Somos Igreja em saída?

A cada dia me sinto mais esquecida pela minha comunidade. É um trabalho difícil e penso que, se a Igreja tivesse essa Pastoral em cada paróquia, seria mais frutuoso

Foto: Pixabay

Por Irmã Petra Silvia Pfaller

Coordenadora nacional da Pastoral Carcerária


“Vivo uma constante angústia sabendo que meu irmão passa por situações difíceis. O que mais me machuca é saber que ele sente fome. A cada visita, vejo-o mais magro, abatido, machucado fisica e psicologicamente”, desabafou Maria (nome fictício), irmã do José, um dos milhares de brasileiros encarcerados.

A cada sábado de madrugada, carregada com sacolas de comida, Maria embarca em quatro ônibus até chegar à unidade prisional. Vem da periferia e atravessa o centro da cidade. “É muito longe! Não tenho condução própria e o transporte público é caro. A luta é constante. Já passei mais de três horas na fila da penitenciária e sob humilhações. Cada revista é rígida, demorada e humilhante”, relatou

Ela contou que são seis postos de fiscalização: portão de entrada, identificação da carteirinha de visita, controle biométrico, revista dos alimentos e das roupas permitidas. O mais humilhante é o desnudamento e o agachamento. Depois de tudo, já se foram horas, e Maria consegue dar um abraço no irmão, num pequeno pátio sem cobertura onde outros detentos também recebem familiares, tenha sol ou chuva.

Desabafo

Maria conheceu a Pastoral Carcerária através de um encontro na frente do presídio, e contou à coordenadora estadual: “faço parte de uma comunidade na periferia e lá nunca ouvi falar sobre a Pastoral, mesmo em área com grande número de jovens presos. Por conta da prisão do meu irmão não consegui mais participar na comunidade e nunca recebi nenhuma ligação de alguém, embora todos saibam o que aconteceu comigo e minha família. Desde que passei a viver essa triste realidade que é o cárcere, nunca recebi uma palavra amiga da minha paróquia. Nem mesmo o pároco soube dar informações sobre essa pastoral”.

“Hoje entendo que não foi um fato isolado o que aconteceu comigo. Conheço muitos familiares católicos que passam por essa mesma situação. A cada dia me sinto mais esquecida pela minha comunidade. É um trabalho difícil e penso que, se a Igreja tivesse essa Pastoral em cada paróquia, seria mais fácil”, continuou.

Maria aprendeu que a Igreja tem tantas pastorais, e afirmou que seria fundamental uma para o drama do cárcere, para onde vão muitos jovens de 18 a 29 anos. “A Pastoral Carcerária me ajuda e dá apoio, solidariedade, e uma palavra amiga é muito importante para não deixar a esperança morrer”.

Com esse depoimento de Maria, e à luz da CF 2020, fica o chamado a cada cristão para ser bom samaritano, aquele que “viu, sentiu compaixão e cuidou dele“. 

texto publicado na secção “Igreja Cativa” na edição Maio da revista Mundo e Missão. Gostou da matéria? Seja um nosso assinante

Saiba mais sobre a Pastoral Carcerária no próprio canal Youtube da pastoral


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