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A fantasia do Evangelho: a criatividade missionária inspirada em São Francisco

há 8 horas
5 min de leitura

A “galáxia” missionária que se inspira na regra e na espiritualidade de Francisco é composta por homens e mulheres, consagrados e leigos, que compartilham uma característica comum: diante dos problemas ou das emergências, imaginam respostas novas e criativas.

O tempo passa, a missão permanece. Missionários retratados há 25 anos e atualmente, mostrando uma trajetória de dedicação e serviço à missão. Foto: Reprodução Vatican Media
Foto: Reprodução Mondo e Missione

Existe uma palavra que talvez mais do que qualquer outra conte a história das missões franciscanas: fantasia. Não a fantasia da improvisação ou da aventura por si mesma, mas aquela que nasce do Evangelho quando encontra as necessidades concretas das pessoas. É a fantasia da caridade de que falava São João Paulo II, no número 50 da Novo millennio ineunte: a capacidade de inventar novos caminhos para «aproximar-se, solidarizar-se com quem sofre» e para que ninguém seja excluído do encontro com Deus.


Uma espiritualidade que cria caminhos

Ao olhar para a longa história dos missionários e das missionárias que se inspiram na regra e na espiritualidade de Francisco — uma verdadeira “galáxia”: Frades Menores, Conventuais, Capuchinhos, Terceira Ordem Regular, Ordem Franciscana Secular, apenas para citar as principais famílias… sem falar das inúmeras congregações masculinas e femininas surgidas ao longo dos séculos, em diferentes contextos —, emerge uma característica comum: diante dos problemas, não se limitam a constatá-los, mas imaginam respostas novas.

Os filhos e as filhas de Francisco transformaram o Evangelho em obras, percursos educativos e espaços de acolhida. Souberam enxergar possibilidades onde outros viam apenas obstáculos.


No Brasil, dignidade para famílias

As histórias são inúmeras. No Brasil, por exemplo, a fantasia evangélica ganhou rosto no Centro Karina Sampaio, em Igarapé Grande. Em uma região marcada pela pobreza rural, alguns moradores, juntamente com missionários capuchinhos e benfeitores, imaginaram um lugar onde crianças e adolescentes com deficiência pudessem receber assistência, atividades educativas e apoio alimentar. Não se trata simplesmente de um serviço social, mas de uma resposta capaz de devolver dignidade e esperança às famílias que frequentemente se encontram sozinhas diante da fragilidade.


Uma paróquia que navega pela Amazônia

A Amazônia também oferece exemplos extraordinários dessa criatividade missionária. Para chegar às comunidades dispersas ao longo de milhares de quilômetros de rios, os missionários aprenderam a transformar a canoa em uma paróquia itinerante.

Frei Paolo Maria Braghini, capuchinho de origem lombarda, trabalhou por mais de vinte anos entre os moradores das comunidades ao longo do Alto Solimões, a serviço dos povos indígenas. Ali, a missão não consiste apenas em celebrar os sacramentos, mas também em acompanhar comunidades isoladas, defender os direitos dos povos originários e cuidar da criação.


No Camarões, a missão salva vidas

A fantasia evangélica se torna ainda mais surpreendente quando encontra o sofrimento. No Camarões, por exemplo, nasceu uma das experiências mais significativas da presença missionária franciscana: o Cardiac Center de Shisong.

Em uma região da África Central onde milhares de crianças com problemas cardíacos não tinham acesso a tratamento, missionários, médicos, voluntários e benfeitores contribuíram para a criação de um centro de excelência em cirurgia cardíaca. Quando a guerra civil e as dificuldades políticas tornaram impossível continuar as atividades na sede original, ninguém desistiu: equipamentos e conhecimentos foram transferidos para Yaoundé, garantindo a continuidade dos atendimentos. A missão mudou de forma para permanecer fiel ao seu propósito.


Acolher quem vive com sofrimento mental

Ainda mais significativa é a história do Centro Emmaus, também no Camarões. Ali, a fantasia evangélica decidiu permanecer ao lado de uma das periferias mais esquecidas: a das pessoas com transtornos mentais. Pessoas rejeitadas pelas famílias, marginalizadas pela sociedade e frequentemente consideradas sem esperança encontram acolhida, assistência médica, programas de reabilitação e até oportunidades de trabalho agrícola.


