Missionárias com o povo num edifício degradado de Milão

Edifício Satélite

Três Missionárias da Imaculada contam como é o trabalho em Satélite, um conjunto de edifícios degradados em Milão

por Antonella Mariani

S
atélite é um agregado de 40 edifícios de nove andares cada, onde vivem 10 mil pessoas, 80% das quais são estrangeiras. Desde dezembro de 2018 ocupam um pequeno apartamento desse ambiente opressivo três irmãs das Missionárias da Imaculada (MdI), o braço feminino do Pontifício Instituto das Missões Exteriores (PIME). Rosella é italiana. Parboti, bengalesa. Sagaya, indiana. Em menos de 1 km² se comprimem paquistaneses e peruanos, argelinos e senegaleses, albaneses e búlgaros … A riqueza humana de 68 nacionalidades. Nas ruas que se cruzam, um mercado étnico. Comida filipina ao lado do açougue islâmico, meninas e mulheres norte-africanas, cobertas da cabeça aos pés, ao lado de garotas sul-americanas com shorts minúsculos. Nem sempre as relações são amistosas, porém a convivência, sim. Nenhuma cultura prevalece sobre as demais. Entretanto, a integração, a segurança, a escolaridade obrigatória, o desconforto da juventude e das famílias são desafios diários.

As três irmãs não chegaram por acaso ao terceiro andar de um edifício na rua Cimarosa. Elas decidiram realizar a sua primeira missão não na África, na Ásia ou na América Latina, mas em Pioltello, para conhecer a humanidade que vem de todo o mundo. E partilhar a vida.

“Queríamos conhecer a realidade do Satélite a partir de dentro, para entender de forma mais profunda as pessoas que vivem em nosso território, especialmente quem vêm do exterior com cultura e religiosidade únicas. Assim, com as paróquias de Pioltello e a Caritas local, formamos uma comunidade de freiras que pudessem ‘viver’ no meio desta humanidade diversificada”, diz o pároco, Roberto Laffranchi, que abençoou o apartamento cedido às religiosas: dois quartos e um pequeno espaço para rezar, copa/cozinha e um banheiro. Tudo decorado em branco e mobiliado com objetos recuperados, doados pela Caritas.

Vários prédios do Satélite estão com elevadores quebrados e com aquecimento central fora de uso por falta de pagamento. Nesse caso, os inquilinos – às vezes 6 ou 7 por apartamento – são inadimplentes e se contentam em se aquecer em volta do fogão a carvão.

missionarias

Disponíveis

Por enquanto, as irmãs não têm uma tarefa específica a não ser “estar aí – explica a superiora, irmã Maria Antonia Rossi – para oferecer um testemunho evangélico, conhecer o bairro e se fazer conhecer, vivendo como todo mundo, colocando a Palavra em prática junto das pessoas”.

“Vamos ver o que o Espírito Santo vai nos pedir”, dizem. Os vizinhos do mesmo andar, por ora, parecem felizes com a sua chegada, até porque elas não são barulhentas. Uma mãe estrangeira já se aproximou, pedindo–lhes ajuda para a lição de italiano do filho.

Dos alunos do Satélite, 80% são de origem estrangeira e muitos precisam de apoio. Irmã Parboti diz que o local lembra a sua cidade, Daca: desordenada, pouco limpa. Cheia de cores e perfumes, claro, mas também da humanidade necessitada. E confessa que, depois de 22 anos de convento, a primeira noite em um apartamento abandonado por dois anos causou-lhe um certo medo. Agora sorri. E nesse sorriso há o futuro de um bairro que muitos deixaram para trás.

O fracasso e o recomeço

Satélite foi projetado na década de 1960 como área residencial para a classe média, porém a construtora logo faliu e os 1.800 apartamentos mudaram de mãos, a preços reduzidos, para famílias de trabalhadores de baixa renda que chegavam do sul da Itália. Com eles, aos poucos vieram mafiosos e a fama do complexo despencou. Nos anos 1980, estrangeiros pobres começaram a chegar. Hoje, apenas entre 15 e 20% dos moradores são filhos de italianos, afetados pela crise econômica que balançou o país.

Pioltello Satelite

Foi preciso uma corajosa administradora, a “prefeita” Ivonne Cosciotti, três filhos, funcionária de banco, nascida e criada no Satélite, para sonhar com o renascimento de toda aquela zona decadente. Ela é a primeira que fala sobre as três religiosas: “Sim, elas são um sinal de civilidade: a legalidade retorna à rua Cimarosa. E, através das irmãs, o arranjo das coisas tende a se espalhar. Além disso, elas têm um perfil religioso: o Satélite é um local onde é possível haver diálogo entre diferentes religiões”.

Entretanto, a manutenção dos 40 blocos de torres ainda está reduzida a um mínimo. Os despejos não param. Estima-se que 50% dos alojamentos serão em breve colocados em leilão judicial. Ainda que os órgãos públicos tenham pouco espaço de manobra, pois a propriedade das moradias é privada, foi criada uma roda de negociações, da qual participam a prefeitura, algumas fundações e cooperativas, a Caritas, a arquidiocese… Essa associação montou um ambicioso plano de revitalização de todo o complexo.

Horizontes

Imagine um fundo de recursos que consiga, sob a supervisão do município, adquirir, reestruturar e alugar as propriedades em ruína e oferecê-las a famílias selecionadas, a moradores da cidade que garantam a capacidade de pagamento do aluguel. Então você já pode vislumbrar mudanças que beneficiarão a todos. “Claro! Será necessário que a maioria dos atuais proprietários aceite ir para uma espécie de habitação social, a ser criada a exemplo de algumas que já existem”, explica Ivonne Cosciotti.

Paralelamente, com os recursos advindos através de negociações, já foi criada uma central de apoio para a reintegração das mães, além de duas repartições públicas de serviços sociais: uma dedicada à procura e oferta de emprego e de moradia, e outra voltada a atividades para a juventude. Uma banda de cem crianças de todas as nacionalidades já nasceu. Agora, Satélite também conta com as três missionárias das Missionária da Imaculada.

Texto traduzido e adaptado. Publicado originalmente na revista italiana Avvenire

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