Depoimento: ser missionário num país em guerra

Sacerdote jesuíta conta como é trabalhar no Serviço Jesuíta aos Refugiados, na periferia de Damasco, na Síria |

 

Atravessar a porta do encontro. Este é o título do depoimento do padre jesuíta Gonçalo Castro Fonseca, que atualmente está trabalhando em uma unidade do Jesuit Refugee Service (Serviço Jesuíta aos Refugiados), localizado na periferia da cidade síria de Damasco, muito próxima de Ghouta, que tem aparecido com frequência nos noticiários nos últimos dias por conta das ofensivas praticadas  pelo ditador Bashar al-Assad contra centenas de civis.

O texto foi publicado recentemente no site Ponto SJ e traz a visão do missionário diante do desafio de ser presença viva do Evangelho num local massacrado pela guerra e onde nem se pode falar de Jesus. Confira alguns trechos a seguir:

Padre Gonçalo Castro Fonseca (sj): missão em meio à guerra

“Atravessar a porta da aprendizagem do árabe foi e ainda está a ser muito custosa, mas já consigo não me perder tanto nos sons e nas palavras, assim como já não me perco nas ruas de Damasco. O desafio de meter-me numa cultura e costumes tão diferentes da nossa tem sido igualmente vencido, não sem gafes que vão colocando sorrisos aqui e ali.  Mas a grande porta que atravesso diariamente é a porta do Encontro. O encontro com as pessoas que fazem parte do pequeno imenso universo da missão do JRS na Síria.

Quando a guerra começou, há sete anos, o JRS tinha pouco menos que uma dezena de colaboradores e socorria os refugiados vindos do Iraque. Foi o fato de já estar instalado que facilitou o crescimento do JRS para poder abranger as vítimas da guerra. De outro modo teria sido vedada a abertura de uma missão aqui. Nestes anos de conflito, e na medida das necessidades e dos donativos recebidos, o JRS foi abrindo, suportando (e fechando) vários projetos, desde respostas a situações de emergência, como alimentação e cuidados de saúde a projetos mais socioeducativos e de apoio psicológico a crianças e famílias. Agora, temos apenas o projeto de educação e de apoio psicológico. Com os últimos acontecimentos volta-se a ter uma situação de emergência. Oxalá possamos voltar a dar resposta.

A ação dos jesuítas na Síria é uma pequena gota num oceano imenso de necessidades. É uma pequena gota, mas que sacia a muitos na sua sede de esperança e fortalece os seus sonhos de paz. Eu faço parte dessa gota. É aí que me encontro: comigo mesmo, com a minha história, com os meus que longe se fazem perto, com a minha vocação à Companhia de Jesus, com o meu sacerdócio e com o que o Senhor me pede que seja.

É aí que me encontro, porque me encontro com tantos rostos e tantos corações, nas suas histórias, nos seus sofrimentos, nas suas perdas e nos desejos de reconstrução. Encontro-me com os colaboradores do JRS (uma boa centena), a maioria jovens, que reconhecem em mim e na minha simples presença uma confirmação e uma fonte de fortalecimento no seu o esforço de superação e recomeço. Encontro-me com as crianças que acolhemos diariamente, a quem foi roubada a infância e que em nós ganham memórias de beleza e de alegria, e muitos têm conosco a única refeição do dia e de vez em quando uma guloseima à qual respondem com sorrisos que adoçam os nossos dias. Encontro-me em amizade com tantos que me acolhem em suas casas e nas suas vidas, celebrando muitas vezes o mistério da união nas nossas diferenças de culturas, de vivências e de religiões.

Atravessar a porta do encontro, neste médio oriente, tem me transformado a partir das entranhas porque mais e mais sinto que o meu coração é visitado por um Amor que me ultrapassa. Não falo de Cristo, não faço homilias (o meu árabe não chega para tanto), não dou retiros, mas a experiência de Deus Encarnado no amanhecer e entardecer levam-me a lugares que nunca pensei que pudesse algum dia conhecer.”

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