PIME completa 70 anos de missão no Amazonas

Padres e leigos do Instituto missionário italiano ajudaram a formar comunidades católicas no Norte do Brasil – entre os índios, caboclos e ribeirinhos

 

A
chegada dos missionários do Pontifício Instituto das Missões Exteriores (PIME) à região amazônica teve início após uma mensagem do núncio apostólico, no final da década de 1940, aos bispos de todo o Brasil, informando que havia missionários em São Paulo, recém-chegados da Itália, à procura de missões entre os índios. Surgiram propostas de todas as partes. Inicialmente, o PIME enviou um número maior de missionários ao Amapá, onde sequer havia uma prelazia (confira reportagem da edição nº 225 – setembro), e destinou ao estado do Amazonas missionários para as cidades de Manaus e Maués.

Assim, em junho de 1948, o bispo de Manaus, dom João da Matta de Andrade e Amaral, entregou a responsabilidade pela Paróquia Nossa Senhora de Nazaré aos missionários padre Alberto Morelli, que se tornou o vigário, e ao padre Alberto Batiston, seu auxiliar.

No início, o trabalho pastoral dos missionários do PIME era basicamente voltado à catequese e aos sacramentos, pois a maior parte dos habitantes sequer era batizada. Aos poucos e com muito esforço, o cenário foi mudando. “Com a bênção nas casas e a frequente visita às famílias, especialmente aos pobres, a propaganda ativa das várias seitas diminuiu muito. Com a permissão do bispo, iniciaremos a ‘campanha familiar’, que durará um ano inteiro. Outro ponto positivo é que o catecismo paroquial é bem frequentado, mesmo para adultos, no domingo à noite”, declarou o padre Morelli apenas dois anos após sua chegada à cidade.

Assim como ocorreu em outras missões do Instituto, a preocupação social era latente. Surgiram, então, várias iniciativas nesse âmbito, especialmente com foco na educação – uma marca do PIME no mundo inteiro. Além de escolas, inclusive a Escola Angelo Ramazzotti, construída ao lado da paróquia e ainda hoje em funcionamento, mas atualmente nas mãos do governo, os missionários criaram cinema e biblioteca paroquial, além de áreas de esporte e lazer.

Com a expansão da cidade, os missionários que chegaram depois não se fecharam no local já estabelecido e saíram ao encontro do povo, que se aglomerava em invasões nas áreas periféricas. Os padres Pedro Vignola e Luiz Mandelli, por exemplo, foram responsáveis por construir várias igrejas e capelas nos bairros mais afastados, que ainda eram apenas um amontoado de barracos improvisados.

Ao longo dos 70 anos da presença do PIME em Manaus, tendo a Paróquia Nossa Senhora de Nazaré como marco, os missionários, motivados pelo espírito evangelizador, construíram mais de 20 igrejas e centros de formação, principalmente nas regiões norte e leste da cidade.

Missionários de Parintins e Manaus em 1977

Missionários de Parintins e Manaus em 1977

 

No cinquentenário da missão do PIME no norte do Brasil, o padre Piero Gheddo escreveu um livro contando como se deu essa história. Riquíssimo em detalhes, com vários pormenores das aventuras e desafios que os missionários vivenciaram, a obra é um importante instrumento para entender a evangelização na região Amazônica. No capítulo em que trata especificamente de Manaus, Gheddo afirma que, dada as circunstâncias da Paróquia Nossa Senhora de Nazaré, que compreendia uma área de mais de 50 mil habitantes, exigindo um “empenho extraordinário” dos missionários, a missão na capital amazonense foi equivalente ao esforço do PIME na criação das dioceses de Macapá (AP) e Parintins (AM).

O arcebispo emérito de Manaus, dom Luíz Soares Vieira, declarou em uma entrevista concedida ao padre Gheddo, em meados dos anos 1990, que o PIME evangelizou a região mais difícil da diocese de Manaus, pois a cidade cresceu de forma desenfreada, dando lugar a bairros extremamente carentes.

“Pode-se dizer que a vasta periferia da cidade foi evangelizada com as igrejas e capelas fundadas por seus missionários. Só mais tarde outros institutos ou o clero diocesano vieram a assumir essas paróquias”, declarou.

“O que o PIME fez na Amazônia é uma bênção de Deus para a nossa Igreja. Especialmente aqui em Manaus, se o PIME não tivesse respondido à emergência da nova cidade que estava nascendo, o bispo não saberia quem enviar. Outra providencial presença dos missionários consiste no fato de que eles prepararam muitos leigos educados e engajados na evangelização, e hoje posso dizer que os melhores líderes cristãos presentes nas paróquias de Manaus são imigrantes da diocese de Parintins, por conta da formação e dos exemplos que receberam do PIME por lá. Eu não conheci o monsenhor Arcângelo Cerqua: mas, desde que eu era arcebispo de Manaus, percebi o que ele fez em Parintins: uma formação verdadeiramente admirável, única na Amazônia”, completou dom Vieira.

