bastante pra mim.

 

Publicado no jornal Transcender de abril/maio de 2018 – Edição nº 45

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