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Marcello Candia, um homem de bondade.

há 19 minutos
5 min de leitura

Em 2026, celebra-se o 110º aniversário do nascimento de um dos missionários leigos mais significativos de nosso tempo, que dedicou a vida às obras de caridade na Itália e no Brasil. A cidade de Milão presta homenagem à sua memória.

O tempo passa, a missão permanece. Missionários retratados há 25 anos e atualmente, mostrando uma trajetória de dedicação e serviço à missão. Foto: Reprodução Vatican Media
Foto: Reprodução Mondo e Missione

Ele se considerava “um simples batizado”, mas, para o jornal brasileiro Manchete, era “o homem mais bondoso do país”. Marcello Candia nasceu em Portici, na província de Nápoles, em 1916. Formou-se em três áreas — Química, Farmácia e Biologia — e, depois de mais de duas décadas de atividade industrial, vendeu sua empresa, a Fabbrica italiana di acido carbonico dottor Candia & C., sediada em Milão, para se transferir para Macapá, na Amazônia brasileira, e construir ali um hospital para pessoas com hanseníase. Hoje administrado pelos Camilianos, o hospital é uma referência de excelência na capital do Amapá. E não foi apenas o hospital. Candia financiou 14 obras, entre elas um mosteiro confiado às carmelitas de Florença, hoje centro de espiritualidade e ponto de referência para jovens e famílias. Afinal, como ele costumava dizer, “a oração é o combustível das boas obras”.


Uma vocação que nasceu cedo

A bondade e a atenção concreta aos pobres, porém, não surgem de improviso. Desde pequeno, inspirado pelo exemplo da mãe, Bice, Marcello participava da assistência aos pobres por meio da Sociedade de São Vicente de Paulo. Depois de se mudar para Milão, aos 13 anos já se dedicava ao atendimento de pessoas sem-teto no convento dos frades capuchinhos. Naquele período, ficou profundamente impressionado com a figura do frei Daniele da Samarate, missionário na Amazônia que havia contraído hanseníase enquanto se dedicava aos pobres.


Iniciativas a serviço da missão

Na vida adulta, Candia deu início a uma série de iniciativas de caridade que merecem ser lembradas. Colaborou para o surgimento de um laicato missionário, organizou o envio de medicamentos às missões e fundou a revista de estudos e cultura missionária La Missione.

Em 1950, participou da criação do Colégio de Estudantes do Ultramar e da fundação do Colégio Universitário para Aspirantes a Médicos Missionários, o Cuamm, em Pádua. Em Milão, na rua Kramer, fundou um ambulatório ligado à União dos Médicos Missionários Italianos (Ummi), associação confiada à Congregação dos Pobres Servos da Divina Providência, de dom Calabria.

Também criou uma escola de medicina missionária para preparar jovens de diferentes congregações e ordens religiosas que se preparavam para partir em missão. Além disso, deu início à Associação de Leigos em Ajuda às Missões (Alam).


A decisão de partir para o Brasil

Foi justamente nesse período que Candia amadureceu a ideia de se tornar missionário leigo. Um encontro foi decisivo: o que teve com dom Aristide Pirovano, missionário do PIME e pioneiro das missões na Amazônia, que mais tarde se tornou bispo de Macapá e, posteriormente, superior-geral do Instituto.

Figura carismática, padre Aristide conquistou o jovem Marcello. Depois de um longo período de discernimento, ele decidiu construir um grande hospital dedicado a São Camilo e São Luís, inaugurado em 1969.

Candia também colocou em prática um conselho que havia recebido do então arcebispo de Milão, cardeal Giovanni Battista Montini, futuro papa São Paulo VI: “Na missão, saber tratar doenças é menos importante do que ensinar a tratá-las”. A esse respeito, Candia afirmava:

“Se há um doente pobre e um rico, acolhemos primeiro o pobre e, depois, se houver lugar, o rico, que pode ir ao hospital público. Quero um hospital missionário para os pobres e, por isso, ele necessariamente deve operar no vermelho. Se dá lucro, significa que deixou de ser missionário e de estar a serviço dos pobres”.

Uma herança que continua viva

Conheci pessoalmente Candia nos anos 1980, no seminário do PIME em Sotto il Monte, onde eu atuava como animador. Foi durante uma noite em que vários empresários e gestores se reuniram para ouvir seu testemunho e contribuir generosamente para tornar a caridade concreta.

