Professor nigeriano acolhe vítimas do Boko Haram

(Foto: UNHCR)

Sempre com esperança na educação, Zannah Mustapha fundou uma escola para incentivar os estudos entre as crianças forçadas a abandonar suas comunidades por conta da violência

 

Dez anos antes da premiação, Zannah Mustapha havia fundado uma escola na cidade de Maiduguri, capital do estado do Borno e epicentro das atividades criminosas do grupo extremista Boko Haram. Dois anos após a criação do centro de ensino, teve início, no nordeste da Nigéria, um conflito entre o governo e a entidade terrorista. Desde então, mais de 20 mil pessoas foram mortas em meio aos confrontos. No auge da crise, 2,1 milhões de pessoas foram consideradas vítimas de deslocamento forçado. Desse contingente, 1,9 milhão vivem atualmente como deslocadas internas

Segundo dados do Escritório das Nações Unidas de Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), mais de 80% do território de Borno é considerado arriscado ou altamente arriscado para profissionais humanitários. É nesta província que o professor Mustapha mantém um recanto seguro para crianças vítimas da violência.

Prioridade: acolher, sempre

A escola criada pelo professor oferece educação gratuita, alimentos, uniformes e cuidados médicos para meninos e meninas afetados pelas operações do Boko Haram. Aqueles que se tornaram órfãos, devido ao conflito, são recebidos em todas as aulas do professor, não importando o lado dos combates em que estavam. Para o docente, o acolhimento é um exemplo da reconciliação almejada na região.

Nos dez anos transcorridos desde sua criação, a instituição ampliou sua capacidade anual de forma surpreendente — de 36 para 540 alunos. Ansiosas para conseguir frequentar a escola, inúmeras crianças estão inscritas em longas listas de espera. Em 2016, Mustapha abriu um segundo centro localizado a poucos quilômetros do primeiro. A cada dia, perto de cem jovens frequentam as aulas. Todos eles foram forçados a fugir de conflitos na região.

O trabalho de Mustapha também inclui a negociação da liberação de reféns. Sua intervenção foi fundamental para o processo de libertação das 82 meninas de Chibok, em maio de 2017 (leia quadro abaixo).

É assim que se promove a paz

O professor e seu grupo de educadores voluntários conhecem os riscos que enfrentam, mas o trabalho que realizam é muito importante para ser interrompido. “Esta escola promove a paz”, declarou Mustapha, que descreve o centro como o local onde todas as crianças são importantes. “Oferecemos recursos a essas crianças para que possam caminhar por conta própria”, explica o docente.

Em pronunciamento por ocasião do anúncio do vencedor do Prêmio Nansen, o alto-comissário da ONU para Refugiados, Filippo Grandi, afirmou que “a educação é uma das ferramentas mais poderosas para ajudar as crianças refugiadas a superar os horrores da violência e do deslocamento forçado”.

“O empoderamento dos jovens lhes proporciona conhecimentos e capacidades, ajuda a combater a exploração e o recrutamento por parte de grupos armados”, acrescentou o alto-comissário da ONU. “Mustapha e sua equipe estão fazendo um trabalho extremamente importante, ajudando a fomentar a convivência pacífica e a reconstruir as comunidades do nordeste da Nigéria. Com o prêmio recebido em 2017, honramos sua visão e seu trabalho.”

Além de seu trabalho educacional, Mustapha também atua em outros setores da sociedade afetados pelo conflito. Seu apoio foi fundamental para a criação de uma cooperativa para viúvas, que dá assistência para cerca de 600 mulheres em Maiduguri.

Conheça o Prêmio Nansen

O Prêmio Nansen foi criado em 1954 na Noruega, em reconhecimento aos valores e realizações de Fridtjof Nansen, o conhecido explorador polar, cientista, Prêmio Nobel da Paz e diplomata que serviu como o primeiro Alto Comissário para Refugiados da Liga das Nações. O prêmio reconhece o excelente trabalho realizado por indivíduos memoráveis​​, organizações ou grupos cujos corajosos esforços ajudaram diretamente algumas das pessoas mais vulneráveis ​​do planeta, as deslocadas à força. Através desta premiação anual, o ACNUR reforça o elemento central de seu trabalho de mídia, contando histórias de refugiados através dos esforços de indivíduos que estão impactando positivamente a vida de deslocados.

A iniciativa tem Eleanor Roosevelt, Graça Machel e Luciano Pavarotti entre seus laureados. Em 2017, a cerimônia de premiação foi celebrada no dia 2 de outubro, em Genebra, na Suíça.

As meninas de Chibok

No dia 14 de abril de 2014, uma escola pública secundária, em Chibok, no estado nigeriano de Borno, foi invadida por extremistas islâmicos, ocasião em que 276 garotas foram levadas por eles. Elas seriam utilizadas como “moeda de troca” por prisioneiros do Boko Haram. Destas, 57 conseguiram fugir logo depois do sequestro e o exército encontrou uma em maio. O sequestro em massa provocou uma onda de indignação mundial. No início de agosto daquele ano, muitas jovens apareceram em um vídeo publicado por seus sequestradores no YouTube, depois de meses de silêncio e dúvidas sobre seu estado de saúde. No vídeo, o então chefe do movimento, Abubakar Shekau repetia que as jovens se casaram com combatentes e que muitas delas morreram em bombardeios do exército. Também declarou que as estudantes cristãs sequestradas se converteram à força ao Islã. Posteriormente, grupos destas reféns foram sendo libertados, após intensas negociações que envolveram militares, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha e até mesmo o governo da Suíça e algumas ONGs internacionais. Em outubro de 2016, 21 alunas foram libertadas em troca de quatro militantes do Boko Haram, até então presos. Em maio de 2017, 82 meninas foram libertadas nas mesmas condições e retornaram às suas famílias.

Fonte: ACNUR – Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados

Publicado na revista Mundo e Missão de janeiro/fevereiro de 2018 – Ed. 219

 

 

 

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