Chile: povo Mapuche continua na luta por seus direitos

mapuches

Povo originário que resistiu à colonização espanhola continua na luta por seus direitos

 

O
s mapuches são originários da região centro-sul do Chile e do sudoeste da Argentina. Mapuche é a junção de dois termos: “Mapu” (terra) e “Che” (gente). São também conhecidos como araucanos, nome atribuído a eles pelos espanhóis na época da conquista do território. Eles, porém, não se reconhecem por esse termo, que lhes soa pejorativo. A maioria de sua gente habita a Patagônia chilena; os demais, a Patagônia argentina. É um povo hospitaleiro, esforçado, inteligente, amante da natureza. Sua população atual é de aproximadamente 700 mil indivíduos.

No lado chileno, os mapuches resistiram com êxito ao avanço dos colonizadores espanhóis durante toda a Guerra de Arauco (aproximadamente 300 anos). Após a Independência do Chile e da Argentina, os territórios foram invadidos por forças militares e as populações nativas foram confinadas em “reduções” ou reservas. Devido ao progressivo processo de desapropriação territorial, mais da metade dos mapuches hoje vive em periferias urbanas. Muitos ainda tentam preservar e manter os vínculos com suas comunidades de origem.

Luta por reconhecimento como povo

Conflitos entre esses nativos e o Estado chileno vêm de tempos antigos. Em meados da década de 1990, o movimento mapuche subiu à tona, em resposta à opressão do Estado, e cresceram fortemente suas reivindicações pelo reconhecimento como povo soberano em direitos. Desta pressão nativa emergiram discursos bem fundamentados, utilizando-se da sua identidade. Aliás, a ligação entre identidade e terra é visceral na cosmovisão desse povo, na consciência de si e no reconhecimento da sua comunidade e do próprio Wallmapu (termo mapuche que significa nação cultural, geográfica e histórica, presente em áreas da Patagônia).

Em 1993 foi aprovada a Lei Indígena 19.253, que originou a Corporación Nacional de Desarrollo Indígena para implementar as políticas destinadas aos povos originários, e o Fondo de Tierras y Aguas Indígenas, com o objetivo de obter propriedades e direitos para as comunidades indígenas mediante a compra de propriedades, a fim de se evitar sua expropriação. A lei despertou muita esperança. Mas, bloqueada no Congresso Nacional, não foi cumprida. Isto gerou ondas de violências, vandalismos, prisões, processos e sentenças duríssimas. Um dos episódios mais dramáticos aconteceu em 2013, quando um ataque incendiário contra uma residência resultou na morte de um empresário e sua esposa. Acusados de homicídio, 11 mapuches foram presos. No final domesmo ano a sentença foi suspensa e os indiciados aguardam o julgamento.

Pedido de perdão

Em 23 de junho de 2017, durante a cerimônia da entrega do Plano para Araucanía, a presidente chilena Michelle Bachelet pediu “perdão ao povo mapuche pelos erros e horrores cometidos ou tolerados pelo Estado na sua relação com ele e suas comunidades”.

As medidas do Plano para Araucanía buscam o reconhecimento constitucional dos mapuches, o desenvolvimento produtivo e a ampliação dos programas de ressarcimento para as vítimas da violência. Além disso, ele criou um Ministério de Povos Indígenas, um Conselho de Povos Indígenas, oficializou o uso do mapudungún, a língua mapuche na região da Araucanía, e estabeleceu o dia 24 de junho como o Dia Nacional dos Povos Originários.

Uma solução que os indígenas não consideram suficiente. “Enquanto não existir uma responsabilidade pelos danos que causaram às florestas haverá a indignação não apenas dos mapuches, mas de toda a população”, disse lonko Pichún, líder desse povo.

A quem pertence a Patagônia?

A Constituição argentina permite a reivindicação de terras dos povos originários, mas muitos reconhecem o direito ancestral ao qual apelam os mapuches. Por isso, na Argentina a tensão é permanente. “De quem é a Patagônia? Eles falam de violência, mas mataram e humilharam nossos avós, entregaram as meninas aos homens de Buenos Aires. (…). Nós dissemos chega. Não temos mais medo”, diz Soraya Maicoño, porta-voz mapuche.

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A Igreja católica e os mapuches

Durante o regime militar (1973-1990) e a política de reconhecimento dos direitos dos nativos, os bispos católicos ofereceram um espaço de liberdade aos líderes mapuches, favorecendo a transmissão da sua história, da sua língua e das suas tradições. Em 1987, a viagem de João Paulo II a Temuco alavancou o apoio ao trabalho eclesial para a dignidade dos nativos. Em 2000, a Igreja pediu perdão pelos erros cometidos na primeira fase da conquista e da colonização.

Em janeiro deste ano o papa Francisco esteve em Temuco, onde se encontrou com representantes dos mapuches. Na ocasião, declarou: “Não se pode pedir o reconhecimento dos povos aniquilando-os, porque isso apenas desperta mais violência e divisões”.

Publicado na revista Mundo e Missão de maio 2018 – edição nº 222
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