Paróquia N.S. de Nazaré, em Manaus, segue sob a responsabilidade do PIME

Paróquia N.S. de Nazaré, em Manaus, segue sob a responsabilidade do PIME

Com o povo e para o povo

Não dá para falar da presença do PIME no Amazonas sem mencionar a importância do trabalho missionário realizado nas cidades de Parintins, Barreirinha e Maués. Os primeiros padres que ali chegaram encontraram o povo largado à própria sorte. Com infraestrutura precária ainda hoje, não é difícil imaginar como era a situação desses municípios interioranos há sete décadas.

Em Parintins, por exemplo, quase toda a história recente tem alguma relação com iniciativas realizadas por missionários do PIME. Até mesmo o festival folclórico do boi-bumbá, que todo ano atrai turistas de várias regiões do país e inclusive do exterior, está ligado ao Instituto: as bases para sua criação foram dadas pelo irmão Miguel de Pascale, um leigo consagrado que incentivava atividades culturais e ajudou a promover a primeira edição do evento. Além disso, basta uma volta na cidade para ver que boa parte das escolas, creches e demais centros de formação carregam o nome de padres e irmãos consagrados. O primeiro e maior hospital é dedicado ao padre Ferruccio Colombo, que morreu após um acidente de moto justamente por não haver nenhum posto médico próximo na época do ocorrido.

Inconformados com o descaso das autoridades, os missionários arregaçaram as mangas e se puseram a trabalhar. Destaca-se aí o empenho do padre Arcângelo Cerqua, que liderava o grupo com um verdadeiro espírito visionário. Com a ajuda da população, os frutos renderam. Em paralelo ao desenvolvimento, a evangelização tomou forma até que, em 1980, a então prelazia se tornou finalmente uma diocese. Cerqua, que já havia sido nomeado em 1961 o primeiro bispo do prelado, ganhou ainda mais força junto ao povo para colocar em prática muitos outros projetos sociais e eclesiásticos.

“Se o PIME não tivesse vindo pra Parintins, eu nem consigo imaginar o que teria sido dessa cidade”, afirma Elinaldo Tavares, paroquiano que trabalhou 32 anos na Rádio Alvorada, um importante meio de comunicação fundado pelo PIME em 1967 com o objetivo de tirar as comunidades do isolamento. Atualmente, a rádio é parte do Sistema Alvorada de Comunicação e, apesar de ter sido passada à diocese, segue o mesmo lema desde sua criação: educar, informar e evangelizar.

Catedral de Parintins: a maior igreja do Norte do Brasil

Catedral de Parintins: a maior igreja do Norte do Brasil

A caminho das águas dos rios

As cidades de Maués e Barreirinha, “vizinhas” de Parintins, fazem parte da mesma diocese. Por lá, não são poucos os paroquianos que têm boas recordações dos padres do PIME. Queixam-se, inclusive, do número reduzido de missionários em comparação ao passado. E também reclamam quando algum padre parte, seja para outra área de missão, seja porque já não tem condições físicas de trabalhar. Neste ano, por exemplo, quando foi anunciado que o padre Bruno Mascarin retornaria à Itália, após mais de 30 anos em Maués, a comunidade promoveu uma grande despedida, com direito a muito choro, uma homenagem na Câmara Municipal e uma multidão no aeroporto.

Se hoje os discursos do papa Francisco apelam para um “Igreja em saída”, a população dessas cidades experimentam isso na prática há muitos anos. Como as cidades são rodeadas por rios e igarapés, os missionários do PIME estavam sempre a postos, especialmente nos barcos, para “levar a Igreja” às comunidades mais distantes.

E esse “vai-e-vem” pelas águas do Amazonas não ficou esquecido no tempo. Ainda hoje é a bordo de um barco de madeira que o padre Henrique Uggé, missionário no Amazonas há 40 anos, alcança as comunidades indígenas ao longo do Rio Andirá, onde vivem os saterés mawés. Durante todos esses anos, Uggé teve contato com a cultura dessa etnia e muito luta pela sua manutenção, inclusive fundou a Escola Indígena São Pedro, à beira do rio, na tentativa de que os índios não precisem sair de seus territórios para estudar.

De Barreirinha até lá são quase 12 horas de barco – isso se não houver nenhum percalço, como uma tempestade ou uma árvore caída travando a passagem nos igarapés. Mas Uggé, com 76 anos, parece incansável: em 2018 a escola completou três décadas de existência e ele continua a ir até lá com frequência. Dá espaço aos professores, a maioria indígenas como os alunos, mas segue à frente. A escola serve também como uma base para que ele possa visitar as famílias ao redor, que vibram com sua chegada para rezar a missa nas capelas e igrejas que ele mesmo ajudou a construir nesses anos todos em missão. Como são muitas comunidades ao longo do Andirá, o barco nem bem atraca na beira do rio e lá surgem uma porção de crianças indígenas, que correm para estender suas mãozinhas e pedir a bênção ao padre.

Como neste ano acontece o Sínodo sobre a região Pan-Amazônica, e aproveitando os 70 anos de missão do PIME no Amapá e no Amazonas, Mundo e Missão irá publicar, na seção Rastro de Deus, uma série de reportagens com os principais projetos que os missionários do Instituto criaram na região. Fique de olho e saiba mais detalhes sobre essa longa história de evangelização junto aos índios, caboclos e ribeirinhos.

 

Reportagem publicada na revista Mundo e Missão de dezembro de 2018 – edição nº 228
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