Mateus Ricci: o apóstolo da China

Apesar de todas as dificuldades de se aproximar do imperador chinês, o padre jesuíta nunca desistiu de sua obra de evangelização

Janeiro de 1601. Ainda é madrugada, mas o recinto das audiências, no esplêndido palácio imperial de Pequim, está cheio de pessoas. Era neste lugar que o imperador concedia audiências aos seus súditos. Agora não é mais assim, pois o último soberano da Dinastia Ming, o Venerável Homu, vive fechado em seu palácio e não encontra outras pessoas a não ser suas mulheres e seus poucos funcionários fiéis. Mesmo assim, todos os dias, milhares de chineses esperam com paciência e em silêncio para poder homenagear o trono vazio do rei, símbolo de sua grandeza e de sua majestade.

– Olhos abertos, amigo. Parece que tem gente importante que precisa ser vigiada.

O frio é intenso, mas os soldados da corte não ligam, pois estão protegidos com seus uniformes pesados.

– Sim, ouvi dizer. Ordens do alto. É necessário vigiar aqueles dois estrangeiros, dos quais toda a cidade está falando. Os dois monges vindos do ocidente.

– Não são monges. Pelo menos não me parece. Eu já os vi diversas vezes aqui na corte e se vestem como dois mandarins. Dizem que não possuem esposas e nem mulheres consigo, mas vivem sozinhos em uma pequena casa cheia de objetos estranhos e mágicos!

– Mas, como se vestem como dois mandarins, não será fácil reconhecê-los em meio a toda essa gente!

– Não fique preocupado, eu já os vi. Possuem uma barba cheia e negra que os tornam facilmente reconhecíveis.

Os dois guardas se distanciam fazendo a ronda e continuam a trocar comentários entre si. No entanto, a claridade de uma manhã gelada e cinzenta surge com infinita lentidão, revelando aos poucos os contornos das pessoas reunidas no grande recinto.

Eis ali os dois “monges” estrangeiros: padre Mateus Ricci e padre Diego Pantoja, os primeiros jesuítas a chegarem em Pequim para anunciar o cristianismo. Em pé, misturados entre os outros súditos admitidos para homenagear o trono vazio do imperador, os dois padres trocam olhares. É melhor não falar, pois sabem que estão sendo vigiados em cada um de seus gestos pelos soldados da corte.

No jantar, aranhas fritas

“O imperador está aqui – pensa padre Mateus – neste mesmo palácio, não muito distante, mas para nós é como se estivesse muito longe, inalcançável! Disseram-nos que não é possível falar com ele. Sua pessoa é sagrada e não pode ter contato com aqueles que não fazem parte da sua rede de colaboradores e de suas mulheres… E, mesmo assim, devo falar com ele”. A alma do
missionário está perturbada, dividida entre a alegria por ter finalmente alcançado, depois de anos, a impenetrável cidade imperial de Pequim, e a desilusão de não poder encontrar pessoalmente o poderoso soberano da China. Todo aquele tempo, em frequentes e infinitos contatos diplomáticos, conversas intermináveis e inúmeras visitas, pareceu-lhe desperdício.

Desde os primeiros anos de missão, quando foi enviado pelos superiores à colônia portuguesa de Macau – ao sul da China – padre Mateus imediatamente enfrentou o caráter fechado e impenetrável dos chineses. Mas, vivendo dia após dia com eles, entendeu que, se desejasse superar aquela barreira de desconfiança que os dividia, deveria aproximar-se deles e não pretender o contrário, como haviam feito, sem sucesso, muitos outros que o haviam precedido.

Esforçou-se então, de todos os modos, para compreender a cultura daquele povo, de tornar-se realmente “chinês com os chineses”. Passou um longo tempo estudando a língua, os textos literários e filosóficos – justo ele que, na escola, jamais teve uma grande paixão pela literatura, preferindo as ciências e a matemática! Adotou o modo de vestir dos mandarins e até mudou o seu nome, muito ocidental, para o chinês: Li Mateu.

