top of page

Padre Maurizio Bezzi: a missão que se transforma

há 11 minutos
7 min de leitura

Após 30 anos dedicados às crianças e aos adolescentes em situação de rua em Camarões, missionário do PIME vive na Argélia uma nova forma de testemunhar a fé, mesmo diante dos desafios da doença.

O tempo passa, a missão permanece. Missionários retratados há 25 anos e atualmente, mostrando uma trajetória de dedicação e serviço à missão. Foto: Reprodução Vatican Media
Foto: Reprodução Mondo e Missione

A missão ganha novos caminhos

Padre Maurizio Bezzi sempre foi um homem de ação. Sua missão era vivida sobretudo nas ruas, junto às crianças e aos adolescentes de Yaoundé, no Camarões, em meio a inúmeros desafios, problemas, sofrimentos e também muitas alegrias. Uma vida intensa e frenética, cheia de vitalidade e… “não isenta de riscos!”, admite hoje, brincando.

Depois, surgiu um novo horizonte, geográfico, mas também existencial: de Yaoundé a Argel, de um país de maioria cristã para outro quase exclusivamente muçulmano, onde o testemunho se dá sobretudo pelo encontro e pela escuta. Mas não apenas isso.


Na Argélia, os ritmos e as atividades se tornaram menos intensos, tanto pelo contexto quanto pela doença: primeiro, um aneurisma leve; depois, quatro stents; por fim, o Parkinson. A doença chegou discretamente, transformando, em silêncio, sua relação com o corpo, o tempo e o mundo. Os gestos ficaram mais lentos, os tremores se tornaram mais frequentes e a palavra passou a precisar de um instante a mais para encontrar seu caminho.


Hoje, padre Maurizio, natural de Foresto Sparso, na província de Bérgamo, nascido em 1957, é uma pessoa diferente, mas continua cheio de positividade, senso de humor, fé e atenção aos outros. Com uma força extraordinária, procura viver sua missão “de outra maneira”.

“Não sinto isso como uma limitação, mas como uma forma diferente de ser missionário, mais monástica do que voltada à ação, com belas relações e tempos mais propícios à oração, à leitura, à meditação e ao silêncio. Estar na Argélia ajuda nesse sentido”, reflete padre Maurizio. “Não é um lugar do fazer, mas do estar presente; é uma presença que se transforma em encontro e que, às vezes, também se traduz em bem.”


A presença que transforma vidas

Ele conta a história de um migrante em situação particularmente difícil, que não tem direitos por estar sem documentos; de uma adolescente que conseguiu salvar da prostituição forçada; e também das pessoas detidas que visita na prisão.

“Sou a única pessoa que vai visitá-los. Todos são originários da África subsaariana e não têm parentes ou amigos na Argélia. Ou, se os têm, muitas vezes estão em situação irregular e certamente não podem se aproximar da prisão. Muitos vêm de Camarões…”, suspira.

Camarões, uma missão inesquecível

Camarões foi seu campo missionário durante muitos anos, de 1987 a 2018, e continua ocupando um lugar especial em seu coração. As lembranças permanecem vivas, sobretudo as do primeiro impacto, quando, pouco depois de completar 30 anos e cheio de vontade de agir, se deparou com um contexto cultural como o do Extremo Norte do país, onde parecia que nada poderia mudar.

“Eu via muitas injustiças e muito fatalismo. E tinha a impressão de que não podia fazer nada. Naquela época, estava cheio de energia e vontade de enfrentar os desafios. Mas era como se estivesse sempre diante de muros, muitas vezes construídos com preconceitos e medos. Foi ali que percebi que o cristianismo é realmente uma palavra de libertação.”

Apesar de tudo, naquela savana castigada pelo sol e pontilhada de pequenas aldeias, ele começou a se adaptar e a criar vínculos com as pessoas, entrando pouco a pouco na língua e na cultura dos tupuri.


