Mensageiros da Paz

Depois de uma longa viagem para conseguir a permissão de pregar o Evangelho entre os mongóis, franciscanos recebem um não. A perseverança, no entanto, abriu caminhos para outros missionários.

Julho de 1246. As luzes da aurora se difundem sobre o acampamento mongol de Sira Orda, a alguns quilômetros de Karakorum. Os freis João de Pian del Carpine e Benedito da Polônia repousam em sua tenda de feltro. Os dois franciscanos estão cansados. Mais de 15 meses se passaram desde que deixaram Lion (França), dirigindo-se à longínqua corte do imperador mongol Güyük. De repente, um rumor de cavalos a galope acorda bruscamente frei João. São os guardas imperiais que vieram em sua direção…

“Acorda, frei Benedito! A imperatriz finalmente aceitou nos receber”. Frei João fala calmamente no ouvido de seu companheiro, procurando acordá-lo do sono profundo.

“Receber-nos… Agora?”. Frei Benedito abre os olhos com dificuldade e olha surpreso para João.

“Não, amanhã de manhã. Falou-me Cingai em pessoa, o secretário imperial. Mas devemos orar e nos preparar bem para este encontro. Sabes que é muito importante para nós”. “Sim, sim, frei João, eu sei. É um encontro que esperamos há muito tempo, mas… é cedo, faz frio para levantar agora. Estou com câimbras de fome que me apertam o estômago… Temo não ter mais forças para enfrentar as dificuldades e os imprevistos que nos reserva esta missão. Já faz mais de um ano que…”

“Benedito da Polônia, não fale assim. Quase não o reconheço. Você sempre foi o mais forte entre nós. É verdade, já faz mais de um ano que estamos viajando. Deixamos para traz a Europa e as cidades devastadas pela fúria dos Tártaros. Atravessamos as geladas estepes russas e o temível deserto de Gobi, submetendo-nos a todas as perseguições dos príncipes mongóis que bloqueavam as estradas. Quantas vezes dissemos que não havia mais nada a fazer, que a nossa sorte não seria diferente daquela de outros estrangeiros trucidados sem piedade por essa gente bélica! E, ao invés disso, estamos em Sira Orda, no coração deste poderoso império mongol e, ainda por cima, a poucos passos do acampamento do imperador Güyük. Estamos agora no final da nossa viagem! E você, Benedito, sabe bem o que sempre nos salvou a vida, o que nos permitiu prosseguir e levar adiante a nossa missão…”

O tom de voz do frei João é severo e, Benedito, amargurado, abaixa a cabeça. “A nossa missão! Mas ainda tem sentido, depois de tudo o que vimos? Como podemos falar de paz e do amor de Cristo a esta gente que não conhece outra lei que não a do sangue e da espada, que não respeita os fracos e massacra inocentes?”

“Você tem razão, Benedito. Os mongóis são um povo violento e sedento de poder. Recusam expressamente o nosso convite para acolher a fé de Cristo. Contudo, seus príncipes respeitam o papa, chefe supremo dos cristãos. É um inimigo que goza de grande prestígio e fama junto a eles. E nós somos seus embaixadores, enviados com a missão de levar pessoalmente sua mensagem de paz ao poderoso imperador mongol… Pense em todos os obstáculos que superamos graças ao precioso pergaminho do papa: um salvo-conduto infalível.”

Entre dois muros de fogo

“Sim, mas nem sempre foi fácil vencer as desconfianças dos mongóis. Lembro daquela vez que o cruel príncipe de Batu, neto do valoroso Gengis Khan, quis que passássemos entre duas muralhas altas de fogo. Era o único modo, diziam seus guerreiros, para demonstrar que não éramos mentirosos. Ainda lembro das chamas que me lamberam de todos os lados, que se alongavam em minha direção, chamuscando minhas vestes, impacientes para me devorar”.

Frei João se comoveu. Esticou a mão e pousou delicadamente sobre os ombros de seu coirmão: “Você sabe, Benedito, de todas as provas que foram necessárias enfrentar… Mas, chega de pensar no que passou. Agora não podemos perder esta ocasião importante. Cingai me explicou que a conversa com a imperatriz é uma etapa obrigatória, antes de encontrar seu filho Güyük, futuro soberano dos mongóis. O seu poder é enorme: é ela que pode interceder por nós e fazer de modo que Güyük nos conceda uma audiência ou, pelo contrário, nos expulse definitivamente”.

