O divino necessita de todos os nossos gestos

ritual

Ritual dedicado a um Orixá do Candomblé | Foto: Vinicius Vasconcelos

A progressiva redução da fé à ética, o conjunto de “valores” nos está deixando, progressivamente, sem fé e sem ética. É como se estivéssemos enxugando a alma, esquecendo que nada muda se não transforma nossa visão mais íntima

 

T
udo aquilo que é religioso – escreve Károly Kerényi (1897–1973) em ‘Relacionamento com o divino e outros ensaios’ – pressupõe o divino: nenhum elemento religioso é conceptível sem a revelação de algo divino. Deus é o princípio, a origem, o Tudo. E é impensável e não representável. O homem, porém, e é esta a verdade igualmente luminosa e inegável, pode entrar em contato com o divino e até mesmo transformar-se no divino: e de tal forma superar a tragédia da impensabilidade de Deus. Isto é possível através do rito. O rito (o sacrifício) é o momento no qual o homem que pensa se debate no pensamento, vai além de si mesmo e entra em uma dimensão onde espaço e tempo desaparecem, porque também o rito vai além de si mesmo, como se fosse só um fragmento, ou uma alusão a algo maior.

Todo o resto – o imenso corpo das religiões – vem depois. É interpretação, falatório. Kerényi cita Martin Buber: “Deus fala ao homem nas coisas e nos seres que lhe envia na vida, e o homem responde, através das suas ações no íntimo destas coisas e destes seres. Mas tem um perigo: que se destaque algo do lado humano desta relação e se torne autônomo, pondo este algo no lugar da relação real”. Este algo ao qual acenam Buber e Kerényi é o perigo das religiões: o perigo de uma narrativa que se limite a uma representação gratificante ou terrificante, inquietante ou consoladora, deitada no nosso tempo, humana em definitivo, e que esqueça o momento verdadeiro. Que está fora do tempo. Nele é Deus o objeto.

O relacionar com o divino

jantar religioso Hindu

Hindus reunidos em jantar religioso

Fundamental, para viver o relacionamento com o divino, explica Kerényi, é a atitude interior de quem se aproxima do divino. De novo se pode descrevê-lo só com palavras compreensíveis em sentido figurado: é o colocar-se defronte ao absoluto. Para que isso possa acontecer, o homem deve apresentar-se purificado no seu corpo terreno e nu.

A atitude exterior, espiã do interior, é muito importante neste ponto. Neste sentido, Kerényi relê W.F. Otto: “O comportamento humano é a testemunha do mito; aparece aqui não na palavra, mas na postura do corpo. É, por exemplo, o caso do estar em recolhimento, do elevar dos braços e das mãos ou, ao contrário, ao dobrar-se até se ajoelhar ou jogar-se no chão, de unir as mãos e de tantos outros gestos que não há necessidade de mencionar. Estes comportamentos não dependem, na sua natureza originária, de um saber ou de uma fé imbuída em palavras, nem são a expressão de uma indizível comoção: são o mito revelado, o próprio mito”.

Silêncio, recolhimento, entonação do canto, entonação e intensidade da oração, medida dos gestos, significado dos gestos e das palavras, luz e escuridão.
Para reencontrar aquele comportamento humano… tão pobre e simples quanto denso de significados, é necessário hoje subir montanhas, atravessar a neve e o gelo, e alcançar os conventos beneditinos mais perdidos e distantes. Talvez necessite chegar às beiradas do Monte Athos, acordar no coração da noite e dos longos corredores dos monastérios então semidesertos, descer à igreja tão escura que não se distinguem os monges nos bancos.

“O sacrifício é uma operação mágica; a fé não é mais que confiança nas virtudes dos ritos, a passagem ao céu é uma ascensão escalonada; o bem é a exatidão ritual”, escreveu Sylvain Lévi em “A doutrina do sacrifício entre os Brâmanes”, dedicado a quanto antigamente acontecia na Índia e ainda ocorre hoje. Se o bem é a exatidão ritual, por qual motivo muitos antropólogos modernos gostariam secretamente de esquecer o sacrifício (o rito) e expeli-lo da comunidade de estudos? Talvez o façam para evitar que sejam sugados no vórtice sacrificial. Talvez porque aquele vórtice obriga a pensar muito. Ou a pensar tudo.

“Deus fala ao homem nas coisas e nos seres que lhe envia na vida, e o homem responde, através das suas ações, no íntimo destas coisas e destes seres.”

PARA REFLETIR

“Em um discernimento correto a atividade do amor autêntico se revela duplo: por meio de eventos alegres e por meio de eventos que fazem sofrer. Isto é, o amor é sempre propenso a trazer prazer a seu amado mas, às vezes, o faz também sofrer porque o ama muito. Porém, sofre junto com ele. E enquanto faz sofrer, resiste também à natural misericórdia que se agita em si, por temor das perdas que poderiam se seguir. O amor, de fato, força a co-participar. O conhecimento, por sua vez, força a resistir também a isto. Junto às diversas escolhas, existem também várias formas de amor adaptadas àqueles a quem se destina. Não procurem um amor insípido de um amante sábio. Quem mata seu filho nutrindo-o com mel, não é diferente de quem o mata com uma faca. À sabedoria de Deus não parece, de fato, bem nutrir seu amado da mesma maneira nos tempos de saúde como nos de doença”, diz Isaac de Nínive, bispo da Igreja Sírio Oriental do século sete.
Existe, portanto, uma grande sabedoria na obra de Deus e deveria haver também nas obras humanas. Uma sabedoria relacional e educativa que pretende colocar o outro na condição de se tornar, como Ele, sábio. Por isso, Isaac afirma que alimentar o filho com mel não é diferente de matá-lo com uma faca. Porque em ambos os casos nega-se aquela liberdade à qual os seres humano têm direito.

Se, de fato, é potencialmente nocivo o exercício da liberdade, é certamente nocivo querer limitá-la, constrangê-la. A afirmação do bem, de fato, depende dos homens continuarem a procurá-lo, habitando o “espaço” que Deus liberou para eles. Um espaço que é como um “lugar privilegiado” em que a responsabilidade pelo destino comum toma forma na partilha de um único desejo e na procura de um único fim, através do confronto das ideias e da colaboração das vidas, dilacerando continuamente as malhas sufocantes do interesse partidário em que consiste a verdadeira negação de Deus.

Publicado no Jornal Transcender de julho/agosto de 2017

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