Esperança renovada em Cristo

presépio de Natal

Levanta o olhos e vislumbre a misteriosa luz caminhante: tenha a ousadia de ver e de sair; de substituir os entulhos interiores por uma modesta manjedoura

 

“Levanta os olhos para o céu e conta as estrelas, se fores capaz”, é o Senhor trazendo Abraão para fora da tenda. Ao ver-se desafiado, o valente hebreu, idoso e sem filhos, não pestanejou. Descruzou as pernas, levantou-se e obedeceu. Ficou maravilhado! Sua irrestrita fé no misterioso convite o tornaria patriarca de uma incontável descendência. Viremos a página: “À vista da estrela, os magos sentiram uma alegria indescritível” (Mt 2,10). Bastou-lhes ver a estrela pairar em cima do lugar onde estava o menino para se ajoelhar e ofertar as riquezas e os perfumes do Oriente. Das alturas soavam louvores a Deus e, “na terra, paz aos seus bem-amados”.

Nos dois episódios, duas urgências: levantar os olhos e sair. Levantando os olhos e saindo, Abraão descobriu no corpo e na alma a energia capaz de gerar um povo, a grande nação da qual viria o Emanuel. Aquele mesmo Emanuel que os sábios do Oriente descobririam e adorariam às portas de Belém, na Judeia. Em resposta ao apelo misterioso, eles haviam deixado o aconchego e peregrinaram, olhos voltados para o alto. Já vimos que a estrela os deixara às portas de um presépio. Apearam-se das montarias: entre palhas cochilava uma criança. Faziam-lhe roda uma jovem, um forasteiro um tanto idoso e alguns pastores maltrapilhos. Na penumbra, um boi, o jumentinho e duas ou três ovelhas. E ninguém mais.

Viremos novamente a página: Hoje, por todo lado, gente de olho pregado não na estrela, mas no espelho, um narcisismo inveterado. E nem se dão conta que a imagem de si mesmos está invertida.
Como é difícil quebrar espelhos! Como custa vergar as dobradiças enferrujadas da alma, essa janela feita para encarar o mundo, o outro, os céus! No entanto, aquele que se levanta e abre os olhos do coração, imediatamente é invadido por uma nova aurora, por aromas inebriantes e por alegres trinados.

“Notável criatura são os olhos – ensinava o padre Antônio Vieira -. Todos os sentidos do homem têm um só ofício: só os olhos têm dois. O ouvido ouve, o gosto gosta, o olfato cheira, o tato apalpa; só os olhos têm dois ofícios: ver e chorar”.

Os olhos não apenas veem, mas também contemplam, porque contemplar vai no rumo da própria alma. Eles contemplam e choram. Choram de tristeza, mas também de felicidade, com a misteriosa linguagem das lágrimas. Estas só deslizam quando os olhos se abrem. Linguagem aberta às misérias, mas também aos amores, à alegria e ao milagre de uma nova vida entre palhas.

Levantar o olhar para o céu. Vislumbrar e seguir a misteriosa luz caminhante entre enevoados corpos celestes. É este o convite, amiga e meu amigo de todas as horas, que me faço e faço a você também. Quebremos espelhos. Tenhamos a ousadia de ver e de sair. De substituir os entulhos interiores por uma modesta manjedoura no outro lado da choupana. No frágil corpinho do recém-nascido renasce a esperança, mais uma vez. É dezembro. É Natal!

 

Editorial publicado na revista Mundo e Missão de dezembro de 2018 – edição nº 228
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