Não foi fácil, no início, se habituar a isso. O estudo dos caracteres e participar dos banquetes, durante os quais as pessoas cultas geralmente discutiam filosofia e religião: padre Mateus sabia que aquela era a melhor ocasião para falar do cristianismo. Não podia, então, recusar comer “deliciosas” iguarias à base de aranhas fritas.

Durante as conversas tidas com os grandes sábios chineses, padre Mateus Ricci não somente apreciava suas tradições culturais, mas transmitia os conhecimentos científicos do Ocidente. De fato, trouxe consigo um grande globo que mantinha pendurado em sua sala e alguns relógios mecânicos que suscitavam a curiosidade de quem ia visitá-lo. Os chineses, realmente ignoravam a extensão das terras para além da China e se perguntavam como seria possível que os aparelhos de Li Mateu funcionassem sozinhos e que até tocavam, a cada hora, sem que ninguém mexesse!

A fama de Li Mateu, o “sábio vindo do Ocidente”, logo se difundiu no país, chegando aos ouvidos do imperador. Assim, o missionário italiano finalmente pudera chegar à famosa “cidade proibida” e apresentar, através dos funcionários da corte, seus dons ao mandatário.

Um encontro impossível

É quase dia, mas no recinto imperial todos esperam, imóveis e em silêncio, a chegada do cerimoniário da corte para dar início ao ritual de audiência do trono vazio. Padre Mateus observa, pensativo, as pessoas ao redor dele.

“Fiz de tudo para conhecer e amar esta gente. Vivi com eles, aprendi a ser um deles… Agora, por que os sinto, às vezes, tão distantes? Muitos vieram me pedir o batismo, dispostos a abraçar a fé cristã. Alguns são sinceros, mas outros acham que é somente um ritual para ter acesso aos segredos da minha ‘magia’. A distância entre nossas culturas é sempre muito grande e o peso da tradição é ainda forte para a maior parte das pessoas, impedindo-as de aceitar profundamente a mensagem de Cristo. Eis todos aqui a homenagear um trono vazio: a influência do imperador sobre seus súditos é realmente enorme. Consideram-no e o temem como uma divindade. É por isso que, para mim, é importante encontrá-lo, conseguir falar da beleza e da grandeza do cristianismo. Se ele aceitasse a nossa fé, aí sim, cada chinês o seguiria.”

Padre Mateus sofre porque sabe que, não obstante esteja tão próximo do imperador, não poderá falar com ele. E sim, está realmente próximo ao imperador, muito mais do que pode acreditar. Escondido atrás de uma pesada cortina de bambu, que separa uma das portas do recinto do resto do palácio, o imperador o observa. O que o fez deixar seus aposentos invioláveis foi a curiosidade de ver pessoalmente os dois homens vindos de tão longe para oferecer-lhe dons preciosos e extraordinários, sem lhe pedir nada em troca, a não ser a permissão para residir em sua cidade. Ficaria feliz em poder encontrar o famoso Li Mateu, conversar com ele e submetê-lo a milhares de perguntas que o assombram. Ouviu dizer, de fato, que sua sabedoria é grande… Mas não pode! É, contudo, um ser humano como todos os outros, mas sua natureza “divina” o impede de ter contato direto com ele. Um último olhar, depois o “filho do céu” vira as costas e retorna lentamente ao seu precioso isolamento.

UMA PORTA ABERTA
Mateus Ricci e o imperador nunca se encontraram, mas o jesuíta levou à frente sua obra de evangelização. Em 1608, de acordo com o que escreveu numa carta, os cristãos na China eram dois mil, dos quais 300 em Pequim. Entre eles, 48 funcionários do imperador, 80 damas da corte e a mãe, a esposa e o filho do príncipe herdeiro. Em 11 de maio de 1610, padre Mateus Ricci morre, aos 58 anos. Antes, disse aos seus coirmãos: “Vos deixo à frente uma porta aberta. Grandes realizações são possíveis, mas não sem numerosas e grandes fadigas”. De fato, depois de sua morte, a obra dos jesuítas continuou, apesar das intrigas que a China sofreu sob a dinastia Ming. No final de 1600 havia 300 mil cristãos.

Publicado no Jornal Missão Jovem de Junho/Julho de 2018

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