Impunidade causou novo crime ambiental em MG, diz REPAM

Tragédia em Brumadinho: mais um crime ambiental causado pela mineradora Vale (Foto: Bombeiros de MG/Divulgação)

Tragédia em Brumadinho: mais um crime ambiental causado pela mineradora Vale (Foto: Bombeiros de MG/Divulgação)

Após 3 anos da tragédia na cidade de Mariana, rompimento de outra barragem da mineradora Vale, dessa vez em Brumadinho, causa revolta da população e de entidades ligadas ao meio ambiente

 

O
cardeal dom Cláudio Hummes, presidente da Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM-Brasil), assinou uma nota lamentando o rompimento da barragem da mina de Córrego do Feijão, em Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte (MG). A barragem operada pela empresa Vale se rompeu na sexta-feira (25) e fez com que uma enxurrada de lama e rejeitos de minério destruísse o refeitório e o prédio da mineradora, casas no entorno e grande parte da vegetação local. Até o momento desta publicação, 65 mortes haviam sido confirmadas, além de um total de 279 desaparecidos.

(Uma jornalista do Greenpeace está em Brumadinho documentando os relatos das pessoas que sobreviveram, mas que agora choram por terem perdido familiares, suas casas e a até a esperança. Clique aqui e confira)

No texto, o arcebispo emérito de São Paulo alerta para as consequências da atividade de mineração, recorda o desastre de Mariana/MG, ocorrido há três anos em uma outra barragem operada pela empresa Vale, e adverte para os interesses de projetos na Amazônia, que ele diz ser a “nova fronteira mineral cobiçada por grupos internacionais e ofertada pelo governo brasileiro à custa das populações tradicionais, com riscos a terras indígenas já demarcadas”.

Confira a seguir o que diz o cardeal:

NOTA DA REPAM SOBRE O ROMPIMENTO DA BARRAGEM EM BRUMADINHO

Não cuidar da Casa Comum “é uma ofensa ao Criador, um atentado contra a biodiversidade e, definitivamente, contra a vida” (DAp 125)

Mais uma vez famílias choram por seus entes queridos e a Terra geme em dores de parto. Após três anos, Minas Gerais enfrenta outro desastre ambiental causado pela atividade de mineração, tendo a mesma empresa como protagonista. A Rede Eclesial Pan-Amazônica(REPAM-Brasil), cuja inspiração e serviço situam-se na espiritualidade da ecologia integral, manifesta solidariedade às vítimas e familiares afetados pelo rompimento da barragem de rejeitos de mineração no município de Brumadinho/MG.

Lama invadiu casas e deixou centenas de desabrigados

Lama invadiu casas e deixou centenas de desabrigados (Foto: André Ávila/Agência RBS)

Também lamentamos e nos sentimos estarrecidos com as consequências desta atividade que ignora as indicações da Igreja, as quais incentivam uma economia a serviço da vida humana e dos ecossistemas com sua grande biodiversidade (Carta Pastoral do CELAM – Discípulos Missionários Guardiões da Casa Comum, 93).

Não é possível dissociar a relação do acontecido desta sexta-feira (25) com o desastre de Mariana, cada um com suas terríveis proporções na vida dos mais pobres e consequências para o meio ambiente.

Este é mais um crime ambiental que nasceu e se consolidou pela impunidade dos anteriores. O que sucedeu do rompimento da barragem em Mariana ainda não foi reparado e os responsáveis não foram criminalmente punidos. Infelizmente, a lógica do rigor contra os infratores da lei ataca cada vez mais os pequenos e poupa o grande capital.

Chama atenção o fato de o próprio licenciamento da mina Córrego do Feijão e de sua barragem de rejeitos estar impreciso e contraditório. A aprovação da expansão da exploração na área teve forte resistência da comunidade local.

Com os bispos do Brasil, reforçamos a ideia de que a “atividade mineradora no Brasil carece de um marco regulatório que tire do centro o lucro exorbitante das mineradoras ao preço do sacrifício humano e da depredação do meio ambiente com a consequente destruição da biodiversidade” (Nota da CNBB sobre o rompimento da barragem de Fundão, 25/11/2015).

Consideramos importante também salientar que estamos num contexto político de flexibilização das leis ambientais e de desmanche dos procedimentos de licenciamento ambiental. A atenção para esta realidade também deve estar voltada para a Amazônia, nova fronteira mineral cobiçada por grupos internacionais e ofertada pelo governo brasileiro à custa das populações tradicionais, com riscos a terras indígenas já demarcadas.

Vista aérea de Brumadinho: uma enxurrada de lama se espalhou pela cidade

Vista aérea de Brumadinho: uma enxurrada de lama se espalhou pela cidade (Foto: Isac Nóbrega/PR)

A ação das empresas mineradoras é conhecida pelas violações dos direitos humanos das populações indígenas ou originárias, tradicionais e campesinas, principalmente as da Amazônia, “onde tendem a ocupar, sem consulta prévia e com o apoio dos Estados, os territórios dessas populações, confinando-as em espaços de vida cada vez mais reduzidos, limitando, assim, as possibilidades de acesso a seus meios tradicionais de subsistência e destruindo suas culturas”. (Carta Pastoral do CELAM – Discípulos Missionários Guardiões da Casa Comum, 41)

Cardeal Cláudio Hummes, presidente da REPAM

Cardeal Cláudio Hummes, presidente da REPAM

As perspectivas de expansão dos projetos de mineração na Amazônia serão à custa da segurança da população e do meio ambiente, mais uma vez por conta do contexto político brasileiro, no qual a análise dos riscos tende a ser minimizada e os órgãos de fiscalização e monitoramento enfraquecidos, preferindo-se o automonitoramento das próprias empresas.

Depositamos a nossa esperança de mais justiça e cuidado com a Casa Comum Naquele que veio para que todos tenham vida, e a tenham em abundância (cf. João, 10, 10b).

Brasília, 25 de janeiro de 2019
Cardeal Cláudio Hummes
Arcebispo Emérito de São Paulo/SP
Presidente da REPAM-Brasil

 

Fonte: REPAM

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