Quando tudo acontece

Missão é vida que se espalha. Não é práxis e nem mesmo palavras. É tudo isso e muito mais. A missão somos nós mesmos quando – falando, agindo, criando – dermos o testemunho que a Vida nos cativou.

Padre Jaime em missão

F
rente à urgência da missão, duas modalidades se habilitam a enfrentá-la. A primeira consiste em salientar a comunicação verbal, à qual superficialmente acredita pertença a própria Escritura (o teólogo e filósofo grego Christos Yannaras gosta de dizer que talvez nós tínhamos confundido a Bíblia com o Alcorão), porque existe a convicção de que gravita um problema de interpretação errônea sobre a missão evangelizadora da Igreja. Consequentemente, quanto mais clara se torna a comunicação, quanto melhor se argumenta e quanto mais recursos são colocados em questão, tanto mais eficácia estaria assegurada.

Desta visão, o obsessivo interrogar-se sobre “como falar aos jovens”, “como falar ao homem contemporâneo”, é como se os cristãos não dispusessem de uma linguagem compreensível e não fossem, eles mesmos, “homens contemporâneos”.
A segunda consiste na excessiva ênfase da práxis (atuação “prática”), para a qual bastaria serem mais coerentes, mais generosos, fazer-se mais “benévolos” a fim de que a mensagem pudesse chegar sem obstáculos ao destino.
Em ambos os casos a proposta da missão fica reduzida a uma questão de método, como se “falando bem” ou “agindo coerentemente” fosse possível encontrar-se imediatamente no terreno do cristianismo no estado puro. Mas não é assim.

No começo, a Memória

Angelo Costalonga em missãoNa realidade, a missão não se identifica nem com a linguagem e tampouco com a ética, mas é outra coisa. A missão é, de fato, uma Memória autorizada que, em sua “prática”, envolve palavras e fatos.
Hoje, infelizmente, atenua-se em demasia o sentido do mandamento, porque se esvaiu a necessidade de uma autorização, que deveria fazer-se de meio termo entre a Memória, ou seja, o “lugar” no qual se preserva fielmente a palavra, a ação, a vida e a pessoa do Senhor, e o testemunho. Na verdade, a missão consiste apenas no manifestar-se do relacionamento com o Senhor em favor de terceiros, e não na propaganda religiosa ou na difusão da instituição eclesiástica que, erroneamente, chamamos de Igreja, e nem mesmo na transformação do mundo.
Retomando a palavra da Escritura, podemos especificar a ligação que une memória ao mandamento nos capítulos 5 e 6 do Deuteronômio e no relato da instituição da Eucaristia.
No livro do Deuteronômio encontramos o famoso modelo da oração de Páscoa, que circula em torno de uma súplica ritual: “Quando teu filho te perguntar: ‘por que devemos fazer estas coisas?’. Tu lhe responderás: ‘Porque, meu filho‚ antigamente não éramos nada, não tínhamos uma terra, uma casa, nem ao menos tínhamos a coragem de ter filhos, porque outros os prenderiam para escravizá-los. Era como se já os condenássemos à morte. E, ao invés, graças a este Deus, encontramos uma terra, uma casa e agora temos uma mesa onde celebrar a Páscoa em paz. Se este Deus nos pedir que caminhemos sobre as mãos, eu te juro, meu filho, que eu, teu pai, na idade que tenho, assim o farei’” (livre adaptação de Dt 6,20-25).
É por isto que a missão não pode ser reduzida apenas à linguagem e à ação, mas que deve ser algo mais: dança, poesia, canto, música. Porque, de fato consiste no desenvolvimento de uma vida recebida em dádiva e que a Memória desveladamente, dinamicamente, misteriosamente, surpreendentemente protege em favor de terceiros.

Um relacionamento a se cumprir

Irmã Sonia Sala em missão

As questões de método, isto é, os meios, os instrumentos, os projetos são sempre e absolutamente secundários, uma vez que estruturalmente relativos, no sentido de que devem remeter a algo mais amplo, mais profundo e que sempre os anima, os corrige, os supera, os arrasta. Deus semper maior. Tudo aquilo que possamos fazer ou dizer é apenas um – ao mesmo tempo frágil e necessário – reflexo daquilo que temos contemplado (Cf 1Jo 1, 1-4).

Poderemos nos arriscar a afirmar que não existem coisas “práticas” e tampouco “racionais” na vida cristã, mas somente coisas dotadas de sentido. E que as coisas “práticas” e as “racionais” são apenas o resultado daquelas que são sensatas, na medida em que assumem uma forma característica.

Na vida, tudo é indício e símbolo de um relacionamento em que cada um sentiu-se e continua se sentindo amado.
Uma certa versão “generosamente” palatável da missão está levando-a à asfixia. Até a caridade, sobretudo a caridade, necessita de uma Razão e de um Fim; de algo que está “antes” de nós e “diante” de nós. E nós, que estamos no “meio”, dizemos através das palavras, das obras, mas também daquilo que conseguimos criar de belo, que Aquele que está antes nos está esperando.

Uma obediência que salva

Para que a missão não se transforme em uma “exibição narcisista” é, portanto, necessário passar através da porta estreita da autorização. Sem autorização, é realmente impossível distinguir o Senhor da testemunha.
Seria como se a testemunha dissesse: “Tu me vês e, praticamente, eis o Senhor”.
No episódio dos discípulos de Emaús (Cf. Lc 24, 13-53), a passagem da autorização à missão consistiu-se na assimilação do sentido do crucificado, mais precisamente na descoberta que a cruz é a forma autêntica da adesão de Jesus ao mandamento do Pai. Um Pai – é preciso salientar – que não quis a morte do Filho, mas sim o que a morte exemplarmente representava, isto é, o dom da vida. De fato, quando se percebe que não se pode oferecer a vida de outro modo a não ser imolando-se, então se obedece até o fim. Assim fez Jesus. Portanto, quem está disposto a representar Deus, deve fazê-lo como Jesus: no ato de dar a vida … a uma flor, a um filho, a um afeto, curando um leproso, dispensando alguém já pacificado.
O Filho não pensava, de fato, que Deus seja louvado a cada vez que um homem sofre ou está morto, como no caso dos mártires. Os Evangelhos relatam claramente que muitas vezes Jesus se foi quando pretendiam prendê-lo. Ele aceitou a morte só no momento exato em que percebeu
que ela estava sendo mandada, portando autorizada. Uma morte que, assim, se torna a forma que Deus encontrou para representar uma vida doada.
A história está repleta de mortes inúteis, dignas de respeito, mas que não representam Deus. Esta morte, ao contrário, é “pão partido” que, exatamente enquanto por isso, nutre.
Toda forma de missão, toda figura de testemunho cristão, para colocar o missionário ao abrigo da inexorável inclinação a englobar a representação de Deus na representação de si mesmo – eu repito – precisa passar através da têmpera da autorização.
A necessidade do mandamento, portanto da autorização, significa simplesmente que os apóstolos devem sempre ser enviados, que as figuras e as formas dos ministérios e dos carismas devem ser sempre doados, de modo que fique bem claro que aquilo que se há de oferecer é algo que se recebeu e do qual se vive.
Se, portanto, a Memória conserva o sentido da diferença entre a testemunha e o seu Senhor, entre a voz e a Palavra, entre nós e Deus, então a autorização nos confirma que o Senhor fica feliz que o desenvolver-se da relação com Ele, em prol de terceiros, esteja em nossas mãos.

 

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