O trabalho de um bispo numa das maiores dioceses do Brasil

José Negri

 

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issionário do PIME no Brasil há mais de 30 anos, dom José Negri é bispo da Diocese de Santo Amaro, que abrange os vastos subúrbios de São Paulo. Ele leva sua missão episcopal em meio a 500 quilômetros quadrados de favelas. Isso porque, com seus 3,5 milhões de habitantes em uma das áreas mais pobres da capital paulista, Santo Amaro é uma das maiores dioceses do Brasil. “Aqui os números são todos enormes. Em 112, apenas cinco ou seis paróquias, as mais próximas do centro, são habitadas por famílias de classe média ou alta; o restante é composto por 300 favelas. Algumas paróquias atendem mais de 150 mil habitantes”, conta o bispo.

Os desafios, pode-se imaginar, alcançam dimensões extremamente complexas, inclusive por se tratar de uma região bastante carente e vulnerável. “A droga está exterminando nossos jovens. A missão aqui? Reconstruir relacionamentos”, diz ele.

Na entrevista a seguir, concedida ao jornalista Giorgio Bernardelli, da edição italiana da revista Mundo e Missão, Negri explica como tem sido trabalhar na periferia de uma grande metrópole e aponta sua preocupação em estar mais próximo da juventude, como pede o papa Francisco.

Giorgio Bernardelli – O Brasil vive uma crise social e política muito severa. Como você vê tudo isso nos arredores de São Paulo?

Dom José Negri – Os efeitos são muito fortes, especialmente do ponto de vista do desemprego. Os funcionários, as empregadas domésticas, enfim, os trabalhadores da cidade grande vivem nessas favelas onde estamos. Temos pessoas saindo de casa às 3h30 da manhã e voltando à meia-noite. A crise é profundamente sentida nesta parte da cidade porque há mais pessoas pobres e isso hoje é um desafio pastoral. Um pouco de cada vez estamos testemunhando um novo desenraizamento, as pessoas se deslocam de um lado ao outro da metrópole, à procura de trabalho. Tenha em mente que 90% já são pessoas vindas do Nordeste e de Minas Gerais, as áreas mais pobres do Brasil. Muitas vieram para São Paulo procurando emprego e agora o perderam. Daí a grande mobilidade, inclusive com muitos retornando aos lugares de onde vieram.

Como responder a esta situação?

As novas ofertas espirituais – cristãs e não cristãs – visam restaurar a esperança. Mas também há muitas respostas falsas: o crime organizado faz um negócio de ouro com drogas, prostituição, álcool. Acima de tudo, a droga está exterminando nossos jovens. Mesmo assim, confrontado com a proposta do Sínodo dos Jovens proposto pelo papa Francisco, tentamos oferecer a eles uma nova oportunidade, em primeiro lugar, de acreditar em si mesmo e nos valores que eles trazem, porque as propostas oferecidas pela sociedade hoje são degradantes.

E o que você propõe?

Tentamos oferecer algo positivo a partir dos muitos jovens que estão ao redor das nossas paróquias. Os missionários do Verbo Encarnado, por exemplo, montaram oratórios com centros de esporte e reunião. Funciona muito bem e eles estão fazendo maravilhas. Ao todo, são 11 até o momento, onde estamos organizando reuniões: falamos sobre a teologia do corpo, sobre o valor da vida, sobre as coisas que podem ajudá-los a entender uma bela maneira de viver suas vidas longe das drogas. É o nosso maior desafio hoje: removê-los desse flagelo que tem matado muitos deles nas favelas. Todos os dias há mortes, homicídios e roubos por conta das drogas. E as prisões estão cheias de jovens. Eu também estou empenhado na primeira pessoa: indo conhecer os jovens, tentando copiar o querido Cardeal Carlo Maria Martini, que me ordenou padre. Uma noite por mês, encontro-me com eles em uma paróquia: falamos sobre seus problemas, comemos uma pizza juntos. Para eles, é uma novidade: nunca teriam imaginado conhecer um bispo tão de perto…

Você disse que, em todo caso, muitos jovens ainda se encontram nas paróquias. Por que, apesar dessa degradação, esse elo permanece?

Ele existe sob a força da religiosidade popular, transmitida a eles por seus pais. As famílias mineiras e nordestinas estão entre as mais religiosas do país. Deve-se acrescentar que na diocese existem bons sacerdotes que também conseguem envolvê-los do ponto de vista comunicativo. Em qualquer caso, como muitos aparecem na paróquia, a questão permanece a mesma para todos aqueles que não podemos alcançar.

