MÚSICA

PASSAPORTE PARA A VIDA

A música clássica ganha cada vez mais adeptos e muitos deles são jovens.
O que tem motivado este processo?

O
que é a música? É um mistério. Talvez por isso exerça um poder tão grande sobre nós, seres humanos. Não somente para nos abastecer, mas para nos levantar. Nisto consiste o seu poder salvífico. A música nos faz ver, não com os olhos do corpo, mas com os da sensibilidade, o que está à nossa frente mas desapercebido, ou debaixo da nossa alma… mas desconhecido. Aprendi devagarzinho a gostar da assim dita música erudita, ou clássica. Foi uma descoberta gradual que se tornou um ponto forte na minha vida. Quando me sinto um tanto confuso, sem rumo, e preciso de um olhar mais profundo, abrangente, fico escutando as grandes peças e os grandes autores que escolhi. Selecionar é, de fato, um exercício de liberdade, no sentido que cada um escolhe e tenta entrever as pegadas de sua alma.
É assim que a humanidade deveria crescer. Quando falo sobre a missão, sempre faço uma analogia com a música, dizendo que o testemunho é um acontecimento sinfônico (eclesial), em que cada pessoa “toca” o “instrumento” que lhe foi “entregue” no momento em que encontrou a si mesmo no relacionamento com Deus. Por isso, a missão não suporta o individualismo, sendo, cada testemunha, um integrante da mesma orquestra que executa uma única partitura e obedece a um só Mestre. A seguir cinco projetos em que a música é uma “ferramenta” importante, sobretudo na América Latina, para estimular o desenvolvimento integral dos jovens, notadamente dos mais pobres.

Sonidos de la Tierra

Programa de empreendedorismo social criado no Paraguai pelo maestro Luis Szarán, em 2002, que utiliza a música para reduzir a pobreza, não só econômica. O Sonidos de la Tierra desenvolve outros projetos denominados Orquestras Temáticas (Arpas del Mundo Guaraní, H²0, Filarmónica Fem e Filarmónica Juvenil del Paraguay). Cada qual composto por jovens de diversas comunidades que fizeram a opção de aprofundar os estudos da música para seguir carreira profissional.

Instituto Baccarelli

O Instituto Baccarelli surgiu em São Paulo quando o maestro Silvio Baccarelli viu na TV, em 1996, um incêndio ocorrido na comunidade de Heliópolis, na capital paulista. Diante da tragédia, o maestro entrou em contato com uma escola pública do bairro e ofereceu aquilo que melhor sabia fazer: ensinar crianças e adolescentes da região a tocar instrumentos de orquestra. No início, 36 alunos se deslocavam até o Auditório Baccarelli. Em 2005, através de patrocínios e Leis de Incentivo Cultural, o Instituto se mudou para Heliópolis, aproximando ainda mais a comunidade do Instituto. Em 2010, a Orquestra Sinfônica Heliópolis realizou a primeira turnê pela Europa. Hoje, são atendidas cerca de 1.000 crianças e jovens, a quem o instituto oferece formação musical e artística, proporcionando desenvolvimento pessoal e profissional.

Fundação El Sistema

Fundada por José Antônio Abreu, compositor, economista, político, ativista e educador, falecido em março de 2018. A venezuelano foi tido como uma figura inspiradora e um visionário. Em seu país criou um programa de formação musical chamado El Sistema para crianças desfavorecidas. Em três décadas de existência, a iniciativa tornou-se conhecida mundialmente por melhorar a posição social de centenas de milhares de crianças, e por formar orquestras e regentes de nível internacional. El Sistema é um modelo didático musical que consiste em um método de educação musical gratuita e livre para crianças, jovens e adultos de todas as camadas sociais.
O projeto é administrado pela “Fundación del Estado para el Sistema Nacional de Orquestas y Coros Juveniles e Infantiles de Venezuela” (FESNOJIV), responsável pela manutenção de mais de 125 orquestras (30 sinfônicas) e coros juvenis, e pela educação de mais de 350 mil estudantes, em 180 núcleos distribuídos pelo território venezuelano. Nas orquestras e coros, através de muito empenho pessoal e disciplina, o jovem encontra na música uma via de desenvolvimento intelectual e de promoção social.

