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Um sim generoso

O padre Giovanni Pontarolo, originário de Pádua, na Itália, é missionário do PIME, foi ordenado sacerdote em março de 1963. No dia 30 de março, padre Pontarolo comemora seus 60 anos de sacerdócio missionário. Todo o seu ministério foi marcado pela missão de aliviar a situação de fome de inúmeras pessoas na sua missão.


Como nasceu a sua vocação missionária?

Nasceu de uma visita de um padre na escola onde eu estava estudando. Na época, eu tinha 10 anos, se tanto. Na ocasião, o missionário falou do seu trabalho nas missões. Falou de Jesus e de levá-lo às pessoas que ainda não o conheciam. E perguntou se alguém também gostaria de fazer a mesma coisa. Fui um dos muitos que levantaram a mão. Depois, ele pediu para anotar o nosso endereço. Dei o meu com toda a simplicidade de uma criança de 10 anos. Mais tarde ele apareceu em casa. Acho até que ele entrou na casa de vários; só que, daqueles que levantaram a mão e deram o endereço, só dois se prontificaram a ir. Eu e um grande amigo, mas os pais dele não aceitaram a decisão do filho. Então, sou o único de todos que, com a permissão de meus pais, tomou esse rumo na vida. Por isso é que estou aqui.


Depois da sua ordenação, o senhor sonhava com a missão, evidentemente. Para qual país gostaria de partir?

O desejo que eu tinha quando me foi perguntado aonde eu queria ir, logo me veio a figura de um padre sobre o qual eu tinha lido muito. Era o padre Clemente Vismara, que vivia na Birmânia. Aí, eu logo respondi: Birmânia! Acontece que o governo de lá estava fechando a entrada do país aos missionários. Então me encaminharam para cá, o Brasil. Cheguei em São Paulo, onde aprendi a língua portuguesa. Fiquei 20 anos no sul do país; depois me enviaram ao Amapá. No início, passei por uma paróquia chamada paróquia do Jari. Uma paróquia bem difícil, pois era carente de tudo. Comecei do zero, em todos os sentidos. Foi um período de muito sofrimento, mas também foi bom, viu? Depois de lá, fui para o município de Santana; em seguida, Macapá. Em Macapá, foi destinado a assumir a paróquia Nossa Senhora da Conceição, no centro da cidade.


Padre Pontarolo (no centro) durante uma visita numa comunidade

O senhor poderia contar uma das histórias que marcaram o seu ministério?

A paróquia Nossa Senhora da Conceição é frequentada por pessoas de bem-estar, né? Ouça esse episódio: Um dia, depois de alguns meses que eu trabalhava lá, chegou um senhor e me falou: “Padre, eu tenho aqui uns gêneros alimentícios para doar e distribuir para as pessoas necessitadas.” Abri a porta da paróquia e levei um susto: ele logo abriu o seu caminhão. Estava lotado de mercadorias Tinha tanta coisa, tanto bem de Deus, que fiquei até estranhando aquela doação. Mas aí ele começou a descarregar tudo na sala de entrada. Encheu todo o espaço. Era arroz e feijão, açúcar, bolacha, ... tudo quanto dá para fazer cestas básicas. Chamei o pessoal da Caritas e dos Vicentinos e eles passaram a distribuir tudo aos necessitados e ainda sobrou muito alimento. Então me lembrei que lá em Macapá tinha um lixão onde o pessoal ia sempre para ver se catava algum bagulho para vender e ganhar algum dinheirinho, reciclar alguma coisa e obter alguns trocados. Então enchi o carro da paróquia e levei tudo para lá. Chamei o pessoal. Na hora apareceu a turma. Todo mundo corria atrás do carro. Todo mundo ‘estava de pegada’ de ganhar alguma coisa, né? Eram umas 50 cestas básicas.


Por quanto tempo essa ação foi pra frente?

Aquilo era mesmo um lugar de cortar o coração. O pessoal revirava tudo, dia e noite trabalhando duro para disputar alguma coisa com os urubus, no meio da sujeira. Aí decidi e falei para mim mesmo: “No próximo mês, venho de novo”. Assim, todo mês eu ia para lá levando umas 50 cestas básicas. A coisa durou uns dez anos, contando sempre com a ajuda de benfeitores que vinham da Itália e com gente da paróquia.


Ao visitar o lixão, o senhor teve outras iniciativas, além da distribuição de cestas básicas?

Aquela gente me contava então as suas mais graves necessidades. Lá, eles trabalhavam no meio da sujeira e nem água tinham para tomar banho antes de voltar para casa. Eu decidi: “Ora, vamos fazer um poço artesiano”. Então arranjei o dinheiro e pedimos a licença da prefeitura para cavar o tal poço. Levantamos uma caixa d’água e fizemos sanitários e banheiros para eles poderem tomar o seu banho. Eles gostaram muito. Lá, eles vendiam o material reciclado. Mais tarde, conseguiram umas maquininhas para reutilizar as garrafas PET. Também fizeram uma fábrica de vassouras. Eles mesmos faziam as vassouras, que vendiam para ganhar um dinheirinho. Eu mesmo andei comprando dessas vassouras. Além disso, levava para lá outras pessoas para conhecer a iniciativa e comprar vassouras também.


Mande uma mensagem para os jovens sobre a vida missionária.

Deus chama todo mundo. Deus toca o coração de todos. Depende da gente responder, né? Não vou dizer que eu esteja melhor que os outros. Também sou um coitado como todos nós, que temos nossas falhas, nossos defeitos, né? Mas o importante é ser generoso e dizer “sim!” Assim, às vezes até sem pensar muito porque criança não pensa muito quando responde “sim!”. Eu fui sempre dizendo “sim” a Deus. Você, meu jovem, fale com Deus, pense nele, peça a ajuda dele. Ele resolve, né? Eu estou contente de ter dito o meu “sim”. E agora, estou aqui com meus 84 anos, né? Tenho dificuldades de saúde; mas vamos lá, Deus providencia.


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