A questão das famílias feridas por separações também é dolorosa no Brasil. Como foi recebida a exortação apostólica Amoris Laetitia em Santo Amaro?

Com a consciência de que será uma longa jornada, não está faltando nem um pouco de confusão. De qualquer forma, nós estamos tentando abrir nossas portas como o papa nos convida a fazer. Claro que os preconceitos contra os divorciados e recasados não são cancelados a qualquer momento, mas estamos tentando. Costumo repetir ao nosso clero que devemos, no entanto, acolher e fazer com que essas pessoas se sintam parte da comunidade. Mas as resistências estão aí. O esforço que estamos concentrando mais energia é dar vida a uma família pastoral verdadeira: em toda a realidade onde existem paróquias há esforços para melhorar a recepção de namorados, a preparação para o casamento, o período imediatamente após o casamento. Tratamos todos esses três momentos. Isso porque, nas visitas pastorais, fiquei apavorado ao ver como o número de casamentos está caindo drasticamente por aqui. É uma tendência que começou há alguns anos, mas os números já são significativos. Nós nos perguntamos: o que está faltando em nós? Precisamente por esse motivo, no ano passado montamos todas as atividades do ano na família.

E quais frutos esse compromisso trouxe?

O sinal mais belo que o Ano Santo da Misericórdia deixou na Diocese de Santo Amaro foi a abertura do tribunal eclesiástico: em um ano já se encarregou de 300 casos. Mas não só para resolver as causas da nulidade matrimonial; ele também realiza a tarefa de ouvir o centro. Está disponível para as famílias que precisam confrontar, para serem acompanhadas, talvez até com psicoterapia. E são centros com pessoas bem treinadas, que podem ajudar a rever seu próprio caminho, sempre com a presença de um padre. Creio que é realmente o fruto da reflexão que o papa Francisco nos ajudou a realizar. E as consequências são vistas: por exemplo, nas paróquias, as famílias com seus filhos começam a reaparecer.

Você também é o bispo de algumas paróquias onde os missionários do PIME estão presentes. Quais dons trazem seus serviços para a diocese?

Atualmente, são três paróquias: uma é estritamente do PIME, mas as outras duas também são lideradas por nossos confrades. A paróquia de São Francisco Xavier é uma das mais antigas da nossa diocese e está localizada em uma área suburbana com pelo menos 60 mil habitantes. Ela está se tornando um modelo para as demais porque os padres do PIME aqui conduziram bem a fala do documento de Aparecida: a paróquia como rede comunitária. Nosso problema é sempre chegar a todos, por isso, a solução adotada foi dividir o território em setores, e hoje são mais de 20 espalhados pela região. Eles se formam como pequenas igrejas domésticas: têm sua catequese, suas iniciativas pastorais, entre outras atividades. Sonho que toda a diocese possa um dia tornar-se assim, pois somente dessa forma é possível superar o anonimato que existe nessas favelas. Você sai de manhã, volta à noite: não há relacionamentos, não há ligações entre as pessoas e entre elas e a Igreja. O estilo que o papa Francisco sugere, por outro lado, é o contrário: o cuidado pastoral como cultura de encontro, de comunhão. Os setores a favorecem porque então, dos subúrbios, chegam ao centro da paróquia, onde há um trabalho de treinamento, de preparação, para depois voltar à sua própria periferia.

E as outras duas paróquias?

A paróquia de Santa Clara e São Francisco é o resultado do trabalho feito durante muitos anos pelo padre Maurilio Maritano; onde agora está o padre Bosco Suresh Kumar, um missionário indiano. É uma das paróquias mais pobres que temos em nossa diocese e faz parte de um contexto de favelas. O padre tenta viver esse contato com as pessoas por meio de um trabalho social. Lá também tem um jardim de infância para crianças. Já na paróquia Nossa Senhora dos Anjos, em outra área bastante pobre, está o padre Daniel Belussi. Como um grande missionário, no entanto, ele foi descobrir outra área próxima, onde cinco mil famílias se estabeleceram. O padre Daniel começou a visitá-la: no ano passado, no dia de Natal, celebrei a primeira missa nesse assentamento. Nesse local há mais de 400 crianças e muitas pessoas abandonadas, inclusive do poder público. Diante desse cenário, o padre Daniel está tentando levar ajuda de sua paróquia até eles. É bonito, porque trata-se de uma comunidade pobre, mas que sabe que há pessoas ainda mais pobres. Inclusive, muitos jovens começaram a acompanhar o padre Daniel nas visitas, promovendo um belo trabalho missionário.

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Fonte: Mundo e Missione

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