A piranha e o dedo do padre

Piranha

N
os anos 80 o padre Vicente Pavan era o vigário da paróquia de Barreirinha. Ele gostava e ainda gosta de pescar, ainda mais numa cidade do interior do Amazonas onde muitos homens são pescadores. Por isso, nada difícil para ele, de vez em quando sair de madrugada com alguns parceiros para pescar nos lagos que rodeiam a cidade. Como no interior todo mundo é conhecido por apelido, eis alguns parceiros do vigário: Maluco, Birico, Lobisomem, Barrigudo, Balaio…

Estes espertos pescadores me contavam que o padre era um bom pescador: saiba andar de casco, atravessava varedouroAtalho dum rio que, atravessando a várzea submersa, encurta o caminho com eles, conhecia os lugares nos lagos onde encontrar peixe; preparava iscas e ficava horas no casco com o caniço na mão esperando o peixe; sabia fazer fogo no casco e assar como qualquer um deles, além de ter outras habilidades próprias dos caboclos pescadores da várzea da nossa região do baixo Amazonas.

Naqueles anos, eu estava também em Barreirinha junto com o padre Vicente. Uma vez, depois da Missa da noite, ele me disse: “Amanhã de madrugada vou sair com o Birico e mais dois parceiros para pescar”. Na tarde do dia seguinte o padre voltou com uma enorme cambadaConjunto de peixes amarrados num laço de cipó de peixes, mas tinha o dedo da mão direita todo enfaixado num lenço e meio doído. Ele me contou o que tinha acontecido. Falou que estava pescando de caniço quando, de repente, um peixe fisgou a isca. Quando ele suspendeu a linha, lá estava uma piranha pendurada no anzol.

Como de costume, o padre fez o que todo o pescador faz para pegar uma piranha presa no anzol. Mas, na hora de dar a cacetada no peixe aconteceu o que, às vezes, acontece também como pescador mais experiente: por um mau jeito da mão, a piranha mordeu-lhe o dedo indicador, arrancando um pedacinho de carne da ponta de toda a pele. O padre matou de vez a piranha.

Depois, com toda calma, tratou e enfaixou o dedo ferido. Em seguida, tirou da boca da piranha aquele pedacinho de pele e carne do dedo dele, e o enfiou no anzol como isca e continuou pescando, tranquilo. Não demorou e logo uma piranha grandona, talvez atraída pela isca saborosa e inusitada do pedaço do dedo do padre, foi puxada de caniço pelo mesmo padre Vicente. Mas, desta vez, quem apanhou não foi mais o padre, mas foram as duas piranhas que lhe serviram de almoço.

Reflexão

 A historinha de hoje nos recorda que não é uma mordida de piranha que prejudica as nossas vidas. As mordidas mais perigosas na nossa convivência humana são as mordidas da calúnia, da fofoca, do fuxico, são as mordidas da língua.

Vamos refletir hoje o que diz sobre isso a Bíblia. “Um golpe de chicote deixa a marca, mas um golpe de língua quebra completamente os ossos. Muitos caíram pelo fio da espada, porém muito mais foram os que caíram por causa da língua. Mas ela não tem poder sobre os justos, estes não se queimarão em sua chama” (Eclo 28,21-22).

Publicado no Jornal Missão Jovem de outubro de 2017

 

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