Livro narra história de pessoas que convivem diariamente com a fome

capa do livro A Fome

Um jornalista argentino viajou durante seis anos por países da Ásia, da África e da América para escutar e contar a história das pessoas que convivem diariamente com o drama de não ter o que comer

 

N
ão temos como negá-lo. Estamos perante um assunto desconfortável, duro, sem qualquer sentimento paliativo, pois entramos no domínio de um dos mais graves flagelos que afetam o homem em pleno século 21: a fome. Vangloriamos os infinitos avanços tecnológicos, que acabam por ser ditadores da nossa existência, fazemos festa à modernidade, mas não conseguimos evitar a morte de três milhões de crianças que morrem todos anos devido à falta de alimentos.

Além disso, toda esta catastrófica realidade pode levar mesmo a extremos de natureza absurda, pois a economia global diz que o problema da fome não se deve à carência de alimentos mas sim à sua má distribuição, à sua inviabilidade oriunda de uma combinação de fatores como questões religiosas, gestão dos recursos, corrupção, exploração e egoísmo capitalista, alterações climáticas, resquícios dos impérios coloniais, ou mesmo devido ao desinteresse por parte de quem tem muito em ajudar quem tem menos – prova máxima do egoísmo ainda latente nesta distorção a que chamamos Humanidade.

É exatamente esse jogo transnacional de “interesses” que o jornalista e escritor argentino Martín Caparrós explora em “A Fome” (Editora Bertrand Brasil, 2016), um extraordinário exercício reflexivo que nos faz rever as inter-relações socioeconômicas mundiais sobre uma perspectiva variada.

Em primeiro lugar temos a observação do profissional, do jornalista, que analisa e sintetiza a problemática, passando ao leitor a ideia das suas origens e implicações, dando também possíveis “razões” e “soluções”, evitando a superficialidade em detrimento da raiz do problema.

Uma segunda perspectiva é revelada no seu sentido antropológico. Caparrós faz-nos “ouvir”, por via das muitas entrevistas que realizou, a voz da fome, contextualizando os seus horrores e elevando ao extremo o seu estado nocivo, marginal, tendo os seus protagonistas, os pobres – os que morrem de fome, direito a, pelo menos, exigirem uma resposta.

Desses diálogos resulta a oportunidade de dar voz aos que são relegados a uma morte silenciosa. A esses, a morte até soa natural, sem aspas, sabendo que os seus filhos, subnutridos ou doentes, não deixaram de ser vozes anônimas de um sofrimento surdo que é exposto nas televisões, arrepiando quem os vê – mas que são, para a maioria que os assiste, apenas notícias, consequências do mundo.

Ao ler essas conversas viajamos pela Índia, Bangladesh, Nigéria, Sudão do Sul, Estados Unidos, Espanha e Argentina. Que importa que alguns destes países sejam os maiores exportadores de carne? Ou os maiores produtores de soja? Nada. Pois a fome não é exclusiva dos países mais pobres: é uma epidemia global disfarçada por algumas estatísticas sobre a pobreza crônica.

Sarcástico, Caparrós afirma: “Existe fome porque há milhões em situação de pobreza extrema. A primeira questão deriva de uma série de fatores; a segunda, dos seus efeitos”. São as origens da fome que mais preocupa quem a estuda, com as equações matemáticas e econômicas no topo da pirâmide de desconfiança.

Existe ainda uma outra perspectiva explorada pelo autor da obra, centrada nas deambulações entre si mesmo e uma entidade imaginada, que não controla – o leitor -, e que traz a palco fatos que estão na adaptação do Homem ao mundo e à sua capacidade de sobrevivência ao meio. Disto resultam algumas perguntas. Como podemos viver se sabemos como está o mundo e nada fazemos para melhorá-lo? Podemos, enquanto indivíduos, lutar contra essa inércia assassina? Quando vamos abrir os olhos e encarar a realidade de frente?

Obra de excelência, “A Fome” dá-nos (mais uma) oportunidade para encarar este problema e tentar compreender o seu alcance, por meio de números reais que, por vezes, são adocicados por eufemismos que apenas adensam o fel vivido por quem morre, diariamente, por não ter o que comer, por lhe ser negado o direito à vida.

 

Martín Caparrós

COMO ESSE TEMA SURGIU EM SUA VIDA?

Escrevo reportagens sobre temas sociais e políticos há muitos anos, em muitas partes do mundo, e sempre notei que, por trás de cada um dos problemas que analisava, havia um que se repetia como pano de fundo, quase invisível: o fato de que muitas pessoas não tinham comida suficiente. Olhando melhor, me parecia mais e mais vergonhoso o fato de um mundo que produz comida suficiente para 12 bilhões de pessoas deixar quase 1 bilhão delas sem alimentos é uma grande canalhice. Por isso, decidi trazer o pano de fundo para o primeiro plano e escrever um livro sobre a fome. Mas era difícil, porque “a fome no mundo” é um clichê sobre o qual todos sabemos o que queremos saber — e que nunca é muito. Para não cair no lugar-comum, entendi que não existe “a fome”, e sim pessoas — centenas de milhões de pessoas — que passam fome, e eu queria escutar algumas delas.

COMO O CONTATO COM ESSAS PESSOAS MUDOU SUA COMPREENSÃO DO DRAMA DA FOME?

Não sei se mudou, eu diria que aprofundou, trouxe novos matizes. Seria uma bobagem pensar que todas as pessoas que passam fome pensam e sofrem da mesma maneira. Quis deixar de lado a facilidade de converter as pessoas em números, e encará-las como são.

Muitas histórias me impressionaram: uma mulher em Daca, a capital de Bangladesh, me contou que, quando não tinha comida suficiente para os filhos, colocava uma panela com água no fogão, enchia de pedras ou galhos, e dizia para as crianças dormirem um pouco, que ela as acordaria quando o jantar estivesse pronto… Assim, os garotos dormiam tranquilos. Não quis perguntar como ela fazia para o truque funcionar depois de duas, três, dez vezes. Acho que, ao menos nessa ocasião, preferi não saber.

SE O PLANETA PRODUZ ALIMENTO SUFICIENTE PARA TODOS, POR QUE A FOME PERSISTE EM TANTOS LUGARES?

É importante não confundir fome com hambruna (termo espanhol que significa uma crise humanitária de fome em larga escala). Hambruna é o estado de emergência em que algum acidente — guerras, tragédias, secas — faz com que muita gente não tenha acesso à comida. Isso, por sorte, já não é tão frequente. Por sua vez, a fome é a privação sistemática que sofrem 800 milhões de pessoas em todo o mundo que, dia após dia, não comem o suficiente. As razões são múltiplas, mas, sintetizando muito: porque alguns de nós concentramos os recursos do planeta de tal modo que muitos ficam sem nada. O planeta produz o suficiente para todos, só que o sistema econômico e comercial global está armado para prover os mais ricos — e deixar de lado os mais pobres.

 

(Resenha publicada no site de crítica literária “Deus Me Livro”)

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