O povo dogon no Mali

Vamos conhecer uma etnia rica de cerimônias e cultos aos ancestrais. A sensibilidade dessa gente nos há de envolver emocionalmente

Por E. Walter Porzio


A maior parte da população dogon do Mali vive nas escarpas de Bandiagara, ao sul do rio Níger e parte no território adjacente a Burkina Faso. É composta por cerca de 240 mil indivíduos que cultivam principalmente o milho, o café e o tabaco. Uma de suas principais qualidades que merece destaque é a habilidade no ofício de ferramentaria e da escultura. O idioma deles é uma mistura de dialetos locais. A característica mais surpreendente para nós é que cada membro tem quatro nomes: o primeiro é secreto, o segundo é o atual, o terceiro é referente à mãe e o restante está relacionado à faixa etária do indivíduo. Para evitar confusão com a linguagem comum, cada nome tem um significado linguístico retirado dos dialetos de outras tribos.

Relações de vizinhança

A população dogon, originária da região de Mandé, no sudeste do Mali,  no século 14, migrou posteriormente para as encostas de Bandiagara, até então habitadas por nativos da etnia Tellem. A partir daí, sua história se entrelaça com a de seus vizinhos bozos, com os quais eles mantêm muitas trocas de produtos e parcerias comerciais.

Casas e crenças

As aldeias dogons são construídas seguindo formas humanas. A cabeça é composta pela “toguná”, ou casa da palavra, que consiste em um dossel baixo, onde o “Hogon” (assembléia do chefe com os anciãos) se reúne para discutir as questões mais importantes sobre a vila. O tronco e os membros são formados por casas de barro e celeiros, tudo coberto de palha em forma cônica. Todas essas cerimônias têm a capacidade de envolver emocionalmente qualquer espectador sensível. Característica das casas dos dogons são as portas dos celeiros enriquecidas com relevos cosmogônicos (Relativos aos princípios que explicam a origem do universo, ndr)

Mitos e memória histórica

Tradicionalmente, os dogons praticam uma crença animista que, apesar dos contatos com o islã e outras doutrinas monoteístas, mantêm laços muito estreitos com suas tradições religiosas ancestrais. A cada 60 anos é comemorado o sigui, uma cerimônia itinerante, realizada em viagem de vila em vila, representando a perda da imortalidade humana. O sigui acontece com a encenação da morte do primeiro ancestral: Dyongu Seru. Este é representado pela Iminana, uma grande máscara esculpida em madeira em forma de cobra e com 10 metros de altura, que é mantida em uma caverna secreta durante o interregno.

A esse respeito, deve-se dizer que os dogons fazem estátuas solenes representando antepassados, ​​às vezes com braços levantados, como em uma invocação da chuva. Entre as mais características estão as dos gêmeos de duas cabeças que se referem ao mito dos gêmeos divinos. Outras retratam guerreiros a cavalo ou mães com criança nos braços.

Veneração pelos mortos

Três cultos principais são preservados por essas populações: Awa, Lebe e Binu. Vamos falar da Awa. O Awa é o culto aos mortos. Este tem o objetivo de reorganizar as forças do espírito corrompidas pela morte de Nommo, um ancestral mitológico muito importante na espiritualidade dogon.

Uma das manifestações mais importantes dessa sociedade indígena é a dança Awa, com máscaras de madeira pintada, realizada durante cerimônias fúnebres e no aniversário de algum falecimento. Existem vários tipos de máscaras rituais e suas mensagens iconográficas entram no reino da filosofia e da religião.

O principal objetivo das danças de Awa é acompanhar as almas dos mortos até o local de descanso eterno nos altares da família e consagrar sua passagem humana nas fileiras dos ancestrais. Os dogons que falecem estão enterrados em cavernas nas paredes das escarpas e, para isso, é preciso escalar o falecido com uma corda como se fosse a escalada do Everest.

texto publicado na secção “Povos nativos” na edição Junho-Julho da revista Mundo e Missão. Gostou da matéria? Seja um nosso assinante


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