Religiosa denuncia aumento de conflitos por terra no país

trabalhadores do campo

A religiosa norte-americana Jean Bellini, no Brasil desde a década de 1970, aponta o crescimento significativo dos conflitos por terra no país

 

O
s olhos de Jean Bellini, das Irmãs de São José de Rochester, em Nova York, brilham ao recordar a cena política de 1976, ano em que chegou ao Brasil. “A Conferência de Medellín, na Colômbia, havia acontecido em 1968. As dioceses que acolheram a sua proposta – uma igreja mais circular, democrática e participativa – produziram uma grande quantidade de material sobre leis, trabalho, terra e distribuíram este material às classes mais baixas, em um amplo trabalho de educação popular”, disse Bellini, hoje uma das três coordenadoras da Comissão Pastoral da Terra (CPT), uma organização católica que apoia trabalhadores rurais sem-terra.

Por estar associada a uma Igreja próxima ao povo, Bellini foi convidada a trabalhar na Prelazia de São Félix do Araguaia-PA, criada em 1971, durante o período mais duro da ditadura militar. Ela se juntou ao grupo de religiosos que atuavam na CPT com dom Pedro Casaldáliga, reconhecido internacionalmente por defender as pessoas do campo.

Hoje Bellini é responsável, entre outras tarefas, por uma publicação anual da CPT, “Conflitos no campo”, e recentemente coordenou a digitalização de 350 mil páginas de documentos datados de meados da década de 1970 sobre a violência que marca a luta pelo controle de terra no campo brasileiro. “A edição de 2018 foi divulgada em Brasília em 16 de abril deste ano, e inclui dados surpreendentes, como, por exemplo, o aumento de conflitos (35,6%)”, disse Bellini.

O portal Global Sisters Report entrevistou Bellini na pequena Anapu, no estado do Pará, uma região violenta do interior do país. Confira a seguir:

Ir. Jean Bellini, das Irmãs de São José de Rochester (Nova Iorque)

Ir. Jean Bellini, das Irmãs de São José de Rochester (Nova Iorque)

Quais são os destaques do relatório anual da CPT sobre violência rural no Brasil?

Em 2017 houve cinco massacres e a maioria dos 71 homicídios registrados no ano veio desses assassinatos em massa. Em 2018, o número de assassinatos caiu para 28. No entanto, nos últimos dois anos, o número de despejos de famílias aumentou muito.

Qual é a situação atual no campo brasileiro?

Em minha opinião, quando o Estado assume seu papel natural, o poder privado encolhe. Mas quando o Estado escolhe deixá-lo rolar, o poder privado atua através de pistoleiros contratados. O primeiro caso de morte em 2019, por exemplo, envolveu pistoleiros e aconteceu na cidade de Colniza, no estado do Mato Grosso. Uma pessoa foi morta e nove foram feridas por guardas de segurança na fazenda de um ex-deputado estadual. Os governos desenvolveram grandes projetos de infraestrutura econômica no interior do país, como a recente construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, que afeta fortemente as comunidades locais. Além dos deslocamentos oficiais de moradores por causa dos projetos, há outros tipos de violência. Tem havido uma dinâmica de aumento e diminuição da violência, dependendo de quem é o seu principal perpetrador. Há momentos em que é o próprio Estado. Em outras ocasiões, é o poder privado com seus pistoleiros. Há um problema extra: a ineficiência dos órgãos públicos. Os escritórios locais do Incra e da Funai, respectivamente os órgãos públicos de reforma agrária e de proteção aos povos indígenas, não resolveram os problemas das populações em qualquer parte da Amazônia, provavelmente porque os superintendentes locais são indicados por razões políticas. Em Anapu, por exemplo, a ideia era fazer a reforma agrária e organizar a colonização ao redor da Rodovia Transamazônica, mas, à medida que a notícia da distribuição da terra se espalhou, muitas pessoas chegaram e houve ocupação espontânea. Eu posso entender a lógica dos militares de outros governos em fazer esses megaprojetos. Mas discordo sobre o que fazer para integrar o território e como avaliar as consequências socioambientais de tais projetos. O fato é que quando o Estado se retira por opção política, a violência aumenta. Isso, junto com a flexibilidade das leis ambientais e trabalhistas e com as regras de mineração, torna mais fácil para a empresa privada fazer o que lhe agrada.

Qual é a expectativa sobre a violência no campo com a eleição de um novo presidente?

O que Jair Bolsonaro trouxe como novidade é a tentativa de expulsar os acampamentos dos sem-terra, antes de se consolidarem. Ele quer reduzir as áreas indígenas e não reconhece o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Bolsonaro diz que as pessoas que ocupam um local são membros de organizações criminosas e que ele tentará desfazer áreas de assentamento. Isso resultará em mais concentração de propriedades rurais. O padre José Amaro é considerado sucessor da irmã Dorothy Stang, assassinada em Anapu na defesa de trabalhadores rurais. Ele está passando por um processo de criminalização? José Amaro sofreu seis ameaças de morte desde o assassinato da irmã Dorothy, em 2005, e agora enfrenta acusações legais, como se fosse ele o criminoso. Ele e as vítimas da violência estão sendo acusados ​​agora. As forças econômicas daqui perceberam que o assassinato de Dorothy atraiu muita atenção internacional, então elas acreditam que precisam fazer algo diferente com Amaro.

 

* Texto traduzido e adaptado. Publicado originalmente em Global Sisters Report

 

 

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