Perseguição aos rohingyas: um povo sem pátria e sem amigos

Rohingyas

O
s rohingyas (ou ruaingás) são os membros de um grupo étnico que pratica o islamismo e fala a língua rohingya, um idioma indo-ariano da família bengali. A origem do grupo é questionável. Uma vertente de analistas garante que o grupo se originou na região de  Rakhine, na antiga Birmânia (hoje Mianmar); outros observadores têm como certo que se trata de um grupo muçulmano originado em Bengala, atual Bangladesh.
Daqui ou de lá pouco importa. A realidade é que os rohingyas foram e continuam marginalizados em vários países, perseguidos por motivações étnicas e religiosas e obrigados a se refugiarem em guetos e favelas. A Organização das Nações Unidas, através do Alto Comissariado para Refugiados (Acnur), identifica-os como a minoria em crise há mais tempo, a mais negligenciada e a mais perseguida do mundo.

Pobreza e repressão

Os rohingyas, apesar de terem vivido em Mianmar desde gerações passadas, são considerados pelo governo local com apátridas, e lhes nega, portanto, o direito à cidadania. Privados de tal direito básico, os rohingyas são proibidos de se casar ou viajar sem a permissão das autoridades e não podem adquirir terras ou propriedades. Recentemente, autoridades regionais anunciaram que logo implantarão uma regra que proíbe os casais rohingyas de terem mais de dois filhos. Para evitar o agravamento de conflitos, em dezembro último o Acnur exortou o país a permitir-lhes a cidadania.
Os rohingyas são cerca de 5% dos 53 milhões de habitantes de Mianmar (2016). A partir de 1948, quando o país se tornou independente do Japão, que se apossara do país durante a Segunda Guerra Mundial, esta etnia “apátrida” vem sofrendo novas formas de tortura, negligência e repressão.

Rakhine: região e etnia

O termo “rakhine” se refere tanto a uma área geografia de Mianmar quanto a uma etnia budista. Os membros deste grupo étnico, ao contrário dos rohingyas, encontram amplo reconhecimento do governo nacional, que os vê como cidadãos de pleno direito.

A tensão entre os budistas rakhines e os islamitas rohingyas tem provocado episódios de grande violência. Muitos milhares de membros da minoria étnica islamita vivem em campos de refugiados das Nações Unidas, em Mianmar e no vizinho Bangladesh. No seu site, a organização Refworld, que reúne toda a informação respeitante aos refugiados, fala em 200 mil rohingyas tentando sobreviver nesses campos.

Violência em ondas

Em 2012, duas ondas de violência, uma em junho e outra em outubro, orquestradas por grupos extremistas de maioria budista em Rakhine, deixaram cerca de 140 mortos, centenas de casas e edificações muçulmanas destruídas e 100 mil desabrigados. Autoridades e a polícia foram acusadas de absoluta negligência sobre a defesa dos rohingyas.
O correspondente da BBC no sudeste da Ásia, Jonathan Head, explica que “Rakhine é o segundo Estado mais pobre em Mianmar, e este é um dos países menos desenvolvidos do mundo”. E acrescenta: “A pobreza, negligência e repressão têm desempenhado um grande papel na violência étnica. Adicione a isso as memórias históricas amargas e os medos sentidos por comunidades rivais do que poderiam perder ou ganhar no novo e incerto ambiente político de Mianmar”.

Desconfiança e desinformação

Após os acontecimentos de 2012 na região de Rakhine, as duas comunidades rivais que, há décadas, já viviam separadas, ficaram totalmente segregadas. “Os muçulmanos estão confinados em áreas de segurança cada vez mais reduzidas”, diz o repórter da BBC. “Ambos os lados estão agora em climas potencialmente inflamáveis”, acrescenta.
Os rohingyas são acusados de incitar todo ato de violência que venha a ocorrer desde 2012. Acredita-se, por exemplo, que o estupro e o assassinato de uma mulher budista em Rakhine, ocorrido no ano passado, tenha sido praticado por um dos “apátridas”.

Ódio à flor da pele

A campanha de violência sangrenta contra os muçulmanos rohingyas tem raízes profundas e seu objetivo final, diz Head, é que eles deixem de vez Mianmar. Se não por bem, que seja por deportação em massa.
Head argumenta: “Os rakhines, que são budistas, repito, também foram negligenciados por muito tempo por parte do governo central e foram levados a acreditar que a população muçulmana cresce fora de controle e que isso pode se tornar uma ameaça para a sobrevivência budista. Eles estão com medo da propagação do extremismo islâmico, especialmente entre os jovens rohingyas que viveram na Arábia Saudita”.
Muitos budistas de Mianmar nem sequer reconhecem o termo rohingya. Chamam-nos de “bengalis muçulmanos”. Uma alusão à visão oficial de que esta etnia teria imigrado de Bangladesh.

Direitos civis e “segregação mental”

Tanto as Nações Unidas quanto as organizações de defesa dos direitos humanos pedem que as autoridades de Mianmar revejam a Lei de Cidadania de 1982, de forma a garantir que os rohingyas não continuem sem pátria. Essa é a única maneira, argumentam, para combater as raízes da longa discriminação contra os 800 mil “bengalis muçulmanos” apátridas em Mianmar.
Jonathan Head põe a mão no centro da ferida: “As longas décadas de isolamento e de injustiça crônica contra os rohigyas, impostas pela junta militar de Mianmar, tem fomentado um clima venenoso da desconfiança e falta de informação. É claro que, além da separação física entre muçulmanos e budistas, também há uma extrema segregação mental nas duas etnias”.

Rohingya

Manifestação contra o geocorídeo da etnia Rohingya

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