Os povos da Amazônia e a defesa da Mãe Terra

(Foto: Thiago Gomes/Agência Brasil)

Coordenadora de comunicação da Comissão Episcopal para a Amazônia e também da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam) conta como a Igreja tem ajudado a população indígena a defender as florestas

 

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á um bom tempo, cultivávamos a alegre espera do anúncio do papa Francisco convocando um Sínodo para a Pan-Amazônia. E eis que no último dia 15 de outubro fomos alegremente surpreendidos pelo comunicado do papa: “Atendendo o desejo de algumas Conferências Episcopais da América Latina, assim como ouvindo a voz de muitos pastores e fiéis de várias partes do mundo, decidi convocar uma Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a região Pan-Amazônica. O Sínodo será em Roma, em outubro de 2019. O objetivo principal desta convocação é identificar novos caminhos para a evangelização daquela porção do Povo de Deus, especialmente dos indígenas, frequentemente esquecidos e sem perspectivas de um futuro sereno, também por causa da crise da Floresta Amazônica, pulmão de capital importância para nosso Planeta. Que os Santos intercedam por este evento eclesial para que, no respeito da beleza da Criação, todos os povos da Terra louvem a Deus, Senhor do universo, e, por Ele iluminados, percorram caminhos de justiça e de paz”.

Um olhar diferente

A convocação para o Sínodo Pan-Amazônico lança novamente um olhar – que já vem sendo insistido pelo pontífice desde a sua Carta Encíclica Laudato Sì (LS) – sobre a realidade deste nosso chão tão importante para o mundo, a Pan-Amazônia. São tantas riquezas e tantos povos, mas violados, explorados e degradados.

“Como nunca na história, o destino comum obriga-nos a procurar um novo início (…). Que o nosso seja um tempo que recorde o despertar de uma nova reverência perante a vida, pela firme resolução de alcançar a sustentabilidade, pela jubilosa celebração da vida”, informa a Carta da Terra, assinada em Haia em junho de 2000.

Povos da floresta

(Foto: Thiago Gomes/Agência Brasil)

Pensar num Sínodo para a Pan-Amazônia é pensar nos povos e nações que vivem nos nove países que têm em seu território a floresta Amazônica, sendo no Brasil: 67%, Peru: 13%, Bolívia: 11%, Colômbia: 6%, Equador: 2%, Venezuela: 1%. Suriname, Guiana e Guiana Francesa somam 0,15% do bioma amazônico. Pensar num Sínodo Pan-Amazônico é olhar para a América do Sul, onde habitam aproximadamente 2,8 milhões de indígenas, pertencentes a 390 povos originários, e cerca de 137 povos “isolados” (não contatados). São pessoas que falam 240 línguas diferentes, de 49 ramos linguísticos, consideradas as mais relevantes do ponto de vista histórico e cultural. Contudo, não podemos esquecer as comunidades ribeirinhas e os territórios remanescentes de comunidades quilombolas. E nos lembrar também das populações urbanas, pois aproximadamente 79% delas vivem em centros urbanos na Amazônia brasileira.

Evangelização intercultural

O Sínodo terá presente a evangelização na Pan-Amazônia e é preciso, mais do que nunca, pensar a evangelização a partir da cultura desses povos, que têm um modo particular de relacionar-se com o Sagrado, têm sua espiritualidade, vivem uma fé concreta, relacionam-se com o “Deus Onipotente, presente em todo o universo e na mais pequenina das criaturas, e que envolve com ternura tudo o que existe”, conforme escreveu o papa Francisco em Laudato Sì (nº 246). Esses povos vivem uma forte espiritualidade e educação ecológica, preservam uma aliança entre eles e o ambiente. É preciso falar de interculturalidade.

Isso faz-me lembrar do encontro promovido pela Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam) em outubro de 2017 em Itaituba, no Pará, onde estiveram, pela primeira vez reunidos, os povos da Bacia do Rio Tapajós e a Igreja católica para, juntos, definirem uma agenda comum em defesa dos povos, dos rios, da floresta e de seus territórios.

A grande família

Naquele encontro, o ser humano e a natureza formavam uma unidade. Era só contemplar o lugar da reunião: debaixo de um santuário natural, dezenas de mangueiras formavam, com seus troncos, as pilastras, e suas folhas amenizavam os raios do sol. Nesse aconchego, uma pequena garota munduruku dormia um sono profundo, no chão, em cima de uma toalha aos pés da mãe, atenta a cada palavra que a assembleia falava. As demais crianças brincantes corriam alvoroçadas. A juventude guerreira, sempre a postos, com frequência preparava o xibé, uma mistura de farinha de mandioca com água, para servir ao grupo: mais de 200 pessoas. “Assim não dá fome nem sede”, dizia a jovem munduruku Marineide, que servia o xibé aprontado pelo jovem guerreiro Eldo Manhuary. Os caciques e demais lideranças pediam a palavra para expressar suas preocupações frente aos grandes projetos que chegam com força destruidora em toda a Pan-Amazônia.

