Meio índio, meio caboclo: testemunho de um bispo missionário no Amazonas

Dom Mario Pasqualotto

Dom Mario Pasquallotto na Fazenda da Esperança de Manaus, local que ajudou a fundar para recuperar dependentes químicos

O relato de dom Mario Pasqualotto, um bispo italiano que dedicou sua vida à missão no Brasil de tal forma que agora se identifica mais com o povo humilde da Amazônia do que com a sua terra natal. Aos 80 anos, seu testemunho é inspiração para as novas gerações

 

M
inha família era pobre e, em tempos de guerra, passava dificuldades. Mas, para nós, crianças, nunca faltou comida. Mamãe frequentemente me chamava: “Mario, leva esta comida para Clélia”. Clélia era muito ativa e tinha cinco filhos. O marido trabalhava no exterior, mas pouco se lembrava dos filhos.
“Força, Mario. Aguenta firme a alça da cesta!”. Minha avó me incentivava a carregar uma grande cesta cheia de lenha que, todo domingo de inverno, levávamos às casas dos mais pobres, para que tivessem um pouco de calor ao menos no Dia do Senhor.

Não obstante a guerra estivesse destruindo a Europa (nasci na Itália em 1938, um ano antes que a Segunda Guerra Mundial começasse), não guardo lembranças tristes da infância. Até me divertia ao ver aviões de guerra desenhando figuras estranhas no céu com sua fumaça. Um dia caiu um deles perto de casa. Todo mundo, até papai, correu para colher pedaços de alumínio para, depois, vender. E eu não via a hora dele chegar, para ver quantos pedaços trazia.

No verão de todos os anos meus pais trabalhavam em olarias. De vez em quando as sirenes anunciavam bombardeios e a gente se escondia em milharais. Eu, aos cinco anos, circulava entre centenas de tijolos enfileirados, mudando a posição deles para que se secassem. Minha personalidade se formava ao enfrentar trabalho, no abrir-se à espiritualidade e na vontade de ajudar os outros.

Iniciei os estudos aos sete anos. Algum tempo depois, em fevereiro de 1949, um missionário do PIME falou-nos das missões, de crianças famintas, de muitas pessoas que não conheciam Jesus. No final, perguntou quem queria ser missionário. Cinco alunos levantaram a mão, mas somente eu entrei no seminário. No dia 8 de outubro de 1949, com 11 anos de idade, virei seminarista.

No seminário, os missionários do PIME, expulsos da China pelo regime comunista de Mao Tsé-Tung, nos relatavam penosas experiências. Os testemunhos me impressionavam e alimentavam minha caminhada. Dom Gaetano Pollio, bispo de Kaifeng, ainda tinha as mãos enfaixadas, pois havia ficado com elas amarradas nas costas por muito tempo. Mais tarde, quando me tornei bispo, um coirmão do PIME que convivera com dom Gaetano nos últimos meses de sua vida, doou-me o solidéu do bispo. Uma relíquia! Quando dom José Albuquerque foi eleito bispo auxiliar de Manaus no meu lugar, passei para ele a relíquia.

Aos 18 anos, com forte esgotamento, uma frase do reitor me gelou: “Vá pra casa. Cuida da saúde. Se ficar bom, volte. Se não, é porque Deus não te quer como missionário”. Tudo desmoronava. Abri a alma a um sacerdote, que me disse: “Mario, você errou tudo até aqui. O teu ideal é se tornar missionário. Mas o ideal é Deus! Tem que colocar sempre Deus e a vontade Dele em primeiro lugar”. Aquela luz me tranquilizou e, desde então, acompanha toda a minha vida. Restabelecido, voltei ao seminário.

Tornei-me sacerdote no dia 26 de junho de 1965, pelas mãos de dom Aristides Pirovano, que foi bispo de Macapá. Na época, ele era o superior geral do PIME. Eu sonhava ir logo para a Birmânia (atual Mianmar), onde trabalhava um parente, o irmão Ernesto Pasqualotto, ou ir para a África. Nada disso! Fui enviado como vice-reitor do seminário que o papa João XXIII quis que o PIME construísse ao lado da casa dele em Sotto il Monte, onde nascera. Enquanto o seminário se erguia, morei naquela casa abençoada. Os irmãos do papa eram meus grandes amigos. Os dois anos que passei em Sotto il Monte alicerçaram o meu sacerdócio. Sentia-me pequeno quando, marinheiro de primeira viagem, confessava padres e freiras, fechado no confessionário, como era o costume da época.

