Padre Luiz Carlini: “Os meus 48 anos de missão no Amapá”

Entrevista ao padre Luiz Carlini, missionário italiano do PIME, que completou 75 anos e deixou o seu papel de pároco da paróquia Jesus Bom Samaritano, em Macapá

por André Guerra


Setenta e cinco anos de idade, sendo 48 anos de padre em que 47 deles dedicados à missão no Amapá. Padre Luiz Carlini, missionário italiano do PIME, completou 75 anos no dia 16 de junho e apresentou sua renúncia no dia 10 de junho por limite de idade, segundo o Cânon nº 538 do Direito Canônico. Escreveu ao bispo de Macapá, dom Pedro José Conti, uma carta na qual agradece “a Deus e a esta antiga Prelazia, agora Diocese de Macapá, por ter-me dado a oportunidade de descobrir e crescer, aprender e servir em situações várias na busca de traduzir o Evangelho, nestes 48 anos de presença, na caminhada de vida e de fé, junto ao povo”.

Deixou o seu papel de pároco da paróquia Jesus Bom Samaritano (o novo pároco é padre Joseph Kouadio, missionário do PIME originário da Costa do Marfim) e pretende em breve retornar à Itália para desempenhar suas funções sacerdotais na Diocese de origem. Atuou na fundação das paróquias de Porto Grande e Laranjal do Jari, bem como, por 14 anos na Paróquia Sagrado Coração de Jesus e outros seis anos em Jesus Bom Samaritano. “Não é pouco tempo não, são 48 anos de coragem, de testemunho, de dedicação e de maneira especial, é bom lembrar, com os pequenos, os pobres, os presos”, destacou dom Pedro, durante a missa de despedida, sobre os trabalhos realizados por padre Luiz neste quase meio século de missão.

Qual é a primeira lembrança do começo da sua missão?

Eu cheguei ao Brasil junto com outros 3 sacerdotes italianos do PIME. Mal cheguei e já tive um problema de saúde e fiquei em São Paulo por um período, enquanto meus coirmãos foram para o Norte do paí. Depois de um mês, consegui ir para o Norte, com o bispo dom José Maritano. Aí, foi fazer uma viagem com o padre Angelo Bubani numa voadeira de madeira fomos atraversando o rio Maracá subindo quinze cachoeiras. Foi, entre aspas, o meu batismo, porque peguei duas malárias e fiquei internado por uma semana no hospital São Camilo em Macapá. Em novembro, finalmente, foi para a minha primeira viagem da missão, no archipelago Bailique no foz do Amazonas. Era um lugar lindo, eu dormia na capela, e a noite, quando todos iam embora para as casas deles, eu ficava sozinho ouvindo todos os barulhos do Rio, da agua quanto dos animais. Agradeço muito a Deus por aquele período, porque naquele silencio eu sentia a presença de Cristo e durante a noite conseguia relembrar de todos os encontros que eu fazia no dia. Era um lugar de uma simplicidade enorme.

1973, padre Luigi Carlini na voadeira ao longo do Rio Pedreira

Ao longo dos anos, como mudou a sua forma de ser missionário?

Eu comecei a minha missão fazendo tesouro de todos os ensinamentos que eu tive. A educação transforma, dá um olhar diferente para enfrentar a vida. Comecei a minha missão com os meus coirmãos padres João Gadda, Sandro Gallazzi e Ângelo Damaren, eravamos um time. Apesar que cada um tinha os próprios compromissos pastorais, tinhamos combinado momentos em conjunto, foi maravilhoso experimentar a vida comunitária: era uma ocasião para crescer, para nos confrontar, para rezar juntos, na época eu estava com dom José Maritano na catedral. Aprendi com dom José como ser missionário, aprendi realmente o que significa fazer a “caminhada da comunidade”, a comunidade não é uma estrutura dentro da Igreja, a comunidade é a “traduçaõ” da Eucaristia como comunhão com Cristo e com os irmãos, aprendi a rezar mas também a levantar as mangas para ajudar o povo. Passou um tempo e o grupo foi reunido para trabalhar numa comunidade de base. Foram anos cheios de desafios e compromissos.

Qual foi o desafio maior?

Acho que foi entender como a palavra nos pedia de ser irmãos com esse povo, de viver na comunhão com as pessoas. Houve várias pessoas que achavam que este compromisso com o povo fosse “comunismo”, mas não era assim. A dimensão politica da missão não era uma dimensão de partidos, mas uma questão humana, de compartilhamento com os outros. Dentro da Igreja foi este o desafio maior. Fora da Igreja, eu tive que lidar com os militares, nos anos da ditatura.

E quais dificuldades você encontrou?

Encontrei várias dificuldades, como todos os missionários. Sempre tive problemas de saúde, mas nunca atrapalharam a minha missão, a minha visão da vida, o meu desejo de ser padre e de ficar com esse povo brasileiro. Acho que uma das dificuldades maiores que eu encontrei foi a divisão de visão entre alguns padres, isto aconteceu muitas vezes, não unicamente comigo. É uma dor sentir de não caminhar em conjunto na Igreja, uma divisão que não permite uma condivisão maior. Acredito que esta seja uma questão ainda não resolvida dentro da Igreja: a separação entre a eucaristia e a vida do dia a dia. As pessoas deixam tudo na igreja e, quando vão para a rua, não usam os critérios do Evangelho. É um desafio mundial.

Quais são os sinais que Deus operou na sua vida e na sua missão?

Deus me deu a graça de saber caminhar com as pessoas, ao lado delas. Com todas as pessoas, mesmo com quem estava dentro de uma prisão. Um dia, numa cadeia, um senhor chorou muito comigo porque ele via que eu era tratado como um preso. Mas eu sempre fiz isso: é a relação pessoal que cria o espaço para mostrar o rosto de Deus. Se eu tivesse entrado nas cadeias dum jeito diferente dos presos, eles não teriam deixado este espaço de misericórdia, esta ocasião de conversão. Quando Jesus disse “Fazei isto em memoria de mim”, Ele não estava pedindo só de rezar a missa, estava pedindo de fazer a missa na vida, no dia a dia. Nesta caminhada eu também cresci e mudei. Cresci e mudei muito.

O que significa para um missionário que dedicou toda a sua vida a uma missão e a uma terra “deixar”?

Eu vim para cá no Brasil não para trazer a fé, vim para ver como a fé é vivida aqui. Eu não estou deixando, não estou largando. Eu estou fazendo mais uma mudança. Claro que doe. Tem que doer, porque eu não devo fazer o meu reino, eu devo trabalhar para fazer o reino do Pai.

Aqui a carta que o pe Luiz escreveu para o Bispo de Macapá e para o povo que tanto amou nestes 48 anos de missão (abrir as imagens em novas guias para ler a carta).


Inscreva-se e receba a newsletter

seu apoio vale muito, assine a revista Mundo e Missão

Telefone: (11) 5549-7295
Fax: (11) 5549-7257
Rua Gregório Serrão 177
04015-011 Vila Mariana, São Paulo - SP