A missão do hábito franciscano
O estilo franciscano de anunciar o Evangelho é hoje «extraordinariamente atual». A 800 anos da morte do santo de Assis, quem fala é frei Giovanni Cropelli, responsável pelo Escritório Missionário da Província Capuchinha do Norte da Itália.

Oitocentos anos após a morte de São Francisco de Assis, talvez a maneira mais autêntica de recordar o Pobrezinho não seja apenas celebrar sua figura histórica, mas reconhecer como seu carisma continua gerando vidas capazes de falar ao presente e percorrer o caminho do anúncio do Evangelho em todos os cantos da terra.
Uma missão sem conquistas
Para Francisco, a missão nunca foi uma questão de “conquista” ou de afirmação de si mesmo. Na Regra não bulada, ao falar dos frades enviados «entre os sarracenos e outros infiéis», ele indica um caminho surpreendente: viver espiritualmente junto aos outros, evitando brigas e disputas, «sendo submissos a toda criatura humana por amor de Deus» e professando-se cristãos por meio do testemunho de vida. Somente quando perceberem que isso agrada ao Senhor, diz Francisco, os frades poderão anunciar abertamente a Palavra. É um método desarmado, que parte do encontro e da escuta. Um método que frei Giovanni Cropelli, atual responsável pelo Escritório Missionário da Província Capuchinha do Norte da Itália (recentemente constituída e dedicada a São Francisco de Assis), descobriu e colocou à prova em sua experiência missionária na Tailândia, durante mais de uma década, entre as favelas de Bangkok.
Natural de Brescia, antes mesmo de vestir o hábito franciscano, Giovanni, exímio carpinteiro, já era movido pelo desejo de colocar-se a serviço dos mais pobres. Uma primeira experiência em Camarões, como voluntário em um projeto de cooperação, parecia, porém, ter encerrado essa possibilidade. A tuberculose contraída e a longa internação hospitalar o convenceram de que a aventura missionária havia terminado antes mesmo de começar.
Uma vocação que inquieta
Depois de escolher a vida franciscana, frei Giovanni passou vários anos atuando em uma grande paróquia de Milão confiada aos frades capuchinhos. Foram anos intensos e fecundos: o trabalho pastoral, o acompanhamento dos jovens, a colaboração com as Missionárias da Caridade e o compromisso ao lado de mulheres que buscavam sair da prostituição. Uma vida plena, na qual se sentia profundamente realizado. Ainda assim, justamente naquele momento, surgiu uma inquietação inesperada.
«Você deve ir para onde ninguém quer ir»: assim frei Giovanni resume aquele chamado interior, amadurecido na oração e no discernimento. Quando os superiores lhe perguntaram qual seria seu destino ideal, ele respondeu simplesmente: onde houvesse maior necessidade. Foi assim que chegou à Tailândia: uma língua difícil, um contexto cultural e religioso muito diferente daquele da Lombardia, onde frei Giovanni havia crescido. Partiu em 2001 com uma frase guardada no coração: «Se você quer me encontrar, precisa perder a si mesmo».
Levava também as palavras das Constituições Capuchinhas, que retomam diretamente a intuição de São Francisco: os frades são enviados «na pobreza e com plena confiança em Deus para anunciar em toda parte, com a vida e as palavras, a paz, sendo submissos a todos por amor de Deus».
Essa última expressão, síntese do «método missionário» de São Francisco, tornou-se sua bússola cotidiana.
Ser irmão antes de tudo
Na cultura tailandesa, assim como em outros contextos asiáticos, o sacerdote frequentemente ocupa uma posição social elevada. Mas o franciscano, por vocação, não pode assumir esse papel como um privilégio. Frei Giovanni compreendeu rapidamente que o primeiro anúncio consiste em estar ao lado dos outros como irmão.
Lavar a louça junto com os jovens em formação, limpar o chão, compartilhar os trabalhos cotidianos: gestos simples, mas capazes de questionar uma concepção hierárquica das relações.
