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Páscoa na China entre fé e esperança

Do interior da República Popular da China, o relato dos sofrimentos das comunidades católicas: da profunda ferida provocada pela proibição de educar os menores na fé, aplicada com rigor crescente, até a certeza de que “Deus está conosco e seguimos em frente”.

Créd. Reprodução Mondo e Missione
Créd. Reprodução Mondo e Missione

Um ritmo de dor e fé

Quando se vive na China, é impossível não mergulhar em um ritmo de sofrimento e esperança que marca a história chinesa e o seu cotidiano. Um ritmo feito de feridas sufocadas e feridas ainda abertas, de grandes impulsos de confiança, consciência de si e — no caso dos cristãos — de uma fé profunda. Um ritmo que é o próprio ritmo da Páscoa.


Memórias silenciosas do passado

Às vezes, as pessoas se abrem e, em momentos de intimidade e amizade, a dor emerge. Não surgem grandes relatos ou episódios sensacionais, mas sentimentos, coisas não ditas, pequenas frases ou expressões que carregam todo o peso acumulado por gerações — iniciado com a Revolução Cultural, talvez até antes.


“Minha mãe morreu de fome durante os anos 1970”; “Não posso te apresentar meus irmãos, porque ninguém sabe que os tenho; sempre mantivemos isso em segredo e vivemos como se não nos conhecêssemos”; “A única coisa que eu queria era cantar e viver como artista, mas não era permitido. Então, escondido, estudei inglês, russo e depois italiano, esperando escapar, ao menos na minha mente”.

São muitas feridas que se tornam uma só, escondida sob um véu de reserva, diante da qual se experimenta tristeza, angústia e profundo respeito.


Feridas visíveis no cotidiano

“Como alguém diante de quem se cobre o rosto”

Essa ferida também se manifesta em certas casas simples e descuidadas, cheias de caixas e objetos acumulados sobre sofás e cadeiras. Uma espécie de “não cultura do lar” que comove pela sua intensidade. Uma “feiúra” herdada dos tempos mais duros, presente não apenas nos vilarejos, mas também nas cidades, onde o estilo rural se reproduz nos apartamentos dos grandes arranha-céus.


“Sem beleza ou aparência que atraia nossos olhares”


Assim, a ferida não foi curada, mas apenas encoberta por uma camada de tecnologia, grandiosidade arquitetônica e bem-estar material: “A situação parece difícil para você? Deveria ter vivido antes — pelo menos agora temos comida e descanso”.


Nova ferida: a fé proibida

Feridas antigas se somam às novas, como a proibição de educar os menores na fé. Nos últimos anos, o governo chinês tem aplicado com crescente rigor a lei que impede qualquer educação diferente da oficial. No caso da Igreja, isso significa proibir a entrada de menores nas igrejas e qualquer atividade formativa para crianças e jovens.

A lei é cumprida: paróquias já foram fechadas por causa da presença de crianças ou por publicarem fotos de atividades nas redes sociais.

Mais do que interromper a transmissão da fé, essa norma é uma ferida aberta que se soma às já existentes.


Pressão sobre as famílias

Pensemos nas famílias com pais nascidos entre os anos 1970 e 1980, que ainda guardam viva a memória das perseguições. Após um breve período de “liberdade inesperada”, agora enfrentam a impossibilidade de transmitir aos filhos aquilo pelo qual lutaram e resistiram.


Embora muitas comunidades organizem atividades clandestinas, a pressão sobre os menores é enorme. Os pais dizem que a fé é o mais importante, mas eles não podem falar sobre isso na escola ou com amigos — e, se perguntados, não devem dizer que são cristãos.

Além disso, a impossibilidade de conviver com outros jovens cristãos — exceto em contextos clandestinos — gera solidão e desânimo. Isso reforça o estigma social da fé promovido pelo governo. Em escolas e universidades, não é raro que professores ou diretores alertem estudantes cristãos de que sua fé pode prejudicar suas carreiras.

Assim, as pressões se acumulam.


Esperança que nasce na dor

“Homem das dores, que conhece o sofrimento”

É nesse contexto que algo muda: o ritmo se transforma, e o sofrimento dá lugar à esperança.

Certa vez, elogiei uma mãe envolvida em atividades clandestinas pela sua perseverança. Disse que sua capacidade de seguir em frente, mesmo sem ver frutos, era inspiradora. Ela respondeu, com simplicidade, que “os frutos veremos apenas no paraíso” — e que não é importante buscá-los agora.


Outra vez, conversando sobre a situação da China com um amigo, um idoso chinês que estava conosco — mesmo sem entender inglês — percebeu nossa preocupação e disse com serenidade: “Não se preocupem, vocês se angustiam demais. A Igreja chinesa está nas mãos de Deus e de Maria, tudo passa”.

Não há heroísmo nessas palavras, mas simplicidade: “O cansaço existe, mas nós rezamos. Deus está conosco e seguimos em frente”.


A luz que renasce

“Então a tua luz surgirá como a aurora, e tua ferida logo será curada. À tua frente caminhará a tua justiça”

Essas palavras parecem vir de quem já vive com os olhos no além. De quem fez do sofrimento uma companheira de vida e, sem se deter na dor, se projeta na certeza da Páscoa, transformando o sofrimento em amor.


Missão que transforma feridas

Então compreendo que a missão é exatamente isso: mergulhar nas feridas dos povos, senti-las, torná-las próprias e, junto com eles, permitir que sejam transfiguradas — para viver de esperança.


Por Redação Mondo e Missione - Tradução e adaptação Mundo e Missão

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