“Fiquei um pouco desorientado quando, depois de quatro anos, me propuseram ir para Yaoundé.” Naquele período, também no PIME, refletia-se sobre a possibilidade de desenvolver novas formas de missão nas grandes cidades. “A ideia, porém, não era ir para uma paróquia, mas experimentar caminhos diferentes”, esclarece Bezzi.


O encontro com crianças de rua

A oportunidade surgiu, como acontece tantas vezes, por meio de alguns encontros. O primeiro foi com padre Gabriele Matavelli, carmelita e capelão da prisão de Yaoundé, onde já atuava uma equipe dinâmica de sacerdotes e religiosas.

“Padre Gabriele me acolheu de bom grado, mas disse que havia alguém que precisava mais. Foi assim que conheci o irmão Yves Lescanne.” Pequeno irmão de Charles de Foucauld, Yves trabalhava havia muitos anos no setor juvenil da prisão e com os adolescentes em situação de rua.

“Ele foi o primeiro a perceber um fenômeno que outros não viam ou não queriam ver”, conta padre Maurizio. “Era algo que começava a surgir de maneira preocupante e constituía um sinal inequívoco de mal-estar econômico, social e cultural. Disse a ele que poderia dar uma mão. Ele pegou o braço, a cabeça, tudo!”, brinca padre Bezzi.

Ele se dedicou inteiramente a esse trabalho, sobretudo depois que o irmão Yves se transferiu para o Norte do país, onde morreu em 29 de julho de 2002, pelas mãos de um dos jovens que acompanhava.

Padre Maurizio também sofreu ameaças, roubos e pressões. Mas quem o conheceu no Centro Edimar ou nas ruas de Yaoundé sabe que aquele era, de fato, o seu lugar, a sua casa.


“Acolhemos muitas crianças e adolescentes, mas, desde o início, em 2002, concebemos o Centro como um espaço aberto apenas durante o dia, um ponto de referência onde eles pudessem encontrar adultos em quem confiar, dispostos a ouvi-los e orientá-los.” Criado com a ajuda de um querido amigo francês e de recursos da Fundação Monegasca dedicada à princesa Grace, o Centro Edimar receberá, neste mês de outubro, a visita do príncipe Alberto, que continuou apoiando a iniciativa.


“Será a oportunidade de voltar a Yaoundé!”, sorri, feliz, padre Maurizio.

Desta vez, porém, provavelmente não irá às áreas mais perigosas da capital, que durante tantos anos foram o outro polo de sua missão.

“Íamos lá regularmente, e quem quisesse nos encontrar sabia que poderia nos procurar ali. A familiaridade com a rua foi nosso ponto forte. Foi assim que nasceram tantas relações.”

Uma missão construída em equipe

Em torno desses dois polos — o Centro Edimar e as ruas — também cresceram muitas amizades e parcerias. Aos poucos, a missão de padre Maurizio se enriqueceu não apenas com a presença e a ajuda de seu confrade padre Marco Pagani, que agora também está na Argélia, mas com a participação de muitos jovens camaroneses que decidiram compartilhar seu caminho de fé e compromisso social. Entre eles, destaca-se Mireille Yoga, uma mulher extraordinária, cheia de energia e carisma, que hoje continua conduzindo todas as atividades.


“A isquemia, em abril de 2018, e o Parkinson, diagnosticado cerca de dois anos depois, com um período na Itália durante a Covid entre os dois acontecimentos, obrigaram-me a fazer um corte radical. Foi a oportunidade de jogar tudo nas costas de Mireille!”, diz, brincando.

Mas logo acrescenta: “Ela havia amadurecido muito, tínhamos compartilhado tudo, e todos a conheciam e apreciavam. Foi uma passagem natural de responsabilidades.”

Isso lhe pesou? “Sim e não”, reflete. “Sempre enxerguei nessa história um fio condutor: a Providência divina. Sempre vivi minha missão e meu serviço como algo que me foi dado para ser devolvido. Nunca quis que isso fosse a essência da minha vida, algo que a esgotasse: a essência é Cristo.”


