Missão entre os últimos na República Centro-Africana

Aguirre

O
bispo espanhol Dom Juán Aguirre Muñoz veio ao Brasil recentemente, ocasião em que participou da Assembleia Geral Episcopal para dar testemunho da situação caótica enfrentada na República Centro Africana (RCA), país mergulhado numa guerra civil e onde Aguirre é missionário comboniano há quase 40 anos. Ameaçado de morte por grupos muçulmanos radicais, o bispo da Diocese de Bangassou não se deixa abater. Na semana em que voltou à RCA, no final de abril, um novo ataque a uma paróquia na capital deixou 15 mortos, inclusive o sacerdote que estava celebrando uma Missa.

Mundo e Missão – Qual é a atual situação da República Centro Africana?

Dom Juán Aguirre Muñoz – Vivo na África há 38 anos. A República Centro Africana é um país considerado o coração do continente. Estou numa diocese chamada Bangassou, onde sou bispo há mais de 20 anos. O país vive hoje uma situação difícil de guerra civil. Uma guerra esquecida entre um povo extremamente agradável, amável e piedoso. A Igreja local é muito bonita, mas estamos sendo pisoteados por grupos radicais muçulmanos que chegam principalmente do Norte do Chade. Eles são pagos por países do Golfo Pérsico. Os radicais têm entrado na RCA com um grupo chamado “seleka”, que é dividido em 14 subgrupos, e, juntos, pretendem dividir o país pela metade. Já são cinco anos de martírio, mas, ao mesmo tempo, de muitos frutos. Há muito sangue derramado, mas o sangue desses mártires “semeia” novos cristãos. No último ano, para lutar contra os selekas, nasceram grupos não-muçulmanos centro-africanos. Eles se juntaram em grupos armados contra os selekas. Por dois dias conseguiram liberar a RCA, mas, infelizmente, já no 4º dia se converteram em autênticos criminosos. É algo inacreditável, pois eles não pensam apenas em matar, mas em destruir a alma. Nós assistimos boquiabertos essa falta de humanidade. Há, inclusive, canibalismo e tantas outras cenas horríveis. De maneira mais geral, isso é o que estamos vivendo atualmente na RCA.

Como é ser missionário num cenário desses?

A questão é ter vocação missionária. E essa vocação é dada por Deus. Quando Ele nos dá uma vocação, nos chama a sair de nossa terra para ir em outra onde nos quer enviar. Por isso essa vocação é tão bonita.

Se Deus coloca em seu coração para ir à República Centro Africana, ou algum país da América Latina, da Ásia, e em qualquer lugar do mundo, pode ter certeza que Ele lhe dará tudo para ser feliz em sua vocação. O chamado missionário é muito lindo por transformar completamente a vida de uma pessoa.

É possível que muitos tenham essa vocação missionária e sintam-se chamados a trabalhar na África, mesmo com tantas dificuldades. Vários brasileiros já estão lá. No entanto, mais importante é saber quanto representa uma Igreja missionária num país. Foi sobre isso que vim falar com os bispos aqui na Assembleia Geral da CNBB. Quantos missionários brasileiros estão espalhados pelo mundo? Na RCA temos apenas um, o Everaldo Souza, que é um grande companheiro. Ele está numa zona de alto risco, pois há uma grande busca de diamantes. Neste lugar muçulmanos e não muçulmanos se enfrentam, e a Igreja católica é muito perseguida. Mas é preciso ter em conta que no mundo há milhões de bons muçulmanos que não podem ser penalizados em consequência desses grupos radicais. A mim parece que foram anestesiados de sua humanidade. Não consigo entender como tantos jovens, pois são sobretudo eles que fazem parte desses grupos radicais, conseguem ser tão violentos.

Pensando por esse lado, há uma certa urgência de que a Boa Nova presente no Evangelho chegue a esses locais, para que tantos outros jovens não sejam arrebatados pelo sentimento de revolta e revanche…

As pessoas precisam almejar a paz. Aqueles que não a querem, não podem ser os mesmos que guiam o mundo. Infelizmente, somos pressionados por outras situações que também fogem do controle.

Há multinacionais interessadas nos muitos minerais que existem na África. Além disso, diversas matérias-primas são negociadas a bons preços no continente. Quase sempre, essas guerras de fundo religioso são apenas uma cortina para esconder e disfarçar os verdadeiros interesses de outros países que as financiam.

A República Democrática do Congo, por exemplo, extrai 95% do coltan (mistura de dois minerais, e, de um deles, o tântalo, se estrai um metal de alta resistência térmica, utilizado na maioria dos aparelhos eletrônicos portáteis). Esse material é importantíssimo, pois quem tem a posse das minas de coltan controla os conflitos. Isso porque o tântalo é também utilizado na fabricação de mísseis teledirigidos e drones, tão úteis nas ações de bombardeio. Boa parte do coltan encontrado no Congo é roubada por um pequeno país chamado Ruanda, que o vende às multinacionais da Ásia, América e Europa. Esse é apenas um exemplo das situações que nos escapam, mas, como missionários, estamos nesta terra, com esse povo, olhando por eles.

Quais projetos têm sido desenvolvidos pela missão comboniana na RCA?

Temos vários projetos voltados principalmente aos mais vulneráveis. Há, por exemplo, um hospital para pacientes terminais de Aids. Geralmente saímos à procura daqueles que já estão bastante debilitados para que, lá no hospital, tenham uma morte digna. Somente na diocese de Bangassou temos mais de mil crianças órfãs, que perderam seus pais nos conflitos armados, mas sobretudo para a Aids. Diante disso, temos tentado encontrar famílias que possam acolhê-los. Temos também quatro Casas de Esperança, como chamamos os locais que acolhem os idosos que sofrem de demência senil ou esclerose. Na região, eles são acusados de bruxaria e ameaçados de morte. Isso porque, em qualquer sociedade, se há um problema, todos se unem para encontrar um culpado, um bode expiatório. Na cultura deste povo, os idosos doentes carregam mais este peso nas costas. Nas Casas de Esperança eles encontram abrigo, calma, e ficam seguros. Uma religiosa congolesa lhes dá atenção 24 horas por dia, sete dias por semana. Todo o trabalho missionário desenvolvido pela Igreja na RCA é essencialmente dedicado aos últimos, aos mais necessitados.

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