Na mira do crime

O tema violência faz parte do cotidiano da população brasileira há tempos, mas ganhou ainda mais evidência nos últimos anos, com os alarmantes recordes nas taxas de assassinatos, roubos, latrocínios, entre outros crimes. Uma pesquisa da Organização das Nações Unidas (ONU) revelou que o número de homicídios no Brasil cresceu mais de 230% nas últimas duas décadas.
Conforme consta na mais recente edição do Atlas da Violência, desenvolvido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em apenas três semanas são assassinadas no País mais pessoas do que o total de mortos em todos os ataques terroristas no mundo nos cinco primeiros meses de 2017, resultando em 3.314 vítimas fatais.
Ao considerar um período maior, um levantamento do jornal O Globo a partir do cruzamento de dados do Ministério da Saúde apontou que 786.870 pessoas foram assassinadas no Brasil entre janeiro de 2001 e dezembro de 2015. Isso significa que houve um homicídio a cada dez minutos. Do total, 70% foram causados por arma de fogo e quem mais morreu foram os jovens negros e pobres.

GUERRA NÃO DECLARADA

E
m 2016, último ano com dados públicos disponíveis, o Brasil registrou 61.283 mortes violentas intencionais, de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2017. Na Síria, o número total de mortes violentas oscila segundo a fonte utilizada. Mas, ainda assim o Brasil fica à frente. O Departamento de Pesquisa sobre Conflitos e Paz da Universidade de Uppsala, na Suécia, estima que, em 2016, morreram no conflito sírio 44,3 mil pessoas; já o Observatório para Direitos Humanos da Síria fala em 49,7 mil mortes no mesmo período. Diante desses números, é possível afirmar que a violência em território nacional é cerca de 25% mais fatal que àquela praticada num país mergulhado em uma guerra civil.

QUESTÃO RACIAL

Um dado importante a considerar sobre a violência por aqui é a incidência de crimes contra a juventude, especialmente os negros. A cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado. São 63 mortes por dia, que totalizam 23 mil vidas negras perdidas pela violência anualmente, conforme destacado pela campanha Vidas Negras, lançada pela ONU no final de 2017 no intuito de promover a discussão sobre a questão racial envolvida no problema.
Em entrevista à TV Justiça, a representante da ONU Mulheres Brasil, Nadine Gasman, declarou que colocar o assunto em evidência faz parte do enfrentamento. “Vinte e três mil assassinatos de jovens por ano é um escândalo. A sociedade brasileira, os governos e cada um de nós temos de fazer a nossa parte. A campanha Vidas Negras fala do reconhecimento da importância dos jovens negros e chama à responsabilidade social e política de fazer algo já”, disse Nadine.

FEMINICÍDIO

As mulheres também fazem parte do grupo que está sempre na mira dos criminosos. Ao longo de 2016, 5,7 mil delas morreram no País, que ocupa o terceiro lugar mundial na taxa de assassinatos de mulheres. À frente do Brasil, apenas Índia e Nigéria. Os dados fazem parte de um relatório da entidade Small Arms Survey, localizada em Genebra, na Suíça, e considerada referência global para a questão da violência armada. Um caso recente e de repercussão internacional foi a execução da vereadora Marielle Franco, atingida por quatro tiros na cabeça, enquanto voltava para casa, na capital fluminense. “Em cidades como o Rio, a violência de gangues, o uso excessivo da força pelo Estado, um sistema de Justiça criminal corrupto, a militarização de certas áreas e o acúmulo social de violência – em que a violência gera mais violência – é o que marca as taxas extremamente elevadas”, diz o estudo da Small Arms Survey.

Os 5 estados com mais mortes violentas intencionais

0
Bahia
0
Rio de Janeiro
0
São Paulo
0
Pernanbuco
0
Mato Grosso

Fontes: Small Arms Survey, IPEA, ONU, jornal O Globo, Ministério da Saúde, Anuário Brasileiro de Segurança Pública e Fórum Brasileiro de Segurança Pública

Visão de um especialista

Em entrevista ao Nexo Jornal, o professor Sergio Adorno, do Departamento de Sociologia da USP e diretor do Núcleo de Estudos da Violência, explica as consequências da disseminação da violência na sociedade brasileira.

Publicado no Jornal Transcender de abril-maio 2018

 

 

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