A rádio dos Saterê Mawé na Amazônia

Em dezembro de 2021, nasceu a Rádio Satere Mawé no coração da Amazônia, a Satere Ty, tem um locutor que fala a língua das comunidades do Rio Andirá. Este é o novo fruto da dedicação do Padre Enrico Uggé, missionário do PIME.


A antena se ergue sobre os telhados da Escola Indígena São Pedro. A rádio funciona na frequência FM 87.9, por enquanto, a potência é de apenas 25 watts, mas é suficiente para que o sinal chegue a pelo menos 36 vilarejos dos Satere Mawé. Último esforço do padre Enrico Uggé, missionário do PIME que dedicou toda a sua vida a esse povo que literalmente corria o risco de desaparecer.



Créd. Arquivo PIME - Padre Enrico Uggé com a comunidade durante um Batizado.

Biografia


Com quase 80 anos (ele os celebrará em julho), originário da região de Lodi-Itália, o padre Enrico começou a cuidar do Satere Mawé há 50 anos. Seu mais belo presente para esse povo é a Escola Indígena São Pedro, um lugar no qual os jovens índios das aldeias não aprendem somente matemática, português ou técnicas agrícolas, mas onde sua identidade é valorizada sem esperar, porém, que o mundo ao redor da reserva indígena não existe. O projeto da Satere Ty, rádio que após os primeiros meses de experimentação foi inaugurada oficialmente em 18 de dezembro pelo bispo de Parintins, Dom Giuliano Frigeni, também missionário do PIME, se enquadra nessa linha.


Duas rádios para informação


Padre Uggé encontrou em 1971 ao chegar na Amazônia, uma rádio em Parintins: o primeiro bispo, Monsenhor Arcangelo Cerqua, um dos pioneiros do PIME nesta terra, já havia fundado a Rádio Alvorada na diocese 1967 como meio de evangelização e informação para as comunidades isoladas. Naquela emissora, o padre Enrico manteve por muitos anos o programa "Hora feliz das crianças", com suas histórias da floresta. No entanto, aquela emissora - que agora também se tornou uma TV e um site - fazia as transmissões em português, já a Satere Ty FM é o sonho realizado de uma emissora que fala a língua dos índios, com atenção especial às suas comunidades.


Distâncias e um sonho


A área indígena Satere Mawé é composta por mais de 60 aldeias e comunidades espalhadas por um perímetro de cerca de 450 quilômetros. Para passar da primeira à última na época das cheias, são quase 5 horas de viagem pelas curvas do rio Andirá, que ficam ainda maiores quando o rio está seco. Daí a importância de um meio de comunicação acessível a todos, que fale a língua local. No entanto, o rádio também tem outro significado particular para o padre Enrico: em 2020 a pandemia colocou o Brasil de joelhos, assolando de maneira particularmente dura os indígenas da Amazônia. O padre Enrico também adoeceu de Covid-19: foi gravemente afetado e foi hospitalizado e precisou da ajuda de oxigênio para respirar. E foi naqueles dias que ele fez uma promessa:

"Se eu me recuperar - disse - mas sobretudo se as comunidades do Satere Mawé estiverem protegidas neste terrível tempo de pandemia, colocarei uma imagem de Nossa Senhora na entrada da escola indígena São Pedro".

Ele manteve sua palavra: no mesmo dia em que inaugurou oficialmente a rádio, Monsenhor Frigeni, na área indígena, também abençoou uma estátua em tamanho natural de Nossa Senhora de Lourdes, juntamente com Santa Bernadette Soubirous. Localizada em uma horta escolar, a Mãe do Satere agora zela pelas atividades.

E é justamente o rádio que vai permitir dar mais impulso à vida comunitária do pequeno povo do Rio Andirá, que em suas aldeias tem mais de 10 mil pessoas.


Uma transmissão diversa


Na programação - ao lado dos noticiários em português relançados pela Rádio Alvorada - existe um espaço para reforçar o que as crianças aprendem na Escola Indígena São Pedro, por meio de aulas remotas ministradas por professores, que são muito importantes em uma área tão grande. Mas, a vida comunitária também será discutida, com entrevistas com idosos e jovens na linguagem do Satere Mawé. Outro ponto fixo da programação é a transmissão das missas que permitirá também a muitas comunidades isoladas, onde o missionário pode chegar apenas a cada dois ou três meses, participar, pelo menos remotamente, da celebração dominical. E depois espaço para as canções e a cultura desse povo que, apesar de mil dificuldades, mira seu futuro na Amazônia.


A população das aldeias acolheu com entusiasmo a notícia da rádio comunitária: muitos trouxeram os seus equipamentos da cidade. Damácio Muniz Viana, 51 anos, ex-aluno da Escola São Pedro, hoje ensina a língua indígena para crianças nessa mesma realidade. «A “nação” do Satere - comentou aos microfones da Rádio Alvorada - começa a conquistar um espaço. Com o rádio, o padre Enrico nos deu outro grande benefício que nos ajudará muito na comunicação uns com os outros, sem ter que esperar que alguém traga pessoalmente as notícias de uma aldeia para outra”.


Mais um passo nessa caminhada iniciada pelo padre Uggé quando, há cinquenta anos, Monsenhor Cerqua lhe pediu para ir ao encontro desse povo ao longo do rio, evangelizado séculos antes, mas que permaneceu por muitos anos sem alguém para acompanhá-lo. Hoje faz parte daquela Igreja com rosto verdadeiramente amazônico da qual o Papa Francisco falou no Sínodo que em 2019 quis dedicar a esta região do mundo. E com seu rádio agora ele tenta fazer com que todos ouçam sua voz.


Por Giorgio Bernardelli - Mondo e Missione

tradução e adaptação: Valesca Montenegro - redação Mundo e Missão