Os esquecidos

Respeitar os idosos é honrar as gerações que nos precederam e a elas ser gratos por tornarem possível a nossa existência

smiling man and woman wearing jackets

Foto: Tristan Le on Pexels.com

por André Guerra


Na Itália, as maiores vítimas da pandemia do covid-19 foram os idosos dos asilos, estruturas que se tornaram, como nunca antes, os lugares de periferia humana, de solidão, de abandono. A Europa inteira foi atingida por esse vírus. “Uma inimaginável tragédia para a humanidade”, disse Hans Kluge, diretor da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a Europa, afirmando que praticamente a metade das mortes por essa pandemia no continente europeu ocorreu em casas de repouso.

Os anciãos

Na primeira parte da pandemia, eram muitos aqueles que pensavam que o coronavírus não seria um problema, porque ele estaria matando apenas as pessoas mais idosas. Esse era um pensamento comum. A vida tem valor só relacionada a jovens? A vida de um idoso não é tão importante, até porque sua morte não seria apenas o fim de um processo natural? Parecem questões impronunciáveis, mas não é assim. E, apesar do Estatuto do Idoso orientar que “é obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do Poder público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária”, os dados dessa pandemia nos mostram que, na verdade, as pessoas mais idosas foram de fato esquecidas. Os que já estavam sem dúvidas colocadas na margem da nossa sociedade, da nossa vida, com certeza dos nossos pensamentos, agora estão mais ainda.

Na Espanha

Há quem, na Europa, não teme expor esse pensamento: idosos são como olixo, são como os novos párias da humanidade. Na Espanha, por exemplo, houve um verdadeiro massacre: os dados oficiais relatam quase 21 mil vítimas de coronavírus morreram em casas de repouso. E alguns intelectuais acusaram o governo local por ter divulgado uma circular que pedia que as pessoas de 80 anos não fossem hospitalizadas em terapia intensiva, para que pudesse ser  evitada a saturação dos hospitais. “É uma irresponsabilidade social. Em uma crise de saúde, a prioridade é salvar vidas, toda a que for possível.Deixar de ajudar os idosos ou deficientes, simplesmente porque eles são deficientes, é uma discriminação inadmissível contra a moralidade e a constituição”, disse a filósofa Adela Cortina. Roberto R. Aramayo, presidente da Associação Espanhola de Ética e Filosofia Política, acrescentou: “Nossos idosos não merecem ser tratados como algo que pese no cálculo econômico. Devemo-lhes o respeito devido às gerações que nos precederam e a gratidão por tornarem possível a nossa existência”.

Francisco

“A velhice não é uma doença, é um privilégio! A solidão pode ser uma doença, mas, com caridade, proximidade e conforto espiritual, podemos curá-la”. Foram as palavras que disse o papa bem antes da pandemia, em janeiro passado, ao receber no Vaticano os participantes do primeiro Congresso Internacional de Pastoral dos Idosos. “O Senhor pode e quer escrever com eles também novas páginas, páginas de santidade, de serviço, de oração. Também os idosos são o presente e o amanhã da Igreja. O plano de salvação de Deus é também realizado na pobreza de corpos fracos, estéreis e impotentes. Do ventre estéril de Sara e do corpo centenário de Abraão nasceu o Povo eleito. De Isabel e do idoso Zacarias nasceu João Batista. O idoso, mesmo quando é fraco, pode tornar-se um instrumento da história da salvação”, explicou o Santo Padre.

texto publicado na secção “Periferia” na edição Junho/Julho da revista Mundo e Missão. Gostou da matéria? Seja um nosso assinante


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