O monge que virou prisioneiro por evangelizar na Etiópia

Ilustração: Roberto Ruggerone

Ilustração: Roberto Ruggerone

Guglielmo Massaia enfrentou muitos perigos para anunciar o Evangelho de Jesus entre os etíopes, mas nunca se abalou e nem perdeu a confiança em Deus

 

Estamos em 27 de junho de 1863. É noite. Os soldados de Teodoro, imperador da Abissínia (onde hoje é a Etiópia e a Eritreia), fazem festa. Acabaram de capturar o bispo Gugliemo Massaia, enquanto atravessava sem permissão as terras submetidas ao controle deles. Um personagem famoso em toda a região: dizem que seu remédio contra a varíola é mais eficaz do que aqueles dos curandeiros. Além disso, muitos jovens, fascinados por suas palavras, o seguem em suas frequentes viagens. Por isso, Aba Salama, o poderoso chefe religioso da Abissínia, conselheiro pessoal do imperador, odeia-o mortalmente e o expulsou do império.

 

“Estás contentes, padre estúpido! Tudo culpa sua… Os amigos e as mulheres me esperam e, ao invés, sou obrigado a ficar aqui, acorrentado a você, de prontidão. E sabe-se lá por quanto tempo…”. Assim dizendo, o jovem, para desafogar seu nervosismo, dá um puxão na corrente que o prende a um homem de aproximadamente 60 anos, de aspecto cansado e resignado. É o segundo dia que passa acorrentado àquele homem rabugento e rebelde que lhe faz de carcereiro: um correnha, como chamam aqui o guarda que o vigia noite e dia.

“Quer dormir, é? Está cansado… Mas sim, durma, durma que é melhor. No entanto, visto que não posso me distanciar de você mais do que um metro, eu também procuro ocupar meu tempo como posso. Certo, minha querida?”. Guglielmo Massaia, Abuna Messias, como é mais conhecido na Etiópia, não se volta. Não lhe interessa saber qual mulher esteja agora entre os braços de seu correnha.

Procura dormir como pode, mas seu sono não dura muito. Dois ou três puxões fortes nas correntes o fazem girar sobre si mesmo. A mulher vai embora e o correnha se mexe desajeitadamente sobre a esteira, à procura de uma posição cômoda para dormir. “Não dorme, padre? Tem razão, acho que te atrapalhei…”. É a primeira vez que o jovem fala com palavras quase gentis! Abuna Messias o observa, lê a fundo em seus olhos e os vê irrequietos e rebeldes, mas não maus.

— De onde vens, garoto?, pergunta-lhe.
— De Agau, para além do lago Tana, responde o correnha.
— E como é que você chegou aqui, nas dependências dos oficiais do imperador Teodoro?

O jovem lhe responde, primeiramente com dificuldade, com frases fragmentadas, depois, aos poucos, as palavras saem uma atrás da outra, sem que ele perceba. Quando para de falar, já é noite.

Rumo à corte do imperador

“Vamos, acorde, está na hora de ir”. As palavras bruscas do soldado chamam duramente à realidade o jovem correnha e seu prisioneiro. Significa que o imperador retornou antes do previsto e espera na corte os prisioneiros capturados enquanto atravessavam, sem permissão, seu território. É necessário colocar-se imediatamente a caminho.
A estrada é íngreme. Com frequência tropeçam em cadáveres de animais, mortos pelo cansaço e pela fome. Em certos pontos, o odor é insuportável, mas o correnha está sempre pronto a oferecer ao seu companheiro um frasco de água ou algumas folhas de sálvia para mastigar.

Finalmente, depois de alguns dias de viagem, os prisioneiros chegam ao campo do imperador. Diante dos olhos cansados e dos prisioneiros há um recinto de madeira e arbustos espinhosos que cercam uma grande quantidade de cabanas.

Os prisioneiros se olham com medo. O que será deles? Todos conhecem a crueldade de Teodoro, que não sente nenhum remorso por matar seus inimigos. Já enforcou e matou mais de 200 pequenos reis e chefes de tribos da Abissínia. O que lhe importaria um padre católico e seus poucos e frágeis seguidores?

guglielmo massaia

Naquela noite todos têm dificuldade em adormecer, mesmo que, pela primeira vez, depois de tantos dias, possam dormir embaixo de uma tenda. Tudo mérito do jovem correnha, que falou com seus amigos na corte para oferecer um refúgio decente ao seu protegido.

Isso porque já faz alguns dias que não consegue pensar naquele velho senão com respeito e ternura. Não sabe explicar o que de fato lhe tenha feito mudar de opinião sobre ele. Pode ser o ar cansado e resignado do velho, nunca perturbado por um gesto de raiva ou rebelião, ou aquele modo de rezar, silencioso, constante… O jovem correnha não sabe explicar, mas começa a tomar conta daquele velho tão frágil, tão necessitado de seu apoio, de seu braço forte. E, depois, gosta de falar com ele, de lhe confidenciar seus pensamentos, seus desejos mais profundos.

Derrotado por um monge

Passam-se dois longos dias de espera, cheios de tensão e incertezas. Depois, uma noite, de improviso, um forte toque de trombeta: o imperador voltou. Uma forte agitação se espalha pelo campo. Teodoro entra, escoltado pelos guardas. Então, com ordens fulminantes, fecha as portas e impede qualquer um de se aproximar.

No dia seguinte, o silêncio da manhã é quebrado pelos gritos cruéis de nove traidores sendo surrados sem piedade e levados para o pelourinho no pátio imperial. Abuna Messias reza, mas seus companheiros tremem de medo. Finalmente chega a ordem de se apresentarem diante do grande Teodoro. O imperador está sentado sobre um riquíssimo tapete, cercado por seus funcionários.

— Por que atravessou meu reino sem pedir permissão? – pergunta ao Abuna.
— Não era nossa intenção, mas quando entramos na Abissínia, nos tempos de Ras Aly, o senhor ainda não era imperador. Escrevi duas cartas para comunicá-lo de minha presença e o senhor gentilmente me respondeu.

A voz do religioso não treme diante da corte. Teodoro dá ordem a alguns funcionários para se aproximarem. Lê atentamente alguns papéis que estes lhe apresentam. Depois, levanta-se e pede ao prisioneiro:

— Reconhece estas cartas?
— Sim, majestade.
— Então, você é um bispo? – retoma Teodoro.
— Sim, mesmo que não de seu país.

Silêncio. Todos aguardam ansiosos a sentença. Do pátio chegam, já como um fraco lamento, as vozes dos condenados à morte.

— Saibam todos – troveja o imperador – que hoje, pela primeira vez, Teodoro se diz vencido por um monge e logo o mostrará com fatos. Faça-se ouvir nos campos esta minha declaração.
Abuna Messias é libertado.

 

 

Publicado no jornal Missão Jovem de dezembro de 2018 – edição nº 345

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