Sempre que encontrava dom Aristides, o discurso era o mesmo: “Quando o senhor vai me enviar em missão?”. Finalmente, em junho de 1967, o superior pediu que me preparasse. Iria para a Amazônia.

Em 19 de novembro de 1967, eu e outros quatro missionários do PIME seguimos de trem rumo a Roterdã, na Holanda, onde esperaríamos o cargueiro de manganês que nos levaria gratuitamente a Macapá, capital do Amapá, no Norte do Brasil.

Não foi fácil achar um hotel em Roterdã. Uma espelunca onde dormíamos num único quarto. Os dias passavam. Nosso dinheiro acabava e nada do navio chegar. Fazíamos e comíamos “panini” com o que encontrávamos no comércio local. No dia 29 de novembro finalmente chegou o navio e… esperamos mais um dia, até desembarcarem o manganês.

Nove dias no Atlântico. Chegamos a Macapá no dia 8 de dezembro, festa da Imaculada. No dia seguinte, o padre Gaetano Maiello me levou a uma comunidade onde uma criança estendeu-me a mão. Eu não sabia o que fazer. Rindo, o padre me disse. “Rapaz, ela pede a bênção, não dinheiro. Diga ‘Deus te abençoe’ e ela irá embora contente”. “Deus te abençoe!”. Foram as primeiras palavras da língua portuguesa que aprendi.

Três colegas ficaram em Macapá, mas padre Benito Di Pietro e eu viajamos a Parintins num avião tão pequeno que parecia um passarinho dançando sobre a imensa floresta. Perto de Santarém o piloto nos assustou: “O motor tem um barulho diferente”. Descemos. Ele consertou e fez um voo sozinho para testar o aparelho. Depois, voamos. Em Parintins, os padres e o bispo, dom Arcângelo Cerqua, com uma barba patriarcal, nos aguardavam. Fomos recebidos por aquele abraço bem brasileiro, com generosas pancadas
nas costas.

Dois dias depois da chegada, o bispo nos convidou a visitar duas de nossas paróquias: Barreirinha e Maués. Seis horas de barco até Barreirinha. Que aventura! Chegamos à tardinha. Dormimos na casa paroquial. Dormimos? Dormiram os outros, pois, de madrugada, na trave do meu quarto sem forro, apareceu uma jiboia. O resto da noite foi controlar os movimentos do simpático animal. De manhã, a cozinheira me explicou que a jiboia estava lá para comer ratos e morcegos. Depois de um café com pupunha, macaxeira, fruta-pão e mamão, subimos no barco para mais 12 horas de viagem até Maués. Lá conheci o guaraná e tantas histórias sobre este produto que tem grande significado para os índios sateré mawé.

Dom Mário ao lado de coirmãos do PIME

Dom Mário ao lado de coirmãos do PIME e dos coroinhas da igreja Nossa Senhora de Nazaré, em Manaus

Depois do “batismo” na cultura amazônica, padre Benito e eu fomos aprender a língua portuguesa com uma irmã vicentina em Manaus. No início de abril de 1968, voltamos a Parintins. Minha primeira missão era Barreirinha, cidadezinha com três mil habitantes, na época, e 45 comunidades ao longo dos rios Andirá, Paraná do Ramos e os igarapés da área indígena.

Foram anos maravilhosos. Viagens de barco, de canoa. Horas de remo quando o motor do barco pifava. Temporais. Por três vezes corri o risco de me afogar. Visitava as comunidades com gosto. Cursos de catequese e retiros pregados no interior, junto aos leigos, que eu sentia como irmãos. À noite, na capela de palha ou de barro com o Santíssimo, falávamos com Jesus em voz alta, contando o dia vivido: que orações simples e maravilhosas meus irmãos sabiam fazer!

Em 1976, uma surpresa: o bispo de Parintins me nomeou pároco da catedral e vigário geral da prelazia (só em 1981 é que passaria a ser diocese). Eram momentos de crise e divisão entre os padres. Aos poucos, dialogando com cada um, a unidade voltou.

