Livro “Silêncio” discute passagem do cristianismo para o catolicismo

 Profundo observador dos dramas humanos, o escritor japonês Shusaku Endo revela não só a angústia da fé, como também a busca dos homens pela misericórdia de Deus. Em “O Silêncio”, ele narra a saga de missionários católicos no Japão do século XVII, um período em que cristãos japoneses eram brutalmente oprimidos

 

O
livro “Silêncio” é considerado a obra-prima de Shusaku Endo (1923-1996), romancista japonês e católico praticante. Condição, aliás, que lhe valeu um duplo exílio. Em seu país natal, o catolicismo não apenas foi sempre uma religião minoritária, mas também perseguida por séculos. Porém, em 1945, ao viajar para a França, a fim de concluir seus estudos, conheceu o avesso do cristianismo na discriminação que experimentou. Esse descompasso biográfico foi fundamental para sua obra. O livro discute a complexa passagem histórica do cristianismo ao catolicismo, isto é, como a mensagem de uma comunidade particular pôde converter-se em credo universal, segundo a etimologia. O caso japonês, contudo, questionou a pretensão universalizante implícita na ideia de evangelização.

Por isso, o contexto da ação do romance é determinante. Entre 1570 e 1614, época em que o comércio com Macau aconselhava o trato amistoso com os portugueses, tudo parecia indicar o êxito dos missionários. Os padres eram recebidos na corte, e até mesmo regentes se converteram, favorecendo a edificação de seminários e igrejas, além da ordenação de clérigos locais. Porém, em 1614 decretou-se a expulsão de todos os padres, e até 1640, devido à perseguição sistemática, supõe-se que 5 mil ou 6 mil cristãos foram martirizados.

Perseguição

Shusaku Endo recriou essa história através de dois padres portugueses, Francisco Garpe e Sebastião Rodrigues, que, apesar das perseguições, viajam ao Japão a fim de manter viva a fé cristã. O impulso evangelizador foi justificado nas palavras de Rodrigues. Ao debater com Inoue, o temido grão-senhor de Chikugo, o jesuíta insistiu: “Se não acreditássemos que a verdade é universal, por que deveriam tantos missionários suportar tais agruras? (…) Se uma doutrina não fosse verdadeira tanto em Portugal quanto no Japão, não poderíamos considerá-la verdadeira”.

Eis a origem do drama vivido por Sebastião Rodrigues, que ainda inclui um Judas particular: Kichijiro, que o trai porque, como ele reconhece: “Os fortes nunca cedem à tortura, e eles vão para o Paraíso. Mas, e quanto àqueles que, como eu, nascem fracos?”. No fim do romance, o leitor encontra o esclarecimento do sentido forte do título: “Ó Senhor, é agora que deveríeis romper o silêncio. Não podeis continuar calado”. Diante da coragem dos mártires japoneses, o silêncio de Deus parecia inconcebível.

A própria palavra silêncio estrutura a narrativa, referindo-se a três níveis: uma complexa questão teológica; a resistência do meio japonês à evangelização; a fé dos católicos japoneses perseguidos.

A contradição entre as ordens de silêncio estrutura o romance, especialmente, na perspectiva do protagonista, o silêncio incompreensível de Deus e o silêncio heroico dos católicos perseguidos. O padre português renega sua fé precisamente para salvar convertidos que se recusavam a renegá-la.

Numa passagem importante, descreve-se o martírio de dois camponeses, Mokichi e Ichizo, que suportam torturas terríveis, mas não delatam os padres que se encontravam escondidos. Então, todas as formas de silêncio se encontram: “Por trás do deprimente silêncio deste mar, o silêncio de Deus – a sensação de que, enquanto os homens erguem angustiadamente a voz, Deus permanece de braços cruzados, calado”.

É como se o grão-senhor de Chikugo tivesse a última palavra no duelo com o jesuíta: “Em outras terras, a árvore do cristianismo talvez dê folhas grossas e brotos fecundos, mas no Japão suas folhas murcham e não nasce broto algum. Nunca pensastes, padre, nas diferenças de solo e água?”.

capa-livro-o-silencio

 

Trecho do prefácio 
“Quem estiver familiarizado com a moderna teologia do Ocidente logo perceberá que a tese de Endo é mais universal do que possam imaginar muitos dos seus leitores japoneses. Porque se o cristianismo helenístico não se adapta ao Japão, também não se adapta (na opinião de muitos) ao Ocidente moderno. Se o conceito de Deus tem de ser reformulado para o Japão (conforme este romance continuamente põe em relevo), também o tem de ser para o Ocidente de hoje. Se os ouvidos do Japão estão ansiosos por surpreender um novo motivo no novo concerto, não menos atentos estão os do Ocidente, em busca de novos acordes consonantes com as sensibilidades nascentes. Tudo considerado, as ideias de Endo são incisivamente atuais e universais.”  (William Johnston)

 

>> Tusquets Editores | Ano: 2017 | 272 páginas

 

DICA: livro virou filme
Dirigido por um ex-seminarista, Martin Scorsese, a adaptação do livro para as telas do cinema foi aclamada pela crítica, especialmente pela Fotografia, que, inclusive, foi indicada ao Oscar 2017. Confira o trailer abaixo:

Publicado no Jornal Transcender de julho/agosto de 2017

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