Monte Atos: mil anos de solidão

Mosteiro de São Pedro | (Foto: ConstantineD)

No Monte Atos, norte da Grécia, monges e eremitas ortodoxos mantêm aceso um cotidiano de outro tempo. Lá, 20 mosteiros guardam, há mais de dez séculos, sinais vivos do mundo bizantino

 

A
Grécia deve muito do que é ao Monte Atos, sem dúvida. O conjunto de mosteiros da fé ortodoxa que ocupa uma parte da península Calcídica, na Grécia, teve um papel fundamental como reservatório da cultura e da identidade do país e, portanto, de resistência cultural – e até, de certa maneira, política – durante os quatro séculos de dominação turca. O Monte Atos designa uma montanha de mais de dois mil metros de altitude no extremo da península e é por esse nome que é conhecido o conjunto de vinte mosteiros que albergam cerca de 1.700 monges de diferentes nacionalidades. Alguns vivem em eremitérios, prática ascética comum na península há uns bons mil anos.

(Foto: Elvio Maccheroni)

A sobrevivência de todo esse patrimônio desperta admiração, pois a história foi pródiga em convulsões. E não foram apenas os sucessos do Império Otomano na região dos Balcãs. Os ataques piratas e os subsequentes saques, assim como as duas Guerras Mundiais no século 20, representaram fatores de perturbação da vida monástica, a que se acrescentaram os incêndios que destruíram alguns mosteiros.

Como surgiu

Há sobre a origem do Monte Atos um punhado de “explicações” mitológicas, mas a realidade é com certeza diferente. Alguns historiadores consideram altamente provável que ali se tenham refugiado, desde o século VII, eremitas provenientes de diferentes regiões do Império Bizantino.

A vida monástica regular só começaria verdadeiramente com a fundação do primeiro mosteiro, Megisti Lavra, entre 961 e 963. Pouco tempo depois, no século 11, Constantino IX, imperador de Bizâncio, oficializa a designação de Montanha Santa; título já popularizado entre os súditos do império.

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Consta que os patriarcas ortodoxos, após a queda de Constantinopla, em 1453, souberam negociar com os sultões a independência dos mosteiros, ainda que seu progressivo depauperamento tenha sido consequência do confisco de bens por parte das autoridades otomanas. Em contrapartida, o apoio dos czares russos e de certos príncipes da Europa Central e Oriental foi fundamental para a sobrevivência da vida monástica no Monte Atos, que acabou por se tornar, afinal, uma reserva espiritual de todo o mundo ortodoxo, sobretudo da Sérvia e da Grécia.

É um mundo anacrônico, em expressão simplificada, o que sobrevive no Monte Athos, caracterizado por práticas eremitas do cristianismo primitivo. Ascetas e (quase) autossuficientes, os monges ocupam o seu tempo com orações, trabalhos agrícolas, pesca, elaboração de ícones e estudo, organizando a vida cotidiana como se o Império Bizantino não tivesse sido vencido pela História.

Dia a dia

Os principais momentos da rotina da comunidade são marcados pelo toque da simandra

O calendário em vigor é o Juliano e o dia começa cedo, por volta das 3h da manhã, com as primeiras orações e liturgias que, ao domingo, chegam a durar cerca de cinco horas. A primeira refeição tem lugar pouco depois do amanhecer. Os toques da simandra, uma espécie de instrumento em madeira manipulado por um monge que caminha em volta do pátio, marcam os principais momentos da rotina da comunidade, as primeiras orações de madrugada, a primeira refeição e a Missa do amanhecer, a oração da tarde e o recolher, assim que a noite cai.

Há duas espécies de orações: individuais e coletivas. O essencial da oração individual reside no murmúrio constante pelos monges, mesmo quando absortos nas suas tarefas, do mantra “Cristo, tende piedade de mim”. Já as orações coletivas têm lugar durante as cerimônias litúrgicas.

O ritual tem início antes das quatro da madrugada e dura até o dia clarear. O vaivém do turíbulo produz um ritmo hipnótico, sublinhado pela cadência das ladainhas e pelo canto monocórdico dos monges. Nesse momento, de todos os mosteiros da península e de retiros isolados, como Erimos e Santa Ana, onde os anacoretas vivem mergulhados na ascese espiritual, se ergue o rumor das orações: reza-se pela salvação dos seres humanos e são repetidos os mesmos gestos e as mesmas palavras das orações ortodoxas dos últimos mil anos.

Um belo passeio

A seguir, “viaje” pelo Monte Atos através de um belo vídeo filmado com a ajuda de um drone pelo fotógrafo russo Valeri Blizniouk e seu pai Andrej Blizniouk.

Publicado na revista Mundo e Missão de janeiro/fevereiro de 2018 – Ed. 219
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