Mianmar: missionário do PIME cria uma creche no lixão de Yangon

É o mais recente projeto da organização New Humanity International. Uma estrutura que recebe 60 crianças em idade pré-escolar enquanto seus pais trabalham durante o dia. O objetivo é registrar as crianças e garantir que eles tenham acesso à assistência médica e à instrução.


Padre José Estêvão Magro, missionário do PIME junto com famílias de Yangon (Asia News)

Apesar das dificuldades que Mianmar tem vivenciado nos 16 meses, não faltam iniciativas de solidariedade: a criação de uma creche no lixão de Insein na periferia de Yangon, a antiga capital do país. O projeto é da organização New Humanity International é chamado de “Colmeia de Ouro” e foi criado pelo missionário brasileiro José Estêvão Magro.


Colmeia de Ouro

"A colmeia mais do que outras imagens dá a ideia de cuidado: as abelhas recém-nascidas têm que esperar pelo menos 21 dias antes de deixar suas celas, enquanto as abelhas mais velhas cuidam delas e as alimentam com geleia real", assim explica à Agência AsiaNews o Pe. José, missionário brasileiro do PIME que trabalha com a New Humanity International. "Escolhemos o ouro", explica ainda o missionário, "porque é a cor de Mianmar, a terra dourada do budismo".


O povo vive o dia a dia

A ideia de uma creche para crianças em idade pré-escolar nasceu de um encontro com a comunidade local. "Perto de casa, há um grande mercado onde faço minhas compras. As pessoas aqui vivem o dia a dia, vendem o que coletam no lixão ou indo na fábrica, mas sem nenhuma certeza sobre o amanhã. Um dia eles ganham algo, no dia seguinte eles não sabem". No aterro de Insein vivem cerca de 350 famílias a maioria das quais se deslocou para cá após o Furacão Nargis em 2008, no qual mais de 138.000 pessoas perderam suas vidas.


As conversas do Pe. José no mercado enquanto fazia suas compras se transformaram em convites para casa: diante de um chá ou uma tigela de arroz, nasceu a ideia de uma escola para as crianças mais novas, que passavam a maior parte do dia sozinhas no lixão enquanto seus pais trabalhavam. Depois de pouco mais de um mês, a creche Colmeia de Ouro acolheu 60 crianças, metade na parte da manhã e metade à tarde. Seis professores dirigem as aulas e os jogos, enquanto outros dois levam os pequenos para casa e conversam com os pais para tentar ajudar nas situações de dificuldade.


Situações de dificuldades

No início, as famílias de Insein - um distrito também conhecido pela presença de um grande presídio estatal - eram desconfiadas: "Geralmente, se os professores vão ver os pais, é para dizer-lhes que seus filhos se comportaram mal", explica o Pe. José. "Mas lentamente eles estão se abrindo e assim podemos entender se existem situações difíceis e se podemos fazer algo para cuidar dos pais também". Há alguns dias, um pai de 27 anos abandonou sua esposa de 24 anos e o filho de 4, conta ainda o padre brasileiro. "Estamos fazendo o que podemos para ajudar a mãe e a criança. Infelizmente, o alcoolismo é um fenômeno muito presente, uma garrafa de bebida alcólica custa menos do que um litro de leite".


Interagindo com os pais, as professoras descobriram que as famílias só podem garantir uma refeição por dia a seus filhos: na creche Colmeia de Ouro as crianças recebem sempre o almoço, muitas vezes com carne ou ovos, alimentos que as famílias não têm condições de comprar.


Mas o objetivo principal da escola é garantir que as crianças sejam registradas no cartório. Aqueles que vivem no lixão, na verdade, não têm documentos e, portanto, não existem para o Estado: "Alguns vivem aqui há quase vinte anos e não sabem sua data de nascimento”. Mas não ter documentos significa acima de tudo não ter acesso à saúde ou à educação. Um médico e uma enfermeira voluntários concluiram uma avaliação de todos os pequenos pacientes da Colmeia de Ouro: "O médico decidiu tratar uma mãe que tem um grave problema de tireoide e precisa de cirurgia. De outro modo seria impossível, nos disse ainda padre José, porque ninguém aqui pode pagar uma clínica, ninguém jamais viu um dentista".

Solidariedade

Portanto, é a solidariedade que mantém Mianmar unido, um país devastado por 16 meses de guerra civil: "Em Yangon há muitas instituições governamentais, não há uma situação de confronto aberto como em Shan ou Kachin ou nas áreas rurais do país. De vez em quando ouvimos uma explosão, recebemos a notícia da morte de algum chefe de distrito ou líder comunitário que colabora com a junta golpista, mas depois a vida continua como de costume". Em 1º de fevereiro de 2021, o Tatmadaw (exército birmanês) expulsou o governo civil anterior liderado por Aung San Suu Kyi. Após um período inicial de protestos pacíficos, eclodiu um confronto armado entre as tropas do exército e as Forças de Defesa Popular - a ala armada do governo de unidade nacional no exílio - apoiada por milícias étnicas. "Apesar de tudo, encorajamos as famílias a mandar seus filhos à escola", explica o Pe. José. "Pelo menos assim eles podem continuar a estudar, no lixão não teriam outra opção".


Assim como um verdadeiro ninho de abelhas, a Colmeia de Ouro está se tornando um refúgio das atrocidades do conflito através da vida comunitária: "Estamos nos organizando para expandir as atividades do centro, realizando cursos aos sábados e domingos para crianças mais velhas. As famílias não sabem que somos padres, nós nem sequer lhes dizemos, elas não entenderiam. Nos contentamos em viver apenas de testemunhos".


Por Vatican News com Alessandra De Poli, Asia News