Foram tempos dos grandes encontros: Congregação Mariana, Apostolado da Oração, Cursilhos de Cristandade, Treinamento de Liderança Cristã (TLC) para os jovens e a Renovação Carismática.
Estava tudo muito bom até que, em 1981, a direção geral do PIME me quis na Itália. Eu seria o reitor do nosso seminário em Treviso, minha diocese de origem. Viveria entre quatro muros. O quarto tinha uma única janela, tão alta que nem dava para ver um pedacinho do céu. Aí me socorreu a frase dos 18 anos de idade: “Nosso ideal é Deus. Não a paróquia, a diocese, a missão”. Nos fins de semana, ia às paróquias para pregar e dar testemunho da missão. Visitei grupos missionários e fiz amizade com muitos sacerdotes. Inseri na Igreja italiana um pouco do nosso carisma: a dimensão missionária.

Em junho de 1985, retornei à minha gente de Barreirinha. A experiência mais marcante foi construir com a comunidade a nova igreja paroquial. Foram três anos de trabalho comunitário, fortalecido por um grande caldeirão de peixe e farinha, que matava a fome de todos, como uma só família. Quem chegava de fora logo ouvia o orgulho do povo: “Venha ver a nossa igreja”.
Em 1990, novo convite a trabalhar na Itália: no mesmo seminário. Não adiantou eu dizer ao superior que “sopa requentada não presta”. Nessa nova temporada o bispo de Treviso pediu-me informações sobre a arquidiocese de Manaus. Delas, resultou a vinda de sacerdotes “fidei donum” a Manaus. Estes ainda hoje trabalham conosco.

dom mario pasquallotto

Final de junho de 1995: meu retorno definitivo a Parintins, agora com outro bispo, Gino Malvestio, colega de turma e grande amigo. Ele me enviou à paróquia mais distante: Maués. Em quatro anos, dei o melhor de mim. Adorei aquele povo generoso e muito ativo. Com 40 mil pessoas na cidade e 140 comunidades do interior, o trabalho era imenso. Ajudado pelas missionárias da Imaculada (o ramo feminino do PIME), em fevereiro e em julho de cada ano realizávamos duas semanas de preparação para as lideranças das comunidades do interior. Três equipes missionárias leigas faziam as visitas: uma formada de famílias e de jovens; outra, de catequistas; a terceira, do dízimo. Os frutos foram muitos.

Sentia-me feliz. Com 60 anos, sonhava terminar a vida entre aquele povo maravilhoso. Mas, em 12 de maio de 1999, um telefonema do arcebispo de Manaus, dom Luiz Soares Vieira, me surpreendeu: “Venha a Manaus urgente. Quero falar contigo”. Imaginei mil problemas. E nem dormi naquela noite.

Às 10h30 do dia seguinte, festa de Nossa Senhora de Fátima, cheguei à casa de dom Luiz, e fiquei sabendo: o papa me pedia para ser bispo auxiliar em Manaus. Fui logo argumentando que não me sentia preparado. “Afinal – eu disse – em 32 anos no interior, virei meio índio e meio caboclo. Nunca trabalhei na capital”. Dom Luiz debulhou os mil desafios da arquidiocese e garantiu apoio total nas ações, que seriam todas compartilhadas. Aceitei e vi que ele ficou feliz. Chamou logo o núncio apostólico, dizendo: “O Mario aceitou!”. Este me aconselhou: “Faça somente aquilo que você fez até agora”.

No dia 15 de agosto foi a sagração. De manhã, me “escondi” numa comunidade de consagrados para rezar junto com o bispo emérito, dom Acácio, que me sugeriu: “Durante a celebração repita sempre no seu coração: ‘És Tu, Senhor, meu único bem!””. Assim fiz e vivi aquele momento com grande paz interior.

Foram seis anos com muita unidade entre ambos. Toda segunda-feira à tarde refletíamos sobre os problemas da arquidiocese e dividíamos as várias tarefas. Um dia ouvi de um jovem sacerdote: “Como é belo ver nossos bispos unidos”. E de outro: “Vossa união dá tranquilidade para nós, padres”.

Há quase cinco anos sou bispo emérito. Mas não parei. Sou confessor na catedral de Manaus e, há dois anos, diretor espiritual do seminário regional. A presidência das três comunidades da Fazenda da Esperança em Manaus, com quase 200 pessoas, me conserva jovem. No dia 25 de junho deste ano completei 80 anos de vida, e, no dia seguinte, 53 de sacerdócio. Será que está na hora de puxar os remos por dentro do barco? Por quê, se Deus nos dá saúde e entusiasmo?

dom Mario na Fazenda da Esperança

Pelas mãos de dom Mario, ala masculina da Fazenda da Esperança de Manaus ganhou o Santuário da Misericórdia, em formato de oca

 

Reportagem publicada na revista Mundo e Missão de outubro de 2018 – edição nº 226
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