Ser missionário em um país islâmico

Instalado no Oriente Médio, o sacerdote Olmes Milani possui um longa bagagem missionária entre migrantes de várias partes do mundo. No relato a seguir, ele oferece algumas particularidades sobre pluralidade, respeito e convivência harmoniosa entre pessoas e religiões diferentes

 

A
pós 42 anos em missão, posso afirmar que, em todos os lugares do mundo onde trabalhei, as experiências foram sempre únicas por conta das culturas, religiões e a localização geográfica (Brasil, Argentina, Canadá, Estados Unidos e Japão, ndr).

Contudo, não fiquei surpreso com a preocupação de colegas e amigos, ao saberem que eu havia recebido o envio missionário para os Emirados Árabes Unidos, um país islâmico. Para eles, eu estava indo ao encontro do perigo. Com certeza, as notícias de ações mortíferas de grupos radicais, interpretando ao pé da letra o Alcorão, colaboraram para generalizar a ideia de que, onde existem árabes e seguidores de Maomé, há violência.

“Você está num país islâmico”
Depois de uma longa viagem, cheguei, à noite, em Abu Dhabi, capital do país e sede do Vicariato Sul da Arábia. Fui logo descansar. Às quatro da manhã uma voz fortíssima acordou-me; era o Íman da mesquita, hoje renomeada “Maria Mãe de Jesus”, a poucos metros do meu quarto, convocando os islamitas para a primeira das cinco orações diárias. A voz, ouvida bem antes de o sol nascer, assinalava: “você está num país islâmico”. De fato, qualquer pessoa que venha para as Arábias sente o impacto da presença do Islã.

Fixei-me em Dubai. Percebi que não havia nada a temer. Desde os primeiros dias aqui, as preocupações se amainaram, dando lugar à serenidade, pois os governantes optaram por criar medidas que assegurem a paz como situação ideal para o desenvolvimento e a harmonia entre as pessoas.

Surpresas

A primeira surpresa foi constatar que todas as igrejas e templos são construídos em uma gleba de terra doada pelo xeique de cada emirado, para que os estrangeiros tenham seus centros de culto. Elas têm sempre ao lado uma mesquita.

As edificações têm envergaduras baixas e sem cruzes no topo. Sinos não são permitidos. A exceção é a igreja em Dubai, cujos dois sinos foram doados pelo governante, depois de serem removidos de uma torre inglesa que ostentava um relógio.

Todas as atividades religiosas devem ser realizadas nas igrejas e nos templos. Panfletos, pôsteres, materiais religiosos e faixas externas com programações, devem ser evitados.
Ao contrário da maioria dos países do mundo, não existem migrantes nessa região, mas expatriados, entendidos como trabalhadores que regressam aos países de origem ao caducar o visto ou o contrato de trabalho. Aos estrangeiros e aos seus filhos nascidos aqui, não lhes é permitida a cidadania local. Por isso, a ação dos missionários é manter a fé das pessoas enquanto aqui trabalham, para que continuem a praticar sua fé ao voltar às terras de origem.

Religiosidade e raízes culturais

As estratégias adotadas estão associadas à religiosidade e à cultura de cada grupo nacional ou étnico. Quanto à religiosidade, procura-se servir aos expatriados utilizando as línguas de origem, mas tendo o inglês como idioma oficial. Além do rito latino, os ritos Siro-Malabar, Siro-Malankar, Maronita e Melquita são usados nas celebrações.
No Subcontinente Asiático, Filipinas, Oriente Médio e África, a religiosidade popular está enraizada nas culturas. Por causa disso, os maiores grupos nacionais organizam procissões, festas em honra aos santos de devoção ou em datas significativas, com elementos culturais das regiões de proveniência. Nessas ocasiões, os pátios das igrejas se enchem de cores, línguas, músicas, danças e cantos, dando um espetáculo maravilhoso de cultura e religiosidade. Sem cultos ou proselitismos.

Na sexta-feira, feriado semanal nos países islâmicos, a região das igrejas, templos e a mesquita se transformam em centro de convergência de expatriados de todos os países do planeta. As vias de acesso ficam congestionadas com milhares de pessoas de cores, raças, culturas e crenças diferentes.

Os maometanos organizam o “iftar”: quebra do jejum islâmico. Em clima harmonioso, eles convidam os cristãos e os líderes das religiões asiáticas para viverem a experiência de estar juntos e partilharem a janta. Com a tenda armada junto às dos demais ministros das religiões, a pluralidade sugere que o respeito é o valor mais importante para a convivência harmoniosa entre pessoas diferentes. Por isso, não existem conflitos ou desavença entre os seguidores dos credos e crenças.

O ambiente intercultural, interétnico e inter–religioso, além de ser fonte de enriquecimento, favorece para que cada pessoa, especialmente os líderes, testemunhe a essência de sua religião, sem fazer prosélitos.

Se, de um lado, o missionário promove a manutenção da religião e da sua cultura; do outro, existe um tipo de missão fundada sobre dois alicerces: ser testemunho e solidarizar-se com as pessoas.

Esse tipo de missão ocupa a maior parte do meu tempo, e é exercido entre marinheiros, pescadores e trabalhadores pobres dos acampamentos. Tais pessoas não frequentam as igrejas e templos, devido às restrições ligadas à segurança que impedem a saída das embarcações, e à falta de recursos para pagar o transporte, no caso dos acampados.

Assim, o missionário vai ao encontro das pessoas onde elas estão, portando documentação civil, sem títulos eclesiásticos ou religiosos. Promove momentos de oração de forma discreta e reservada, mas não organiza liturgias, por serem proibidas fora das igrejas. É assim que o missionário leva o Evangelho.

Tento exercer também o “Apostolado do Mar” junto aos “invisíveis” que têm navios como casa e lugar de trabalho; solitários e atormentados pela saudade da família. Há também os navios fora de operação ou abandonados com marítimos a bordo, ao longo da costa. Durante meses e até mais de um ano sem receber salário e sem desembarcar, estes homens sofrem por não poder ajudar suas famílias, que até passam fome. Em muitos casos, a falta de comida, água e combustível a bordo exige que aluguemos uma lancha para socorrê-los com produtos de primeira necessidade, carinho, solidariedade e apreço.

 

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