Em um contexto cultural no qual o sofrimento psíquico às vezes é interpretado como maldição ou feitiçaria, o Evangelho se traduz na escolha de reconhecer em cada pessoa doente um irmão a ser amado.

Conta frei Kenneth Ayeni, superior da Custódia Capuchinha no Camarões: «Para muitas pessoas, o encontro com um missionário foi como uma visita do céu, porque, junto com o anúncio da fé, chegavam respostas concretas às necessidades de educação, saúde, água e promoção humana».


Na Costa do Marfim, devolver humanidade

A mesma lógica aparece na Costa do Marfim, onde os missionários apoiam a luta contra a doença de Buruli, uma enfermidade devastadora que atinge a pele e os ossos. Além dos tratamentos médicos, também foi desenvolvida uma rede de apoio para pessoas com transtornos psíquicos, frequentemente abandonadas e até acorrentadas nas aldeias. Nesse contexto, a criatividade do Evangelho não consiste em inventar algo extraordinário, mas em realizar o gesto mais revolucionário: devolver humanidade àqueles que a perderam aos olhos dos outros.


Mulheres franciscanas em missão pelo mundo

Entre as inúmeras congregações femininas dedicadas à missão ad gentes, destacam-se as Franciscanas Missionárias de Maria, presentes em todos os cantos do mundo, com obras sociais e conventos (mais de 800, das Ilhas Faroé a Taiwan).


Também merecem destaque as Franciscanas Missionárias do Coração Imaculado de Maria, popularmente conhecidas como Missionárias do Egito. Elas estão presentes nas periferias do Cairo e de Alexandria, na Guiné-Bissau, em Gana e Marrocos, no Oriente Médio (Israel, Líbano e Síria) e no Brasil, com iniciativas de assistência e acolhida às pessoas mais vulneráveis.


Em Jerusalém, música como caminho de paz

Mas a fantasia evangélica não se manifesta apenas por meio das obras sociais. Às vezes, escolhe caminhos inesperados, como o da música.

É o caso de Alberto Pari, frade menor, franciscano da Custódia da Terra Santa e diretor do Instituto Magnificat, em Jerusalém. Em uma cidade marcada por conflitos e divisões, a escola acolhe jovens cristãos, judeus e muçulmanos que estudam e tocam música juntos. Criada para oferecer aos jovens uma alternativa à pobreza e às ruas, ao longo dos anos tornou-se um verdadeiro conservatório, capaz de criar relações onde a política frequentemente constrói muros. Assim, a música se transforma em linguagem de fraternidade e laboratório de paz.


Uma missão compartilhada com os leigos

Ao lado dos frades, também atuam numerosos franciscanos leigos. No Camarões, apesar da crise e da dispersão provocadas pela guerra, as fraternidades da Ordem Franciscana Secular continuam apoiando a vida das paróquias e a formação dos fiéis. A missão franciscana, afinal, nunca foi monopólio dos religiosos. É uma vocação compartilhada, que envolve homens e mulheres, consagrados e leigos, todos chamados a traduzir o Evangelho nos lugares da vida cotidiana.


A criatividade que nasce do encontro

Talvez esteja justamente aí o segredo do carisma missionário franciscano. Ele não nasce de estratégias nem de grandes recursos econômicos. Nasce do encontro com as pessoas. São Francisco de Assis não elaborou programas pastorais: encontrou o leproso e mudou de vida. Desde então, gerações de franciscanos continuaram a fazer o mesmo. Olharam para as feridas de seu tempo e se deixaram questionar por elas.


Por isso, a missão continua gerando obras sempre novas: um hospital na África, uma cozinha comunitária no Brasil, um centro para pessoas com transtornos mentais, uma escola de música em Jerusalém, uma canoa que percorre os rios da Amazônia. Formas diferentes, uma única fonte. A convicção de que o Evangelho não é uma ideia a ser preservada, mas uma força criativa capaz de transformar a realidade.


Por Giuseppe Caffulli - Mondo e Missione - Tradução e adaptação redação Mundo e Missão

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