Amar sem perder-se de si mesmo
- Editora Mundo e Missão PIME
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- 12 de jun.
- 6 min de leitura

Talvez você já tenha conhecido, ou até mesmo vivido, a história de alguém que, ao iniciar um relacionamento, aos poucos foi deixando de lado seus amigos, hobbies, sonhos e até mesmo as suas próprias opiniões, em nome de um amor que, paralelamente, o esvaziava. Esta é uma situação comum que nos leva a uma reflexão profunda: como podemos amar verdadeiramente, sem nos perdermos de nós mesmos? Como construir laços que nos elevem em vez de aprisionar e esvaziar? Isso é amor verdadeiramente? A Igreja diz que não e propõe uma reflexão sobre a dignidade humana por meio dos ensinamentos da Igreja. A psicologia, curiosamente, também concorda com a Igreja; os dois chegam à mesma resposta por caminhos que se complementam surpreendentemente.

Vivemos em uma cultura de enganos, que, por vezes, confunde amor com posse, entrega com anulação e proximidade com dependência. Principalmente as redes sociais, com suas narrativas idealizadas e pressões por validação, podem intensificar essa confusão, levando muitos a buscar no outro o que lhes falta. É nesse cenário que a sabedoria da Igreja se apresenta como um farol, iluminando o caminho para um amor que liberta, que edifica e que nos aproxima de Deus.
O Papa Francisco, na exortação apostólica Amoris Laetitia, escreve que: “o amor autêntico é aquele que respeita a dignidade do outro, mas também, que esse amor precisa ser nutrido, pois ninguém pode amar com um coração esvaziado de si mesmo. Amar exige que haja um “eu” de onde o amor possa brotar.
Quando Jesus nos entregou o mandamento novo, Ele disse: “Amarás o próximo como a ti mesmo” (Mt 22,39). Repare bem: como a ti mesmo. O amor ao próximo pressupõe, na própria palavra de Cristo, uma relação saudável consigo mesmo. Não é um detalhe gramatical, mas sim uma chave teológica, um dos segredos da paz e da felicidade humana.
Há uma verdade que a juventude precisa ouvir com mais clareza: para dar-se ao outro, é necessário primeiro existir como alguém. Não de forma perfeita, mas de forma real. São João Paulo II, na Teologia do Corpo, ensinava que o ser humano é chamado a uma entrega de si mesmo. Mas, essa entrega só é possível onde há um “eu” que se doa.
Ninguém pode fazer doação daquilo que não possui. Um vaso vazio não oferece água. Uma pessoa sem identidade não oferece amor, oferece dependência. Isso tem implicações concretas para os jovens que estão se relacionando hoje.
Antes de perguntar "o que o outro precisa de mim?", é necessário e saudável para você perguntar: "quem eu sou fora desse relacionamento?. Quais são meus valores? O que me dá alegria? Quais são meus limites? O que me machuca e por quê? "Essas não são perguntas egoístas. São perguntas de quem quer amar bem! São perguntas de quem quer amar e merece ser amado!
As gerações Z e Millenium, influenciadas pelo advento da internet, estão sendo afetadas por valores completamente distorcidos e controversos. Cresceram achando que sentir seus próprios limites é egoísmo. O próprio Jesus, nosso modelo de amor total e entrega absoluta, sabia colocar limites. Ele dizia não quando era necessário. Isso não é egoísmo, é discernimento! Por meio dos limites, encontramos equilíbrio e não anulação!
O limite é muitas vezes o ato de amor mais honesto que podemos oferecer ao próximo, ele é a nossa verdade. Não podemos nos deixar influenciar pelas mentiras, medos, solidão, dependência emocional de terceiros e pela ideia de que colocar limites é falta de amor. O Catecismo ensina que a caridade "não faz mal ao próximo" (CIC 1822, citando Rm 13,10). E às vezes o maior mal que podemos fazer ao outro é deixá-lo acreditar que um relacionamento desequilibrado está funcionando, quando, na verdade, estamos apenas nos destruindo silenciosamente por dentro.

Preste atenção! Limites não são muros, são as margens do rio. O rio precisa de margens para ter direção, força e destino. Sem margens, vira pantanal, a água fica parada, ocupa espaço, vira lama e não vai a lugar nenhum.
É iluminador observar a própria vida de Cristo. Jesus amou de maneira absoluta e total — morreu por nós enquanto ainda éramos pecadores (Rm 5,8). E, no entanto, lendo os Evangelhos, encontramos um homem que sabia muito bem quem era. Ele é o exemplo de alguém que não precisava controlar tudo para se sentir inteiro. Jesus amava a partir de uma identidade absolutamente definida: a de Filho do Pai. Nunca precisou do reconhecimento alheio para saber quem era. E por isso podia dar-se inteiramente sem se fragmentar. Seu amor não era uma fuga de si mesmo; era a expressão mais plena de si mesmo.
O Catecismo nos convida a olhar para Cristo como modelo: "Cristo é o modelo de todo aquele que quer ser fiel a Deus. "Nele a vida moral tem seu princípio e fim" (CIC 1698). Isso significa que aprender a amar como Ele amou é também aprender a habitar a própria identidade com a mesma solidez que Ele habitava a Sua.
A fé e a razão não se opõem, elas se complementam. E, nesse ponto, a Psicologia contemporânea oferece uma contribuição valiosa que, longe de contradizer a visão cristã, frequentemente a ilumina por outro ângulo. "Cuidar de si mesmo não é egoísmo, é sobrevivência emocional". Essa afirmação ressoa com o que a fé cristã nos ensina: o amor que nasce do esgotamento não é livre, e o amor que não é livre, não é amor.