Frei Benedito levantou a cabeça. As palavras de frei João despertaram sua consciência preguiçosa: “Te peço perdão, frei João, por minha fraqueza. Não sei o que me aconteceu…deve ser esta tensão constante em que vivemos há meses; não poder me mover sem ser observado em cada gesto, não poder comer sem ser envenenado… E mesmo assim, jamais deveria antepor a minha pessoa e os meus medos à honra da missão que fomos chamados a cumprir. Como pude esquecer os ensinamentos do nosso mestre Francisco de Assis? Agora estou pronto. Eis-me aqui!”.

Na tenda imperial

Tourukina, sexta mulher de Okkodai, segundo filho de Gengis Khan e regente por conta de seu filho Güyük, que logo será coroado como Khan dos mongóis, observa do alto de seu trono de ouro os dois mensageiros cristãos.

“Como é possível – pensa – que estes dois homens de aspecto resignado, de roupas tão pobres e simples, sejam os embaixadores de um chefe tão famoso e poderoso como o papa dos cristãos? Como fizeram para chegar até aqui, de tão longe, sem uma escolta e, ainda mais, sem ricos dons para me oferecer? Vi as peles de castor que deixaram com meus servos, realmente muito pobres… E mesmo assim, o fiel Cingai me aconselhou a escutá-los. E também minha cunhada Surukten me disse que era melhor recebê-los para não contrariar o Deus deles, de quem tanto falam…”

Na branca tenda imperial, os poucos momentos de silêncio seguidos da entrada de João de Pian del Carpine e Benedito da Polônia parecem intermináveis. Os dois homens se inclinam três vezes dobrando o joelho esquerdo diante da imperatriz, de acordo com o rito mongol, que já conheciam bem. Depois ficam de pé, à sua frente. Uma atitude conformada, é verdade, mas os olhos de frei João sustentam firmes o olhar questionador de Tourukina. Finalmente, o frei começa a falar e o tom de sua voz revela toda sua força e a nobreza de caráter que se esconde atrás da humilde batina: “Senhora, viemos aqui para oferecer paz em nome do pontífice, nosso chefe e senhor, e para obter, em troca, a segurança de que o novo soberano dos mongóis não retome a hostilidade contra os cristãos. Tenho aqui comigo uma carta original escrita pelo papa, que os seus intérpretes já traduziram. Recebemos a missão de apresentá-la pessoalmente ao nobre Güyük…”.

As palavras de frei João são cheias de respeito pela corte imperial, e sua mensagem é firme e decidida. Tourukina, dentro de si, admira a coragem do emissário do pontífice, mas o seu alto grau não lhe permite revelar livremente o que pensa. Já discutiu, anteriormente, com seu conselheiro Cingai: os dois cristãos devem ser admitidos à corte e então reenviados à Europa, a fim de que difundam as provas da ferocidade e do poderio mongol, espalhando o terror de iminente invasão e convençam assim sua gente a render-se, sem combater.

“Marcharei sobre seus cadáveres”

É inútil prestar muita atenção naquilo que os dois vieram dizer. E, depois, os discursos sobre religião não os interessava, no fundo são todos iguais. Com um aceno das mãos, ordena ao frei João que se cale e, com voz distante e indiferente, fala: “O Deus único, que vocês chamam de Cristo, outros de Buda, outros de Tao, e que tem ainda outros nomes, nos fez ministros das suas vinganças e de suas punições, concedendo ao mundo poucos anos de vida. Nem é importante para nós perecer, mas teremos a alegria e o orgulho de fazer uma última cavalgada sobre um tapete de cadáveres”.

Desta vez, frei João inclina a cabeça, procurando frear sua raiva diante de tanta dureza. Não fala mais, entende que é inútil. Volta-se lentamente para frei Benedito, lhe faz um breve gesto e, então, com outro aceno respeitoso, os dois frades se despedem da corte da imperatriz.

João de Pian del Carpine permanece ainda quatro meses no acampamento de Sira Orda, antes que o imperador Güyük lhe entregue sua mensagem de resposta ao papa: poucas palavras, com as quais o Khan recusa a oferta de paz e ameaça novas incursões. Em 13 de novembro de 1246, João de Pian del Carpine, decepcionado, retoma a viagem de volta. Outros longos e difíceis meses de viagem o esperam. A sua missão diplomática parece falida. Mas não é bem assim. Alguns anos mais tarde, outros missionários franciscanos, entre os quais João de Montecorvino, iniciaram longa caminhada por ele percorrida para renovar o convite à população mongol, para que acolha a fé cristã.

Publicado no Jornal Missão Jovem de Maio de 2018

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