(Foto: Paulo Maia/Repam-Brasil)

No rio, a vida

Foram vários momentos celebrativos, como a confraternização ao redor do fogo, liderada pelo cacique Juarez Munduruku, em que os representantes dos grupos trouxeram à memória seus antepassados e a cultura que deles receberam e a história dos povos ali presentes. Também celebraram o Rio Tapajós. Na ocasião, assumiram o compromisso de protegê-lo. “O rio é a nossa despensa. Aqui buscamos nosso alimento diário e fresco. Não podemos deixar que as mineradoras e as hidrelétricas destruam e contaminem nossas águas. Não queremos barragens, pois elas servirão a poucos”, disse a jovem liderança do povo Manoki, Tipuici Manoki, que pediu para que lembrassem o nome das lideranças, pais, mães, jovens e crianças assassinadas por conta da luta dos povos pela defesa da terra, dos rios, da floresta, da vida humana. Em seguida, às margens do Tapajós, fizeram a dança circular, o toré, de braços entrelaçados e unidos em aliança, no compromisso de defenderem a Bacia do Tapajós.

O papel das Igrejas

Os povos do Tapajós pediram à Igreja católica “missionários comprometidos para ajudar na formação de novas lideranças indígenas e comunidades tradicionais, e não apenas priorizar a sua ‘catequização’”. Convidaram a Igreja a “uma presença diferenciada, de acordo com cada realidade, que possa orientar os caciques e demais líderes locais a prepararem a juventude para lutar e defender os seus povos futuramente, para não serem enganados pelos governantes ou cooptados pelos grandes empreendimentos”. Na parceria com a Igreja católica, sugeriram um diálogo com as Igrejas evangélicas para que, realmente unidas, possam defender a floresta e os povos ameaçados.

(Foto: Paulo Maia/Repam-Brasil)

Repam em ação

Desde sua fundação, em setembro de 2014, a Repam busca fortalecer a ação da Igreja junto aos povos que vivem na Pan-Amazônia. No Brasil, no decorrer de 2016 e 2017, a Rede realizou 16 seminários em diversos locais da Amazônia Legal com o intuito de colocar em diálogo a vida do povo amazônico à luz da Laudato Sì do papa. Com isso, estabeleceu-se um diálogo entre os mais diversos povos que vivem na Amazônia, em defesa desse bioma tão caro para a humanidade, e que vem sendo aniquilado pelos projetos de destruição, infligidos pela lógica do capital desenfreado, que, por sua vez, provoca um verdadeiro etnocídio, em troca da exploração a qualquer preço. E nisso o papa Francisco exorta a um posicionamento claro da Igreja na Amazônia, para que não seja como aqueles que estão sempre de malas prontas para partir, depois de tê-la explorado completamente.

O ofegante pulmão do planeta

A exploração na região provoca riscos ambientais e sociais incalculáveis e ameaça o “pulmão do Planeta, repleto de biodiversidade”. Novamente nos lembra o papa Francisco e nos alerta que “há propostas de internacionalização da Amazônia que só servem aos interesses econômicos das corporações internacionais” (LS 38). Com isso, a Igreja, por meio da Repam, se coloca num posicionamento incisivo, pois a política não deve submeter-se à economia e aos ditames do paradigma eficientista da tecnocracia. A prioridade deverá ser sempre a vida, a dignidade da pessoa e o cuidado com a Mãe Terra e tudo o que nela habita.

(Foto: Thiago Gomes/Agência Brasil)

Em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, em 9 de julho de 2015, o papa não titubeou em proclamar: “digamos ‘Não!’ a uma economia de exclusão e desigualdade, onde o dinheiro reina em vez de servir. Esta economia mata. Esta economia exclui. Esta economia destrói a mãe terra”.

Os legítimos guardiões da Amazônia

Na Laudato Sì encontramos o alerta: “O drama de uma política focalizada nos resultados imediatos (…) torna necessário produzir crescimento em curto prazo” (LS 178). Para o papa, “no debate, devem ter lugar privilegiado os moradores locais, aqueles mesmos que se interrogam sobre o que desejam para si e para os seus filhos e podem levar em consideração as finalidades que transcendem o interesse econômico imediato” (LS 183).

E isso é uma verdade, pois é só perguntar a um indígena, a um ribeirinho, a um quilombola, a uma quebradeira de coco ou a um extrativista, o que é melhor para eles. Eles entendem. Eles sabem o tipo de desenvolvimento que é melhor para manter o bioma intacto. É pena que nenhum governo queira escutar as propostas dos povos que são os verdadeiros guardiões da Amazônia.

Publicado na revista Mundo e Missão de janeiro/fevereiro de 2018 – Ed. 219

 

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