O missionário que defendeu a causa indígena até o fim da vida

bartolomeu de las casas

Conheça a história de Bartolomeu de Las Casas, o espanhol que veio em missão à América Latina e ficou conhecido como o apóstolo dos índios

 

Dezembro de 1545. É noite e os irmãos do pequeno convento dominicano, perdido entre as montanhas do Chiapas, repousam em seus quartos há algumas horas. Tudo está em silêncio. A interromper a calmaria, chega, de vez em quando, um vento impetuoso, que se diverte ao brincar entre as árvores do jardim. Bartolomeu de Las Casas, bispo da região do Chiapas, retorna de uma longa viagem em Honduras, onde foi testemunhar na Audiência das Fronteiras. Procura esquecer no silêncio do velho convento a tensão dos dias anteriores. Mas não dorme.

 

“Amanhã pedirei ao frei Egídio para cortar aquela velha árvore no jardim. Já está seca e no seu lugar poderá ter pelo menos outras três plantas jovens e ricas de frutos… Amanhã… Porém… Quem sabe amanhã frei Egídio ainda não tenha chegado da Cidade Real! Quem sabe quais notícias poderá trazer da minha gente, dos meus fiéis… e o teto da igreja, será que o bom velho Juan terminou de colocar?… e Armanda, terá tido seu bebê? Quanto tempo se passou desde que deixei a Cidade Real e a minha diocese! Era maio, me lembro bem quando parti… São mais de seis meses.”

Uma vida sem luxo

Bartolomeu de Las Casas prossegue ansiosamente seus pensamentos, procurando um repouso que não vem. Faz frio no quarto pequeno e despojado. Os bons frades do convento não puderam oferecer um alojamento mais digno para Sua Excelência, o bispo do Chiapas. Mas, por outro lado, ele havia chegado de surpresa na noite anterior, sem anunciar, pedindo hospitalidade por uma noite.

Se pudesse, ele teria chegado até a Cidade Real, apesar das jornadas pesadas da viagem, percorrida a cavalo. Mas frei Egídio, seu prudente companheiro, lhe havia quase imposto parar para repousar naquela noite, enquanto ele o precederia na cidade para ver o que havia mudado durante a ausência do bispo.

Frei Bartolomeu está cansado. Mesmo assim, não consegue adormecer. Os galhos da árvore que batem contra a janela, as rajadas de vento, aquela longa cavalgada. Por alguns momentos, as mil preocupações, que há longo tempo o assombram, parecem dissipar e o seu ânimo atormentado consegue finalmente encontrar um pouco de silêncio.

Mas é um alívio que dura pouco. Imediatamente a recordação dos eventos passados se torna ainda mais viva. Rostos carrancudos, olhares ameaçadores, mãos apontadas contra ele em sinal de acusação. Tudo é ainda tão dolorosamente próximo. E as vozes desdenhosas de seus acusadores, na Audiência das Fronteiras, continuam a lhe gritar nos ouvidos: “O senhor é o pior bispo… Deve parar de se meter nas coisas que não lhe dizem respeito… Volte a tomar conta das almas dos cristãos e deixe de lados os índios, que nem mesmo possuem alma… Os índios são nossos, nos pertencem. O senhor entende ou não, excelência? Fique atento, bispo, pois não se vai em frente assim…”

É muito! Realmente é muito para o corajoso frade que há anos prega, escreve, envia denúncias e relações inflamadas ao rei para acusar maus tratos e a exploração a que são submetidos os índios nas terras há pouco conquistadas.

Mas está só, desesperadamente só. De fato, até pouco tempo atrás os colonos espanhóis desfrutavam da proteção legal da encomienda, instituição através da qual o soberano da Espanha, proprietário dos territórios descobertos por Colombo no novo continente, confiava a cada um de seus funcionários administrativos uma porção de terra e, naturalmente, também os indígenas que lá habitavam.

Um sistema aprovado até mesmo pela Igreja, pois comportava o empenho, por parte do senhor da encomienda, de converter e ensinar a religião católica àqueles “pobrezinhos” que ainda não conheciam a Deus. Era, na realidade, uma verdadeira forma de escravidão, porque os índios, obrigados a trabalhar duramente para seus “patrões”, recebiam o batismo sem saber nada sobre o cristianismo.

