Nigéria: como está a situação após o massacre

No último domingo, homens armados invadiram a Igreja de São Francisco Xavier em Owo, Estado de Ondo, atirando contra os fiéis que estavam celebrando a Solenidade de Pentecostes. Muitas as vítimas, incluindo várias crianças. O Papa Francisco expressou a sua proximidade às famílias dos mortos e dos feridos.


À dor geral, "enquanto os detalhes do incidente estão sendo esclarecidos", se uniu também o Papa, como foi informado pelo Sala de Imprensa da Santa Sé. "O Papa Francisco reza pelas vítimas e pelo país, dolorosamente atingido num momento de festa, e confia ambos ao Senhor, para que envie o Seu Espírito para que os console", refere o porta-voz Matteo Bruni.


Em oração pelas vítimas e pelas famílias

"A identidade dos agressores permanece desconhecida, enquanto a situação deixou a comunidade devastada. No entanto, por enquanto, agentes de segurança foram destacados por toda a comunidade para administrar a situação", informa ainda o padre Ikwu. Invoca, então "a intervenção de Deus" para restaurar "a paz e a tranquilidade" no país. "Dirigimo-nos a Deus para consolar as famílias daqueles que perderam a vida neste ataque angustiante e rezamos para que as almas falecidas descansem em paz".


A condenação do presidente

Entretanto, a condenação ao ataque chegou da parte do presidente nigeriano Muhammadu Buhari. Numa declaração emitida pelo seu porta-voz, Femi Adesina, Buhari afirma que espera que os agressores sofram uma dor eterna tanto na terra como após a morte. Expressando condolências às famílias das vítimas e à Igreja Católica, o chefe de Estado deu instruções às agências de emergência para entrarem em ação e prestarem socorro aos feridos. "Este país", lê-se na declaração do presidente, "nunca se renderá ao mal e aos ímpios, e as trevas nunca vencerão a luz".


Situação atual

Uma religiosa, enfermeira no Hospital São Luis de Owo, testemunha quais são hoje os sentimentos da população e os medos que crescem para frequentar até mesmo lugares sagrados.


A Conferência Episcopal da Nigéria exortou o governo a intensificar seus esforços para encontrar os agressores da igreja de São Francisco Xavier no Estado de Ondo. Os bispos advertiram que caso contrário se acelerará a descida do país à anarquia. A segurança está entre os desafios mais problemáticos da Nigéria, o país africano mais populoso e com a maior economia do continente.


Bispos: governo de agir com decisão

"Nenhum lugar parece estar novamente seguro em nosso país; nem mesmo os lugares sagrados de uma Igreja": foi o que disse o presidente dos bispos, dom Lucius Ugorji, chocado após saber domingo à noite do massacre de Owo, que causou a morte de 21 pessoas, de acordo com o último balanço das autoridades locais.

"Condenamos nos termos mais fortes o derramamento de sangue inocente na Casa de Deus. Os criminosos responsáveis por tal ato sacrílego e bárbaro demonstram sua falta de senso do sagrado e do temor de Deus", denunciam ainda os prelados. Se o governo não agir de forma decisiva sobre um assunto tão sério", declaram, "há o risco de acelerar a descida do país à anarquia. Os bispos argumentam que os governantes devem assumir a responsabilidade primária de garantir a vida e a propriedade dos cidadãos: "O mundo está nos observando! E Deus também está nos observando".
Igreja de São Francisco Xavier no Estado de Ondo - Créd. Vatican Media

Onaiyekan: O Islã não está em guerra contra nós

Os ataques a locais religiosos são particularmente sensíveis na Nigéria, onde as tensões às vezes surgem entre comunidades de um país com um sudeste predominantemente cristão e um norte predominantemente muçulmano. Entretanto, tais ataques são raros no sudoeste relativamente pacífico do país. O missionário padre Giulio Albanese exclui uma guerra religiosa e identifica os Fulani como os artífices: eles são "pastores nômades que sempre estiveram em conflito pela terra com a população estabelecida, procurando constantemente em todo o país por território para ocupar". Atacar uma igreja, relata o sacerdote, é "talvez uma mensagem política". Uma vingança pelas medidas do governador que emitiu várias "restrições" contra eles.


