Myanmar, um ano depois
- Editora Mundo e Missão PIME
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- há 1 dia
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Após o terremoto de março de 2025 e apesar das enormes dificuldades, a New Humanity International, ONG ligada ao PIME, ampliou suas atividades, continuando a levar alívio a um povo que não encontra paz.

Feridas ainda visíveis
Um ano após o terremoto de 28 de março de 2025, a cidade de Mandalay ainda mostra as marcas do trágico acontecimento. Em alguns bairros, caminha-se entre muros desabados e estruturas de ferro retorcidas, mas também entre vigas de madeira e andaimes de bambu usados na reconstrução.
Em alguns casos, casas e pagodes budistas continuam rasgados como cadernos dos quais alguém parece ter arrancado páginas. A junta militar que tomou o poder em 2021 com um golpe de Estado informou que quase 4 mil pessoas morreram, mas outras estimativas apontam que os mortos podem ultrapassar 5 mil e os feridos chegar a cerca de 11 mil. Doze meses depois, é impossível saber os números com certeza, devido à dificuldade de acesso às áreas atingidas. O terremoto afetou sobretudo a região central do país, entre as regiões de Sagaing e Mandalay, onde há cinco anos também persistem confrontos armados.
A ação da New Humanity
Quem se mobilizou para levar ajuda foram principalmente as organizações presentes há mais tempo no território, como a New Humanity International (NHI), ONG ligada ao PIME que atua em Myanmar desde 2002.
Foi o que aconteceu também após o terremoto: os operadores locais se mobilizaram imediatamente para fornecer alimentos, tendas e ajuda de primeira necessidade aos desabrigados em Mandalay e na região de Sagaing — áreas que não faziam parte dos projetos iniciais — ampliando assim suas atividades.
Enquanto várias grandes agências abandonaram o país por dificuldades logísticas, operacionais ou financeiras, sobretudo após os cortes nos auxílios internacionais, a New Humanity International formou uma nova equipe para abrir um escritório em Mandalay. O objetivo é enfrentar também outro fenômeno que sempre acompanha os conflitos: o êxodo de jovens.
Nas áreas onde os combates são mais intensos, quase não se veem homens e mulheres em idade de serviço militar. Segundo algumas estatísticas, até 4 milhões de pessoas fugiram apenas para a vizinha Tailândia ou para outros países da Ásia em busca de trabalho.
Terremoto e guerra juntos
Em várias regiões, como Sagaing, no centro do país, a catástrofe natural se somou a outra fratura: a do conflito interno. A sobreposição entre terremoto e confrontos armados explica por que a reconstrução permanece limitada e desigual. Para a maioria da população birmanesa, porém, as tragédias não começaram com o terremoto — e nem mesmo com a guerra que já dura cinco anos —, mas com a pandemia de Covid-19.
Histórias de sofrimento
Uma jovem que trabalha com contabilidade e prefere permanecer anônima relata sua experiência ligando os acontecimentos como elos de uma corrente. Ela conta que, em seu bairro de Mandalay, os vizinhos se ajudavam trocando arroz e utensílios de cozinha. “A situação ainda era administrável”, explica, embora os cilindros de oxigênio para os doentes começassem a faltar. Era preciso enfrentar filas intermináveis com a sensação de esperar “não se sabe o quê”. Até que um dia, diz ela, “não encontramos mais oxigênio”.
Alguns comentaristas afirmam que foi justamente a experiência de fechamento e tensão durante a pandemia que favoreceu o golpe de Estado.
Uma imagem dolorosa ficou gravada na memória da jovem: um idoso entrou na fila com um botijão de gás de cozinha, esperando poder enchê-lo com oxigênio para a esposa. “Eu queria tê-lo ajudado”, confessa a operadora. Mas ceder o pouco oxigênio que tinha significaria colocar em risco a própria família.
Medo e incerteza
Depois do golpe militar, “tudo mudou novamente”. Escolas e hospitais começaram a fechar por causa das greves de funcionários públicos que se recusaram a trabalhar em protesto contra o regime.