Disto Bartolomeu se deu conta anos antes, em 1503, quando ainda não era sacerdote e desembarcou da Espanha na ilha de Hispaniola (hoje República Dominicana e Haiti). De fato, até a ele, filho de mercadores espanhóis que haviam viajado com Cristóvão Colombo, o rei confiou uma Capitania. Mas, ao ver o sofrimento dos índios, um sentimento de revolta e de desprezo tomou conta dele.

Cem denúncias, mil acusações

Iniciou assim sua batalha para salvar os índios, uma guerra conduzida somente com as armas da palavra e da denúncia. Muitas vezes pediu e obteve audiência junto ao rei da Espanha, muitas vezes teve que defender-se das acusações de outros influentes nomes da Igreja, que negavam a evidência de seus relatos. Mas, finalmente o rei da Espanha lhe deu ouvidos e, três anos depois, em 1542, a encomienda foi oficialmente abolida.

Um sucesso somente parcial, pois todos sabem que, na realidade, para além do oceano, longe do controle direto do rei, quase ninguém respeita a lei. Frei Bartolomeu retomou a luta. E a última batalha se concluiu: um processo diante da Audiência das Fronteiras, tribunal encarregado em fazer com que a lei do rei Carlos V fosse respeitada no “novo mundo”. A última farsa de uma autoridade enriquecida e corrupta, de uma série de acusadores, naturalmente proprietários de escravos, que não hesitaram em lhe lançar todo tipo de insultos.

No entanto, na sua diocese de Cidade Real a situação não está tranquila. Agora, finalmente ele está retornando, mas, na boca, o amargo das palavras que ficaram sem serem ditas e, nos ouvidos, a seca recusa da corte.

Alguns golpes violentos contra o portão de madeira do convento tiram-no de seus pensamentos. Rumores, passos, vozes animadas e, depois, um toque leve, mas insistente, na porta de seu quarto.
“Monsenhor, sou eu, frei Egídio…”

“Entre, Egídio! Mas por que a esta hora? Que notícias você traz de Cidade Real?”. Um olhar ao rosto perturbado de frei Egídio, e Bartolomeu entende imediatamente que aconteceu alguma coisa grave.

“Desculpe monsenhor, se perturbo o seu repouso a esta hora. Mas não podia esperar. Eu vi e senti coisas muito duras. O senhor deve fugir. E imediatamente”. “Acalme-se, irmão, e conte-me o que aconteceu”. O tormento de Egídio preocupa Bartolomeu, que conhece a coragem de seu companheiro.

“Monsenhor, vão matá-lo”

“Querem matá-lo, monsenhor. Aqueles colonos que já o ameaçaram, souberam do seu imediato retorno e estão conspirando alguma coisa… E o prefeito, o primeiro magistrado da cidade, está do lado deles! Ninguém o defenderá! O senhor fez muitos inimigos com as suas denúncias. Inimigos ricos e poderosos, enquanto o senhor e os poucos que lhe são fiéis estão reduzidos à miséria… Não retorne à Cidade Real. Permaneça aqui, em segurança!”.

“Não me surpreende aquilo que dizes, Egídio. Já percebi o poder dos meus inimigos e a força do ódio deles. Sei bem, sou alguém que os importunou e, quem sabe, conseguirão tirar-me do caminho. Mas não resolverão assim a questão… Os crimes contra os índios são os piores já cometidos, desde que foi colocado na cruz o Filho de Deus! Não posso fugir para me salvar quando centenas de pobres inocentes perdem a cada dia suas vidas”.

“Mas excelência, irão matá-lo…”

“Não posso dar as costas, Egídio. Amanhã, como estabelecido, retornarei à Cidade Real para levar adiante o encargo que me foi confiado. Deus irá iluminar o meu agir… Meu único desejo é que Ele me dê forças. Que Lhe sejam dadas graças”.

UMA VOZ QUE NÃO SE CALA

Incompreendido por boa parte do clero, odiado pela maior parte dos colonos e pouco apoiado pelos funcionários reais, Bartolomeu parece prisioneiro em um beco sem saída. Decide, então, ir mais uma vez à corte para pedir audiência com o rei da Espanha: no início de 1547 retoma o caminho da Europa pela 14ª e última travessia de sua vida. Renuncia à sua diocese de Chiapas e continua a defender os índios em sua pátria, a Espanha, entre processos, denúncias e petições. Morre em 17 de julho de 1566, aos 92 anos.

Publicado na jornal Missão Jovem de setembro de 2018 – edição nº 342

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