Quais os principais legados do Ano Nacional do Laicato?

leigos rezando

A “conversão pastoral” da Igreja que o Papa Francisco pede é, antes, a conversão dos corações, das esperanças, dos serviços e ministérios dentro e fora da Igreja

 

A
pós a conclusão do Ano Nacional do Laicato é justo que nos perguntemos o que vai ficar de tantas palavras, encontros, caminhadas e celebrações. Esta foi, desde o início, uma das maiores preocupações da Comissão encarregada pela CNBB de pensar e planejar o Ano. Uma inquietação certa, porque o nosso ativismo não para e esquecemos rapidamente os temas de muitas iniciativas anteriores. Certos assuntos, após tê-los bem mastigados, devem ser também digeridos para que produzam os frutos e as energias esperadas. Isso precisa de tempo e de paciência. Dois legados foram propostos: a formação dos Conselhos Diocesanos de Leigos e a Auditoria da Dívida Pública. Um objetivo mais eclesial e outro mais social. Espero que tenham acontecido, em muitos lugares, estudos e debates sobre esses temas.

Eu gostaria, porém, de ampliar o leque e voltar à grande questão motivadora do Ano: a participação plena e consciente dos leigos e leigas na Igreja e na sociedade. Um convite, afinal, para maior confiança e comunhão entre todos, um Povo de Deus unido e fraterno que caminha junto na história. Aqueles que nos olham de fora não nos pedem soluções mágicas que resolvam tudo. Querem saber se vale a pena ainda acreditar no ser humano ou se devemos entregar tudo ao pensamento único do ídolo dinheiro. Querem saber se é possível construir uma sociedade mais justa e solidária ou se devemos desistir de sonhar e de esperar justiça e paz para todos.

A Igreja e as nossas comunidades são chamadas a dar exemplo de unidade na diversidade, de colaboração e partilha entre diferentes, em nome de uma fé e de um Deus Uno e Trino. Daremos conta deste desafio? Em 2019 teremos algo inédito: o Sínodo Especial sobre a Amazônia, convocado pelo papa Francisco. A quase totalidade das nossas comunidades do interior não têm a presença do ministro ordenado aos domingos. São os animadores e animadoras, leigos e leigas, os responsáveis pelas celebrações da Palavra. Falta celebrarem a Eucaristia. As periferias das nossas grandes cidades não estão em melhores condições. As distâncias são pequenas, mas a indiferença, o mito do lazer e o comodismo impedem a aproximação. O que fazer?

Não basta multiplicar o clero, ordenando não sei quem, se a maioria dos batizados continua pensando que a Igreja é negócio de padre e que basta batizar os filhos pequenos para dizer que são católicos. Algo semelhante vale também para a participação na política. Devemos trabalhar para formar leigos e leigas preparados e competentes na administração da coisa pública, honestos e capazes de enxergar o bem comum.

Podemos elegê-los e colocá-los nas salas dos botões. Mas não basta se, no dia a dia, continuamos com as nossas falcatruas caseiras, as corrupções de esquina, as propinas e os favores entre amigos que burlam qualquer lei, chamando isso de jeitinho. A “conversão pastoral” da Igreja que papa Francisco pede é a busca de autenticidade, alegria de seguir o Senhor, cada um com a sua vocação, os seus dons e capacidades. Um só coração e uma só alma, como no início.

 

Publicado na revista Mundo e Missão de dezembro de 2018 –  edição nº 228
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