"Dizem que o presidente é do mesmo grupo étnico, mas não é essa a questão. A questão é que a polícia, o exército, as forças da lei e da ordem que não são capazes de detê-los", disse o cardeal John Olorunfemi Onaiyekan, que também afirma: o Islã não está em guerra conosco. Entre as pessoas, agora, "prevalece uma sensação de insegurança. Dor e raiva. As pessoas se sentem impotentes", sublinha o cardeal, "diante desses criminosos, sem nenhuma maneira ou alguém para nos defender".

"Os agressores nem sequer entraram na igreja, eles atiraram pelas janelas", disse Richard Olatunde, porta-voz do governador do Estado de Ondo, à AFP. O ataque ocorreu na véspera do Congresso de Todos os Progressivos (APC) que escolherá o seu candidato às eleições presidenciais de 2023. O presidente Muhammadu Buhari, ex-general do exército, deverá concluir seu segundo mandato em fevereiro de 2023, conforme estipulado pela Constituição.


Irmã Agnes: estamos aterrorizados, mas devemos estar ao lado do povo

Conversamos por telefone com a irmã Agnes Adeluyi, das Irmãs de São Luis em Owo. Ela é enfermeira no Hospital São Luis, que está cuidando das pessoas com graves lesões físicas. Ela conta como eles estão trabalhando:


Cristãos feridos - Créd. Vatican Media

Como estão os feridos?

A maioria está melhor hoje, mas alguns estão em sérias condições, perdendo sangue por causa das balas que receberam, apesar das operações que já realizaram. Alguns precisam de outra operação hoje. Muitos foram baleados na cabeça ou em lugares delicados. Há uma mulher, por exemplo, que tem sua bexiga e seu útero totalmente destruídos.


Sob que condições vocês trabalham?

Temos apenas quatro médicos. Estamos trabalhando sob demasiada pressão. Mas o governo enviou mais três médicos para nos ajudar. Normalmente este é um hospital onde você paga pelo tratamento, mas foi decidido que para esta circunstância tudo será pago. Esperamos que o governo nos ajude com o financiamento. Não temos eletricidade aqui, usamos geradores, gastamos muito, também porque tudo tem aumentado ultimamente.


Onde a senhora estava quando ocorreu o massacre?

Eu estava em Owo, há muitas igrejas aqui, já tínhamos ido à missa em um politécnico. Estávamos na capela para a adoração eucarística quando ouvimos os sons de duas explosões. As igrejas estão próximas, alguém nos informou o que estava acontecendo e nos ordenou de sair do lugar onde estávamos e ir para Akure, onde está localizada nossa casa geral. Em vez de irmos lá, fomos diretamente ao hospital para ajudar os feridos.


Quais são as hipóteses sobre os assassinos?

Alguns observadores acreditam que foram os Fulani....

Ouvimos dizer que o altar da igreja foi completamente destruído. Sim, dizem que foram eles. Dois deles foram mortos pela polícia que interveio.


Como conseguem ainda viver com o risco de morrer sob este tipo de ataques?

É um desafio contínuo. Devemos continuar a trabalhar e ajudar o povo. Devemos estar sempre conscientes de que os Fulani estão nos cercando na floresta e podem nos atacar a qualquer momento. Estamos aterrorizados, mas devemos perseverar. Todos temos medo porque na realidade não há apoio de proteção por parte do governo. As pessoas agora têm medo até mesmo de ir à igreja. Esta manhã só havia religiosas na missa, todos estão com medo agora. Mas não podemos nos queixar desta ausência, não há segurança.


Qual é o objetivo destes ataques?

O que entendemos é que estes pastores querem tomar o território da Nigéria sob seu controle, especialmente no sul. Eles estão vindo do norte para atingir as áreas do sul e pegar os recursos dessas terras. Nossos bispos não se calam e condenam esta situação que se repete ciclicamente.


Por Antonella Palermo – Vatican News, adaptação redação Mundo e Missão