Fundação Bachiana

Idealizada por um grupo de músicos e empresários brasileiros, entre eles o maestro e pianista João Carlos Martins, a Fundação Bachiana foi criada em 2006 com a missão de promover, através da música, a democratização cultural e a educação musical, a inclusão sociocultural e a conscientização ambiental. Sempre direcionadas a todos os segmentos da sociedade. A Fundação realiza eventos, cursos, ações educacionais e culturais para adultos, jovens e crianças, abrangendo todas as classes sociais, divulgando, valorizando e democratizando a música clássica. Ao promover a capacitação e o treinamento de profissionais da área musical, visando à integração ao mercado de trabalho e a inclusão social por meio da difusão e do ensino da música clássica e erudita, a Fundação apoia a formação de uma consciência musical brasileira.

Orquestra de Instrumentos Reciclados de Cateura

A Orquestra de Instrumentos Reciclados de Cateura, dirigida por Favio Chávez, é formada por crianças, adolescentes e jovens que vivem na comunidade do Bañado Sur, localizada nos arredores do lixão de Cateura, em Assunção, no Paraguai. A característica distintiva do grupo é a interpretação de obras musicais com instrumentos reciclados feitos a partir de lixo resgatado do lixão.
O objetivo da Orquestra é desenvolver um processo de formação voltado para crianças e jovens que vivem em condições precárias e em estado vulnerável, por meio da música como elemento motivador e promocional, para que possam viver experiências que os ajudam a aprender, permanecer na escola, desenvolver sua criatividade e ter acesso a oportunidades no futuro.
Em 2016 a experiência da Orquestra de Cateura virou film:

 

Sementes de Beleza

Eis um exemplo de como a música pode transformar vidas

Música para vencer os talibãs

Negin KhpolwakNegin Khpolwak, pouco mais de 20 anos, não usa véu, mas quando volta ao seu vilarejo precisa cobrir a cabeça. Desde que a ameaçaram de morte, tem que se esconder. Para os concidadãos, ela é uma vergonha, porque vai à escola e faz música. Negin Khpolwak é a primeira mulher regente de orquestra do Afeganistão.
Os pais, muito pobres, entregaram-na a um orfanato em Cabul. Um dia alguém lhe perguntou se ela tinha interesse pela música. Ela se inscreveu no teste, mas não falou nada em casa. Aprovada, teve que comunicar a família. A mãe se enfureceu, pois dizia que as mulheres deveriam se ocupar da família e não estudar música. Somente o pai ficou feliz e até hoje é o único que continua a apoiá-la.
Negin e a orquestra afegã Zohra já tocaram para os membros do Fórum Econômico, em Davos, na Suíça. Três anos atrás, durante um recital, um kamikaze se explodiu na plateia, ferindo o fundador do corajoso projeto, Ahmad Sarmast. O musicólogo havia retornado a seu país de origem em 2008 e fundado o Instituto Nacional Afegão de Música. Um feito corajoso em um país onde, por anos, apenas o lamento dos muezins era permitido. Sarmast foi em frente e os músicos chegaram a 210 – 1/3 vindo de famílias carentes. E 70 são mulheres. Após o nascimento do instituto, surgiram várias orquestras. A mais recente é Zohra, composta por trinta garotas entre 13 e 20 anos.

Orquestra de Negin Khpolwak

Negin Khpolwak em apresentação da orquestra. World Economic Forum

Negid é uma das regentes, mas o percurso foi longo e difícil. Começou tocando um instrumento indiano, o Sarod. Um dia, o tio proibiu-a de voltar à escola, enquanto o seu pai se encontrava no Tajiquistão. Por seis meses só chorava, até sua volta. Ele a fez retornar à escola. “A música – diz Negid – é um modo extraordinário de se comunicar. Todos a entendem, em qualquer lugar, sem ter a necessidade de falar”.
Negid sabe muito bem porque continua, mesmo com o ódio de sua gente, cercada por medidas de segurança em um país ainda infestado de talibãs e fundamentalistas islâmicos. “Quantos gostariam de nos manter trancadas em casa, de nos impedir de fazer música. Eu quero demonstrar a cada dia que as mulheres afegãs podem fazer tudo. Eu não paro e, se me matarem, não me importo. Devo isso às mulheres”, diz a garota.

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