A polêmica “proteção às avessas” em povoado indiano

Situação do tribo Baiga, na Índia, é preocupante: etnia ancestral se vê enganada, humilhada e expulsa de suas terras

 

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lguns povos tribais da Índia estão sendo expulsos ilegalmente de suas terras ancestrais em nome da preservação dos tigres. A garantia que lhes é dada pelos arautos do progresso é a de que todos herdarão outras terras, residência fixa e dignas condições financeiras, mas isso não passa de promessa, pois nada acontece. Na verdade, muitos recebem alguma coisa, mas é tão irrisório, quase nada, que acabam tendo que viver às margens de seus próprios territórios na mais completa tristeza e pobreza.

Em casos de resistência, os guardas florestais prendem, multam, surram e ameaçam os nativos, até que estes deixem o local. Bardan Singh, um veterano membro da etnia baiga da reserva dos tigres de Kanha, na Índia, declarou à ONG Survival International: “Eu estava abraçado a uma árvore quando os guardas florestais começaram a me surrar até que caí e não conseguia ficar em pé. Arrastando-me, consegui chegar aos limites do parque…”.

Tais arbitrariedades usualmente ocorrem em flagrante desrespeito ao Forest Rights Act. Esta lei indiana reconhece que as comunidades tribais têm o direito de permanecer na sua terra de origem, manter seu status natural e recolher os frutos que a floresta fornece, até mesmo quando a região é convertida em área de conservação. Contudo, tais direitos são continuamente violados e, muitos povos nativos desconhecem seus direitos.

Proteção às avessas

Não existem provas de que a expulsão dos povos tribais possa proteger os tigres. É mais provável que os prejudique. Os povos das florestas, na verdade, são os melhores conservadores e guardiões do mundo natural e deveriam ser os primeiros a serem protegidos. Pelo contrário, são geralmente excluídos.

Na Índia, os nativos das florestas consideram os tigres animais sagrados. Provas cabais demonstram que nas áreas em que estes povos ainda não foram expulsos, os tigres vivem bem mais e melhor do que na chamada “indústria da conservação”, um eufemismo para significar “cativeiro”. De fato, tais animais ficam à mercê de intermináveis flashes fotográficos dos turistas, pois a presença de tais forasteiros é incentivada para que nunca mais se esqueçam da aventura no “habitat natural” de tais tigres. Entretanto essa invasão estressa os animais, torna-os agressivos, em contraste com a anterior convivência pacífica que existia entre eles e os povos da floresta.

“Antes, tudo era floresta. Nós estávamos na floresta e ela nos dava tudo. Éramos felizes. Éramos saudáveis e em forma. Agora, é tudo cercado e não temos mais nada. Não somos mais fortes e saudáveis. É a nossa floresta e devemos ser nós a protegê-la”, lamenta Sakru Dhurwey, da etnia baiga, à agência IndiaTimes.

 

Expulsos e ameaçados

Algumas comunidades indígenas vivem por décadas com medo de serem expulsas de suas terras por causa do turismo na Reserva dos Tigres de Kanha. Muitas aldeias, inúmeras vidas humanas e seus meios de sustento já foram destruídos.

Os baigas, quando são expulsos da reserva, recebem míseras ofertas de trabalho na indústria do turismo ou são contratados como guias. Sem outras opções de emprego, inúmeros nativos passam a recolher feixes de lenha para serem utilizados nos hotéis vizinhos da reserva. Porém, se são descobertos nesta atividade considerada ilegal, correm o risco de serem multados, surrados ou irem para a prisão.

Seminômades

Os baigas são aborígenes originários das florestas da Índia Central, das quais eram senhores há pelo menos 20 mil anos. Costumam afirmar que a floresta era, é e sempre será seu kartavya (dever nesta vida). Seus remanescentes procuram conservar e transmitir os costumes, hábitos e mitos dos antepassados. Praticam o cultivo de hortaliças e frutos em áreas não florestais, sem, contudo, arar o solo, pois essa prática é como “arranhar o peito da mãe-terra”. Para evitar este “pecado” obrigam-se a viver uma rotina de seminomadismo dentro do mesmo território. Viver junto da Mãe Natureza significa protegê-la da destruição.

 

Publicado na revista Mundo e Missão de março de 2018 – Ed. 220
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