Os medicamentos desapareceram das prateleiras, enquanto os preços triplicaram. Com o terremoto, a situação piorou ainda mais. “Não podíamos ficar dentro de casa, tínhamos que dormir na rua. Mas nem ali você está seguro”, conta um colega da jovem.
Entre os medos enfrentados pelos jovens está também o recrutamento forçado, após uma lei de 2024 que reintroduziu o serviço militar obrigatório. Por isso, muitos fugiram ou procuram fugir do país.
Apoio às pessoas com deficiência
Entre aqueles que não podem abandonar o país estão muitas pessoas com deficiência. Com elas, a New Humanity International desenvolve um trabalho fundamental em um país de maioria budista, onde as doenças muitas vezes são vistas como uma “punição” do karma.
A associação administra diversos centros iCare dedicados à deficiência infantil e à reabilitação.
Somente em 2025, até o final de novembro, a NHI acompanhou 678 crianças, realizando mais de 2 mil sessões de fisioterapia domiciliar e mais de 4 mil atendimentos individuais. Centenas de equipamentos de mobilidade foram distribuídos, além de reembolsos médicos e encaminhamentos para hospitais e clínicas especializadas. Em muitos casos, a ONG também ajudou a pagar as despesas escolares, evitando que a deficiência se tornasse uma condenação à exclusão.
Feridas invisíveis
Os operadores locais explicam que o problema mais frequente encontrado é a paralisia cerebral, causada pela falta de oxigênio durante o parto, cujos danos neurológicos acompanham a criança por toda a vida. Muitas vezes, porém, as causas não são apenas clínicas. Um número significativo de casos está relacionado à violência doméstica, que em Myanmar continua sendo um grande tabu.
Não existem dados disponíveis para medir a dimensão do problema, e quase ninguém fala abertamente sobre o assunto. Quando questionadas diretamente, muitas mulheres apenas balançam a cabeça em silêncio. Em Myanmar, as fraturas não são apenas físicas — também atingem a alma.
Educação e recomeço
Outro lugar marcado pela fragilidade é o centro de detenção juvenil de Kaw Hmu, na periferia de Yangon. Ali, a NHI colabora com as autoridades e com o Departamento de Bem-Estar Social para oferecer programas educativos e de formação profissional aos jovens detidos.
Dentro da instituição são organizados cursos que permitem obter uma certificação nacional necessária para conseguir emprego. O retorno à sociedade é acompanhado de perto para evitar que os jovens voltem a cometer crimes.
Percursos de formação profissional também são oferecidos no Dayamit College, no distrito de Dala, em Yangon, além do rio de mesmo nome.
A região é pobre e considerada marginal pelos moradores da antiga capital, embora seja possível chegar ali com uma breve travessia de balsa. Dezenas de jovens que participam dos cursos da NHI vêm de áreas habitadas principalmente por minorias étnicas — como chin, kachin ou kayah cristãos — e ainda não completaram vinte anos. No entanto, também são acolhidos estudantes budistas e muçulmanos, sem distinção. Quase todos abandonaram a escola por causa da pobreza ou da instabilidade política.
Caminhos de esperança
O conflito espalhou milhares de pessoas por regiões distantes das cidades. Por isso, a New Humanity International criou iniciativas para apoiar também as populações das áreas rurais, onde aumentou o número de deslocados. Entre as ações estão programas de formação agrícola, reflorestamento e criação de animais; a criação de grupos de agricultores que compartilham as terras cultiváveis para melhorar a renda; a construção de sistemas de água; cursos de nutrição e capacitações profissionais voltadas especialmente para as mulheres.
Um dos cursos mais populares é o de produção de chinelos.
Uma imagem simples que se torna metáfora de um país que quer continuar caminhando, apesar de todas as tragédias que enfrentou.
Por Redação Mondo e Missione - Tradução e adaptação Valesca Montenegro - redação Mundo e Missão
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