A missão não começa no púlpito. Começa vivendo entre os últimos.
Presença nas periferias de Bangkok
A experiência que mais profundamente marcou seu ministério foi aquela vivida nas favelas de Bangkok. Em colaboração com os missionários do PIME, os capuchinhos decidiram morar periodicamente em um dos bairros mais pobres da capital. Não havia grandes estruturas nem centros multifuncionais. Apenas um pequeno barraco adaptado como espaço de convivência, oração e acolhida.
Três dias por semana, permaneciam no meio da população; nos outros dias, ficavam no convento. Uma escolha bem definida: compartilhar a vida, e não simplesmente prestar assistência.
Os jovens tailandeses que viviam essa experiência com os frades eram convidados a realizar pequenos serviços concretos, como visitar idosos e pessoas doentes. Ninguém começava falando de Cristo.
«O importante era ser uma presença humilde», recorda frei Giovanni. A pergunta religiosa surgia logo depois. Eram os próprios moradores da favela que perguntavam: por que vocês estão aqui? Por que fazem isso? Quem é Jesus? Quem é São Francisco? Assim, o anúncio cristão emergia de uma relação de confiança. Não como imposição, mas como resposta a uma pergunta despertada pelo testemunho.
A fraternidade como anúncio
Nesse sentido, a experiência de frei Giovanni demonstra uma fidelidade extraordinária à intuição original de Francisco de Assis.
O santo não imaginava missionários conquistadores ou protagonistas solitários. Enviava seus frades dois a dois, pedindo-lhes que se apresentassem, antes de tudo, como irmãos. A própria fraternidade deveria tornar-se anúncio. Também hoje, chamado a cuidar das missões capuchinhas em várias partes do mundo e a apoiar inúmeros projetos de desenvolvimento, frei Giovanni insiste na importância de nunca agir sozinho.
«As pessoas precisam poder ver o bem que os frades querem uns aos outros, o respeito recíproco, a capacidade de compartilhar a vida. Em poucas palavras: o Evangelho vivido».
A simplicidade transforma vidas
Outro aspecto que frei Giovanni faz questão de destacar é o uso dos bens e dos recursos. A tentação de construir obras cada vez maiores e estruturas cada vez mais complexas também pode estar presente na missão. Entretanto, Francisco viveu a «leveza evangélica».
Frei Giovanni está convencido: o que realmente transforma as pessoas não é a capacidade organizacional, mas a proximidade autêntica.
A experiência nas periferias tailandesas («mas isso também vale para nossas cidades», faz questão de ressaltar) revela ainda outra verdade, particularmente querida pela espiritualidade franciscana.
Os pobres não são apenas destinatários da missão; tornam-se mestres de humanidade e de fé.
Afinal, no episódio decisivo da vida de São Francisco, foi o leproso quem tornou possível a conversão do santo. O encontro com quem vive em situação de fragilidade transforma, antes de tudo, aquele que acredita estar levando ajuda. Por isso, a missão também significa deixar-se transformar.
O legado franciscano permanece atual
No oitavo centenário da morte de São Francisco, o testemunho de frei Giovanni Cropelli recorda como o coração do carisma franciscano continua surpreendentemente atual. Em um tempo marcado pela busca por desempenho, reconhecimento e visibilidade, o caminho da minoridade continua representando uma provocação radical: ir para onde ninguém quer ir, viver ao lado dos últimos sem pretensões de superioridade; deixar-se evangelizar pelos pobres; testemunhar o Evangelho por meio da fraternidade.
Essa é a herança que Francisco continua entregando hoje a seus filhos e à Igreja inteira: não “conquistar o mundo”, mas habitar suas feridas como irmãos. Para que, por meio da simplicidade de uma vida doada, outros possam vislumbrar o rosto de Cristo.
Por Giuseppe Caffulli - Mondo e Missione - Tradução e adaptação redação Mundo e Missão
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