A Providência continua agindo

Essa convicção também o acompanhou na Argélia, para onde se mudou em 2023. Mas, de alguma forma, Camarões o seguiu até lá.

“Um dia, conta ele, recebi uma ligação de um ex-adolescente em situação de rua de Yaoundé, que eu havia conhecido na prisão e que frequentara o Centro Edimar por algum tempo. Ele havia decidido emigrar e chegara à Argélia. Depois de tantos anos, ainda tinha meu número!”

Já Seraphine, ele conheceu em Orã. Ela havia frequentado a universidade e trabalhava em uma pequena escola que o bispo reformara para os filhos dos migrantes, a fim de evitar que a passagem pela Argélia tivesse efeitos negativos demais sobre as crianças. Ela também havia ficado retida no país. Não conseguira atravessar o Mediterrâneo e pensava em voltar para Camarões.

“Vi como ela trabalhava e fiquei impressionado. Coloquei-a em contato com Mireille. Elas descobriram que eram originárias da mesma aldeia, mas, sobretudo, encontraram uma sintonia extraordinária. Seraphine voltou a Yaoundé e as duas começaram a trabalhar juntas. Ela é excelente com os jovens, e todos gostam muito dela!”

Testemunhar em um país muçulmano

Embora o vínculo com Camarões continue forte, hoje sua missão está firmemente enraizada na Argélia, um contexto muito diferente e, em muitos aspectos, mais difícil, “mas onde tenho menos responsabilidades pessoais”, observa padre Maurizio.


As atividades, porém, não faltam: as visitas à prisão, o serviço semanal na biblioteca da Casbá, o voluntariado em um centro de acolhida para migrantes, as visitas a uma casa de repouso, os serviços nas estruturas diocesanas e a celebração da missa para os poucos cristãos presentes na capital, todos estrangeiros. Há também os relacionamentos com as pessoas.

“Aqui, as pessoas são muito acolhedoras. Geralmente temos boas relações com todos. Até nos encontros ocasionais, que muitas vezes acontecem nos táxis coletivos, vivemos belas aventuras!”

Quando os relacionamentos se aprofundam e as pessoas passam a se conhecer melhor, muitas barreiras e preconceitos também são superados.

“Na prisão, por exemplo, ouvi um dos guardas dizer ao colega: ‘Essas são pessoas de paz!’. Isso me marcou muito. Com outros, com quem tenho mais intimidade, também converso sobre assuntos mais profundos. Um dia, eu conversava com um vizinho sobre oração e liberdade. Em determinado momento, ele exclamou: ‘Gostaria que também nos educassem para isso!’”

Já aqueles que gostam dele ficam tristes porque… ele não irá para o paraíso! Na tradição muçulmana, afinal, esse destino é reservado apenas aos fiéis do islã.

“Uma vez, um homem me disse: ‘Que pena, um senhor tão simpático e bom!’”


A essência permanece em Cristo

As lembranças, o afeto, a ironia, a capacidade de amar e de sofrer: padre Maurizio continua sendo, de fato, “um senhor simpático e bom”, mesmo quando o corpo encontra dificuldades para se expressar.

Sua mente, porém, permanece voltada para o essencial, para aquilo que realmente importa.

“Uma experiência muito bonita que vivo aqui em Argel é a comunidade do PIME. Atualmente, somos quatro, três presbíteros e uma leiga, e acolhemos um diácono argelino. Há um ambiente muito bom, sereno, que ajuda a dar sentido e significado a uma modalidade muito particular de testemunho que, em todos os aspectos, chamamos de missão.”

Por Anna Pozzi - Mondo e Missione - Tradução e adaptação Valesca Montenegro - redação Mundo e Missão

Obrigado por ter lido este artigo. Se quiser se manter atualizado sobre Mundo, Igreja e Missão, assine a nossa newsletter clicando aqui


Propaganda  - Campanha de Assinaturas

 
 
 

Comentários


pngwing.com (1).png
bottom of page