As pessoas mais capazes de amar generosamente são precisamente as que possuem uma identidade mais consolidada, não as que se anulam. Isso não significa que são perfeitas ou sem feridas, mas que possuem um senso interno de quem são e que não depende exclusivamente da aprovação alheia.
O diálogo entre Psicologia e fé encontra um ponto de encontro belíssimo quando nos lembramos das palavras do Papa Francisco na Exortação Apostólica Amoris Laetitia: "Ninguém pode crescer se não aceita a si mesmo, se não parte de quem realmente é" (AL 220). A aceitação de si mesmo, com as próprias forças e limitações, não é resignação; mas sim, o ponto de partida para toda conversão e para todo relacionamento autêntico.
Cuidar de si é também um ato espiritual. Somos templos do Espírito Santo, Ele habita dentro de nós, por isso, nossas emoções devem ser vividas de forma integral: corpo, alma e espírito. Os grandes santos, como Teresa de Ávila, João da Cruz, Inácio de Loyola, Teresa de Calcutá, entre outros. Todos cultivaram uma vida interior intensa, tinham relacionamentos profundos com Deus e com o próximo, sem esquecer de cuidar de si e de suas almas. Não por narcisismo, mas porque entendiam que a fonte do amor não é humana, e sim Deus.
Cuidar de si, descansar, orar, buscar direção espiritual, manter amizades que nutrem, reconhecer os próprios limites, não é tirar tempo do amor. Pelo contrário, é alimentar a fonte de onde o amor brota. É, em última análise, um ato de fidelidade àquilo que Deus colocou em nós para ser dado ao mundo.
Amar verdadeiramente é amar a partir de um alguém preenchido, não de um vácuo. A tradição católica não nos chama a nos destruirmos em nome dos outros; chama-nos a sermos transformados, a morrer ao egoísmo, não à identidade, para que possamos amar com a liberdade e a plenitude de quem já foi encontrado, amado e salvo por Cristo.
A fé nos oferece a direção para onde caminhar, ela nos mostra que o amor maduro, que nasce de pessoas inteiras e também de pessoas feridas em processo de cura, nos faz ter perseverança, paz e alegria. Como escreveu São João: "Nós amamos porque Ele nos amou primeiro" (1Jo 4,19). Essa é a ordem. Primeiro receber, depois dar. E no doar, não desaparecer, mas florescer.
Se você está em um relacionamento em que precisa ser menos de você mesmo para ser aceito, vale a pena uma pausa honesta. Se você percebe que perdeu amigos, hobbies, sonhos, talvez valha a pena conversar com um amigo de confiança, com um padre ou com um psicólogo sobre esse assunto.

Você foi criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,27). Essa imagem não desaparece quando você ama, ela é o ponto de partida do amor. Cuide dela. Porque quem cuida de si, por amor a Deus, tem muito mais a oferecer ao mundo e às pessoas que ama. Amar é uma das experiências mais belas e maravilhosas da vida humana. Merece ser feito bem. E fazer o bem não significa fazer a qualquer custo. Sua vida foi comprada a preço de morte de cruz, você vale muito. Pense nisso!
Quando o amor é saudável, ele nos faz crescer e não diminuir. Você cresce. Você respira. Você tem espaço para seus amigos, seus sonhos, sua relação com Deus. Você continua vivendo, mas agora com uma companhia.
São Paulo escreve aos Coríntios: "O amor é paciente, o amor é bondoso… não procura seus próprios interesses" (1Cor 13,4-5). Mas o mesmo Paulo, algumas linhas antes, adverte: "Se eu distribuir tudo o que possuo aos pobres… mas não tiver amor, nada me aproveita" (1Cor 13,3). Ou seja, é possível dar tudo sem amar. O amor verdadeiro não se mede pela quantidade, mas pela qualidade do amor doado.
O amor cristão é trinitário em sua estrutura mais profunda: Pai, Filho e Espírito Santo são distintos, mas plenamente unidos. A unidade não apaga as pessoas, ela as dignifica. O amor não dissolve quem somos. O amor verdadeiro nos leva a ser mais plenamente quem Deus nos criou para ser.

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