Instituição camaronesa acolhe jovens mães em dificuldades

jovens acolhidas na Casa da Vida

Rejeitadas pelas famílias por causa de uma gravidez indesejada, ou porque querem ir à escola, jovens são acolhidas por instituição fundada por missionários no Camarões

 

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equenas histórias de vida e de esperança, de dignidade violada e reafirmada, são, há mais de seis anos, vivenciadas cotidianamente na “Casa pela Vida”, em Maroua, capital da província do extremo norte dos Camarões. Quem conta as histórias são as jovens que chegam, geralmente esgotadas, por percursos de sofrimento, violência e incompreensões familiares. Mas a protagonista é sempre a vida. Desejada, amada e defendida.

Adele foi vendida por seu pai como esposa quando estava na adolescência, por 110 mil francos CFA (Comunidade Financeira Africana) – ou pouco mais de 720 reais. Mas, no momento acordado, o pai de Adele não entregou a filha à família do futuro marido. Não tendo condições de ressarcir o débito contraído, foi preso. Adele foi acolhida na Casa pela Vida, aprendeu a usar a máquina de costura e faz pequenos trabalhos como costureira, conseguindo deste modo pagar a dívida do pai e retomar o relacionamento com a própria família, da qual havia sido privada. Voltou a viver em sua casa e a frequentar a escola.

Haoua tem três filhos de um casamento que durou nove anos. De uma hora para outra, o marido decidiu que não precisava mais dela. Maltratava-a e batia nela todos os dias até levá-la ao coma. Por causa da humilhação sofrida e das tradições enraizadas no vilarejo, onde a mulher esposada é propriedade do marido, Haoua não pode mais retornar à casa dos pais. Encontrou refúgio na Casa da Vida, onde teve a possibilidade de estudar e conquistar um diploma em agronomia. Inscreveu-se em um concurso público, passou pelas avaliações e assumiu uma carga enorme de responsabilidades. Sua autonomia e dignidade foram plenamente recuperadas.

jovens acolhidas na Casa da Vida

Exemplos de dignidade recuperada

A estrutura da Casa da Vida abriu suas portas, pronta a acolher aproximadamente 20 jovens grávidas que estivessem de dois a três meses antes do parto, e de assisti-las, depois, junto aos seus bebês, por outros três a quatro meses. Durante todo o período, era lhes assegurada a alimentação e os cuidados necessários e, ao mesmo tempo, as jovens mães recebiam cursos para aprender uma atividade laboriosa. Até hoje é assim: as jovens chegam sozinhas ou direcionadas, geralmente por sacerdotes, mas todas são acolhidas, independentemente de religião, classe social, grau de escolaridade ou região de origem.

A exclusão familiar e social da qual as jovens são vítimas resulta, geralmente, de uma gravidez não reconhecida ou indesejada, mas também de um desejo oculto de frequentar a escola. Há também situações em que as jovens expressam o anseio de conquistar a própria liberdade de escolha, em resposta aos limites das tradições, ou por problemas de doenças contagiosas, moléstias que metem medo nos próprios parentes.

As religiosas da Congregação das Filhas do Espírito Santo garantem o funcionamento da obra. Se, de fato, a palavra de ordem da casa é acolhida para todos, as jovens hóspedes sabem também que existem algumas regras, claras e bem definidas, a serem respeitadas. De modo especial, não é permitido o ócio, para evitar que as jovens possam recair na espiral de dependência do marido, do companheiro ou da própria família. Cada uma delas deve escolher uma atividade para executar, entre as seguintes opções: corte e costura, estudos acadêmicos ou curso profissionalizante. Por isso, além da alimentação e do alojamento, elas recebem escuta, atenção e suporte psicológico para se reconhecer e colocar em prática as próprias capacidades e inclinações.

DESEJO PARTILHADO

A Casa da Vida, ou melhor, a Maison pour la Vie, como todos a conhecem em Maroua, foi fundada em 2012 pelos missionários do Pontifício Instituto das Missões Exteriores (PIME), os padres Danilo Fenaroli e Giovanni Malvestio. A missão da casa é acolher e ajudar as jovens mães em dificuldades. Mas as portas estão sempre abertas também para outras mulheres que tenham sofrido violências ou que tenham sido marginalizadas, como foram os casos de Adele e Haoua.

“Quando cheguei na paróquia de Zouzoui, no norte dos Camarões, acontecia muitas vezes de celebrar funerais de jovens grávidas, que haviam tentado o aborto para evitar que fossem excluídas do convívio familiar. Ainda hoje, uma filha solteira, mas grávida, é fonte de vergonha para toda família, uma mancha indelével aos olhos da comunidade”, relata o padre Danilo.

Naqueles mesmos anos, o padre Malvestio, que trabalhava com essa mesma realidade tão deprimente quanto opressora, teve a ideia de criar um local onde pudesse acolher e ajudar as jovens grávidas – muitas vezes vítimas de estupro. “Quando Malvestio partilhou comigo aquele sonho – diz padre Danilo –, colocamos imediatamente as mãos na massa para dar corpo ao projeto. Unimos nossas forças e não hesitamos em pedir ajuda a amigos e benfeitores. A Fundação Belém (criada em 1997 por padre Danilo, com reconhecimento do governo local e que acolhe crianças órfãs, pessoas com deficiência e viúvas) disponibilizou uma parte de seu terreno em Maroua e padre Malvestio colocou-se imediatamente ao trabalho para recolher verbas para a construção da casa de acolhida”.

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