Na ocasião, foi exibido o filme Reginaldo, hoje disponível no YouTube, que conta a história de um menino acometido pela hanseníase. O relato me impressionou profundamente. Eu jamais imaginaria que, anos depois, chegaria justamente a Macapá, onde pude constatar pessoalmente o bem realizado por Marcello. Uma obra que continua sendo levada adiante por outras pessoas, com a ajuda da Fundação Candia.

Além do hospital, merece destaque a Casa da Hospitalidade, que acolhe pessoas em situação de abandono e idosos; a Casa Betânia, destinada a meninas que sofreram abusos e mantida pelas Irmãs Discípulas de Jesus; e a Casa para Meninos com Deficiência, que conta com a ajuda das Pequenas Irmãs da Divina Providência.

Já o leprosário de Marituba, no vizinho estado do Pará, depois de receber as irmãs missionárias da Imaculada — visitadas pelo papa São João Paulo II —, passou a ser administrado pela congregação de dom Calabria. Algo que me chama a atenção é o símbolo de uma rosa vermelha com espinhos, pintado em três azulejos de cerâmica na entrada dessas casas. Era a síntese da espiritualidade de Candia. “Cada vez mais sinto que a vida é simbolizada pela nossa rosa vermelha — escreveu ele em uma carta —, com seus espinhos dolorosos, mas que nos conduzem à beleza e ao perfume das flores”.


A oração sustentava sua missão

No mosteiro de Macapá, as irmãs carmelitas abriram um memorial com alguns objetos pessoais de Candia: seus óculos, uma caneta, um caderno, os sapatos gastos, outros pequenos pertences simples e um livrinho de orações, já consumido pelo uso.

Homem de missa diária, Marcello conciliava uma atividade intensa — que lhe custou três infartos — com longos períodos de oração na igreja.

Poucos dias antes de morrer, em 31 de agosto de 1983, em Milão, já muito debilitado e exausto pela dor, disse:


“Jesus me fez viver hoje a experiência mais bela da minha vida. Fez-me compreender que não basta trabalhar para o Senhor, nem basta rezar ao Senhor. Mais importante é aceitar, com humildade e disponibilidade, a dor, como e quando Deus a permite. Esta é a experiência mais bela”.


Em seu túmulo, está gravado o epitáfio: “Servo de Deus, servo dos pobres”. A rosa vermelha, símbolo de sua espiritualidade missionária, remete ao conhecido ditado de que “não há rosa sem espinhos”. Mas, no caso de Marcello Candia, podemos afirmar exatamente o contrário: “não há espinho sem rosa”.


Milão homenageia Marcello Candia

Para recordar esse grande missionário, a Arquidiocese de Milão, em parceria com a Associação Cultural Marcello Candia, organiza um encontro no dia 23 de outubro, às 17h30, no Palazzo Marino. A Vigília Missionária do sábado, 24 de outubro, presidida na Catedral de Milão pelo arcebispo Mario Delpini — que, em julho passado, visitou as obras de Candia no Brasil —, também será uma oportunidade não apenas para recordar o missionário, mas para arrecadar doações para o Centro Candia, em Macapá. Por fim, para celebrar os 110 anos do nascimento do missionário leigo, dom Mario Delpini presidirá uma missa no sábado, 31 de outubro, às 18h, na paróquia dos Santos Anjos da Guarda, situada na rua Colletta, 21, em Milão, onde Candia está sepultado.


Um documentário sobre seu legado

A herança de Marcello Candia também é tema do filme Ninguém Para Trás (Senza lasciare nessuno indietro), realizado por Andrea Sperotti, da Luci nel mondo, com o apoio da Obra de dom Calabria.

Com delicadeza e intensidade, o documentário conta a história e mostra a realidade atual da colônia para pessoas com hanseníase de Marituba, hoje transformada em um grande hospital de referência para uma extensa região amazônica. Vencedor do Prêmio Tulipani di Seta Nera 2026, o filme resgata a trajetória de Candia, a figura do bispo Pirovano e o trabalho da Obra de dom Calabria, que continua até hoje.


Por Redação Mondo e Missione - Tradução e adaptação redação Mundo e Missão

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