Ética e fraternidade

Em tempo de guerras fraticidas, o tema sugerido para a nossa reflexão não é apenas oportuno, mas urgente, essencial.

crédito: Andrew Moca/Unsplash.com

Quanto mais o conceito de progresso e a visão de desenvolvimento proclamam e apoiam um percurso de globalização sem solidariedade, sem justiça e sem fraternidade, mais sentimos a necessidade de promover uma globalização diferente, mais humana e mais solidária, marcada pela fraternidade, pela justiça e pelo respeito aos direitos e pela consciência dos deveres de todos os seres humanos.


Cultura do descarte

No pensamento do papa Francisco, um conceito desumano de globalização produz a “cultura do descarte” que, além de ser um problema atual e dramático, é também uma espécie de critério a ser utilizado para observar, ler, analisar e compreender com mais profundidade a realidade dos acontecimentos sociais e das situações históricas que estamos enfrentando na nossa mudança de época em meio a um clima de guerra fratricida. É a partir do aumento ou da diminuição, ou da não existência da ‘cultura do descarte’ que poderíamos fazer uma classificação do grau e do tamanho da civilização de cada uma das 204 nações do mundo. A ‘cultura do descarte’ é a prova de uma mentalidade horrível e de uma lógica destruidora que não se detém apenas nas dimensões econômicas e financeiras. Ela define como descartáveis todos os bens materiais e supérfluos na vida das pessoas: é uma cultura materialista, consumista, injusta e desumana que, quando entra nas escolhas cotidianas de uma democracia, e influencia os corações e as ideias de todas as pessoas e de todos os povos do mundo, – especialmente em situações de guerra, de urgência, de sofrimentos, de injustiças e de escassez de recursos –, afeta a percepção da dignidade das pessoas e destrói a vida de irmãos e irmãs em âmbito cultural, afetivo, político e social.


Medo dos pobres e dos marginalizados

Sabemos por experiência que os nossos desejos e anseios de um futuro mais humano, fraterno e justo não encontram e nunca encontrarão resposta em meio a uma submissão absurda e desumana aos ídolos do lucro e da arrogância, do armamento, do racismo, da violência e da insensibilidade frente ao sofrimento alheio. Nessa onda trágica da ‘cultura do descarte’ (hoje, na Ucrânia, os civis infelizmente são tratados como seres humanos de descarte), alguém inventou a palavra “aporofobia” para indicar uma filosofia de vida, de atitude e de ideias baseadas no medo dos pobres, dos marginalizados, dos ‘sem voz e sem vez’. Os meses de pandemia, acrescidos de um estado de guerra, tem desencadeado e aumentado no mundo inteiro uma espécie de fobia, juntamente com insultos, agressividade e violência contra os estrangeiros, os migrantes, os excluídos, os moradores de rua, os ‘sem nome’, os empobrecidos, os sem-teto, os refugiados, os deslocados, os requerentes de asilo.


Vocação à liberdade

Contra a ‘cultura do descarte’ sentimos a urgência e a necessidade de pensarmos e de vivermos a nossa existência como vocação à liberdade de filhas e filhos de Deus, e como plena realização da nossa dignidade pessoal. Quanto mais escutarmos, forte e conscientemente, a voz e o apelo para construirmos um mundo de vida, de fraternidade e de comunhão entre todas as raças, culturas, línguas e nações, mais constatamos a urgência, a beleza e a riqueza da proposta de uma ética da fraternidade.



por pe. Gabriel Guarnieri, SX

(Texto completo publicado na Revista Mundo e Missão edição 260. Gostou da matéria? Assine a revista!)