Professora incentiva meninas a serem cientistas

Projeto “Investiga, Menina!”, em Goiás, incentiva meninas negras a seguirem carreira na área de Ciências Exatas

 

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um país de dimensões continentais como o Brasil, que tem mais de 54% de sua população composta por negros, é difícil conceber que, por exemplo, entre os 91 mil bolsistas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) dedicados a realizar pesquisas voltadas às ciências exatas, as mulheres negras representam apenas 5,5% desse montante. O número pode ser desanimador para quem entende que os direitos e oportunidades deveriam ser iguais para todos os cidadãos, especialmente no que diz respeito à educação. Mas, em meio a esse cenário, surgem raios de esperança, como o testemunho de mulheres negras que não baixaram a cabeça para as estatísticas e conseguiram criar seus espaços e agora incentivam outras tantas mulheres a fazerem o mesmo.

Essa “corrida”, porém, não é fácil. Anna Maria Canavarro Benite sabe bem disso: nasceu numa comunidade na Baixada Fluminense e estudou a vida toda em escola pública. Na época do vestibular, aproximou-se das ciências exatas porque percebeu que os cursos ligados à licenciatura eram menos disputados na Universidade Federal do Rio Janeiro (UFRJ), onde iniciou sua graduação em Química, em 2001. Atualmente ela é doutora em Química e professora da Universidade Federal de Goiás (UFG), onde dá aula para futuros professores. “Uma vez no curso, me apaixonei pelos processos de transformação da matéria. Hoje minha leitura de mundo é muito ligada a isso”, disse em uma entrevista concedida ao jornal El País.

É justamente para transformar a realidade de muitas jovens que nem sonham em ser cientistas, que Anita, como é mais conhecida, fundou o projeto Investiga Menina!, voltado a incentivar e colaborar com o fortalecimento das ações voltadas para a promoção do ingresso de meninas da educação básica pública nas carreiras de exatas e tecnológicas.

Com foco ainda maior nas jovens negras, a professora, que é a atual presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros/as, reforça que as disciplinas ligadas às áreas de exatas nas escolas tradicionais seguem uma linha hegemônica que pode ser caracterizada como europeia, branca e masculina, o que reforça atitudes e crenças que ela considera inadequadas, pois influenciam estudantes, especialmente as jovens negras, a se sentirem desmotivadas a entrar para o mundo da ciência.

Criado no ano de 2015, o projeto de Anita tem por objetivo promover ações coletivas para o benefício da comunidade escolar, com vistas a proporcionar experiências e informações sobre a contribuição das mulheres para a criação de recursos científicos e tecnológicos. Dessa forma, o projeto advoga pela melhoria da visão crítica e da formação das professoras e professores, para que a mudança comece primeiramente por eles. Promovido pelo Grupo de Mulheres Negras Dandara no Cerrado, de Goiânia, coletivo feminino do qual Anita faz parte, a iniciativa está promovendo boas práticas escolares, parcerias e o desenvolvimento de Objetos Virtuais de Aprendizagem (OVA’s) sobre a historiografia de mulheres cientistas contemporâneas, além de diálogo sobre o enfrentamento ao sexismo e ao racismo nas ciências.

As bases para a criação do Investiga, Menina! nasceram no Laboratório de Pesquisas em Educação Química e Inclusão do Instituto de Química da UFG, do qual Anita foi coordenadora em 2006 e, três anos depois, onde instituiu o Coletivo Ciata – Grupo de Estudos sobre a Descolonização do Currículo de Ciência. As ações ali desenvolvidas renderam à Anita, em 2013, o Diploma de Reconhecimento por ação cotidiana na luta pela defesa, promoção e proteção dos direitos humanos em Goiás; em 2014, Honra ao Mérito pela Assessoria Especial para Direitos Humanos e Cidadania; e em 2016, o Prêmio Mulher Combativa pela Câmara Municipal de Goiás.

Chances desiguais

Segundo relatório da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), as adolescentes não buscam as ciências e os estudos técnicos na mesma proporção que os adolescentes. E são diversos os motivos por trás disso: desigualdade de gênero, educação sexista, estereótipos de gênero no ambiente escolar, entre muitos outros.

“As mulheres costumam escolher profissões mais próximas de como foram educadas e, assim, mais próximas ao cuidado: professoras, enfermeiras, assistentes sociais ou psicólogas. Todavia, essas profissões que tratam da manutenção e preservação da vida, não por acaso, são as menos valorizadas e, portanto, mal pagas, refletindo o retrato da invisibilidade feminina no mercado de trabalho e, ainda, a expropriação da capacidade laboral feminina, principalmente, a negra”, opinou Anita numa entrevista ao portal Catarinas. A pesquisadora defende ainda que até mesmo as mulheres cientistas recebem pouco ou nenhum destaque em sala de aula.

“A Ciência não tem gênero ou cor, porém sua versão ensinada nas instituições escolares tem uma visão deformada que se remete ao sujeito universal: o homem branco, e trata a produção científica das mulheres a partir de lugares subalternos. Não se discute a produção de mulheres em sala de aula, muito menos as influências dessas produções para a sociedade. E, quando o recorte é racial, não se tem notícias em currículo oficial ou material didático de qualquer mulher negra brasileira cuja contribuição seja celebrada no mundo acadêmico”, explicou.

Citando números do IBGE, ela enfatiza que a proporção de mulheres graduadas é 25% maior à proporção dos homens. Porém, somente 37% destas mulheres com graduação completa são pretas ou pardas. “Essa situação também se reflete nas escolhas das carreiras em Ciências. Ser uma cientista é um ato contra a hegemonia, sobretudo um apelo para dizer a outras de nós que venham, que podem. É também enfrentar intermináveis julgamentos de produtividade para habitar entre ‘os’ cientistas”, declarou.

 

Reportagem publicada na revista Mundo e Missão de dezembro de 2018 –  edição nº 228
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