Música como ferramenta de transformação social

“O esforço do trabalho individual deve ser aplicado a um projeto de grupo. Se não for assim, cai no vazio.” (José Antônio Abreu)

A morte de um diretor de orquestra venezuelano que, através da música, mudou a vida de milhões de jovens nascidos em favelas

 

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esde o início, o nosso trabalho inspirou-se no princípio segundo o qual a educação artística não é um bem da elite, mas que deve se consolidar como legítimo direito social de nossos povos”. Assim o venezuelano José Antônio Abreu sintetizou sua missão ao receber o prêmio Príncipe das Astúrias em outubro de 2008. A música, a arte, a beleza – estava profundamente convencido – são direitos universais dos seres humanos. Todos têm o direito de usufruí-los, sem discriminação de gênero, etnia ou condição social. Não surpreende, então, que quando este diretor de orquestra convenceu oito estudantes do Conservatório estatal a levá-los a uma garagem de um bairro popular de Caracas, para testá-los, ganhou o apelido de “dom Quixote da música”.

Era meados de 1974 e El Sistema era apenas um sonho. Hoje é uma rede de 1.500 orquestras e coros juvenis, nos quais participam dez mil professores e quase um milhão de garotos. A maioria deles provêm dos ranchos, as favelas do país. O instrumento ou a voz foram o meio de seu resgate individual e social. É esta a herança que o criador do El Sistema lhes deixou, ao morrer no último dia 25 de março, aos 78 anos de idade.

O El Sistema é composto por uma rede de 1.500 orquestras e coros juvenis

O “Método Abreu” superou as fronteiras ideológicas que engaiolaram Caracas em uma crise feroz. É replicado e adaptado em quase 50 países. El Sistema furou o bloqueio entre dois inimigos jurados: Carlos Andrés Pérez e Hugo Chávez. Abreu, ministro da Cultura no segundo mandato de Pérez (1989 e 1994), conseguiu construir relações cordiais com Chávez. E este continuou a apoiar a obra do maestro. Com Nicolás Maduro as relações se tornaram mais formais. E a saúde instável de Abreu retirou-o progressivamente do cenário político. Recentemente, o mais célebre dos alunos de Abreu, o diretor da Filarmônica de Los Angeles, Gustavo Dudamel, uma verdadeira bandeira internacional dos frutos de El Sistema, liderou protestos contra o atual mandatário venezuelano.

No entanto, no rescaldo da morte do maestro, os novos e antigos confrontos violentos entre venezuelanos de diferentes orientações pareciam se recompor momentaneamente ao fazer memória deste concidadão visionário. “Um grande venezuelano”, definiu Maduro. E o governo declarou três dias de luto nacional. O necrológico mais eficiente, porém, foi de Dudamel em uma carta emocionante:

“José Antônio Abreu, como nenhum outro em nossos tempos, nos ensinou que inspiração e beleza transformam irreversivelmente o espírito de uma criança, tornando-a um ser humano mais pleno, mais completo, mais feliz e, por isso, um cidadão melhor”.

Abreu, mestre de humanidade

No vídeo abaixo, José Antônio Abreu compartilha sua admirável trajetória. O vídeo está em espanhol, com a legenda em inglês, mas é possível alterá-la para português no botão de configuração. Assista:

 

Texto adaptado do jornal italiano Avvenire. Publicado na revista Mundo e Missão de maio 2018 – edição nº 222
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