Sudão do Sul enfrenta êxodo sem fim

refugiados

(Foto: ACNUR/ F. Noy)

São mais de um milhão e não param de aumentar. Os refugiados do Sudão do Sul rumam para Uganda, para os campos que os acolhem no norte do país, nos confins do nada

 

N
ora tem 16 anos e partiu sozinha. A família ordenou-lhe que tomasse a dianteira. A perspectiva em um campo de refugiados seria melhor do que a insegurança de Juba, a capital do Sudão do Sul. Melhor viver em um país estrangeiro do que morrer no inferno da mais nova nação soberana da África. “Pelo menos aqui posso estudar – sussurra Nora timidamente – . Não tem ninguém que tenta me matar”.

A jovem é uma das milhares de garotas que se uniram ao fluxo inexaurível de refugiados sul-sudaneses que continuam a se dirigir para o norte de Uganda. A debandada começou no início da guerra civil, em dezembro de 2013, e parece não ter fim. Mais de dois milhões já deixaram o país. Mais da metade se encontra em Uganda. E a cada dia chegam outros.

Na entrada do Centro de Recepção Imvepi, no distrito de Aruá – na Província do Nilo Ocidental, no nordeste de Uganda – chega um ônibus branco da Agência da ONU para os Refugiados (ACNUR). Lentamente e em silêncio descem mães e crianças, um ou outro idoso, pouquíssimos jovens. Não carregam nada consigo. Somente pequenas bolsas. Escaparam com o que puderam.

Uma equipe da ONG Médicos sem Fronteiras (MSF) os acolhe. “Nos meses passados recebemos mais de dois mil refugiados por dia – explica Shaban Osman, supervisor do MSF –. Agora um pouco menos, mas desconfiamos que, com o início da estação da seca, os combates poderão ser retomados no Sudão do Sul, e a chegada dos refugiados tende a aumentar novamente”.

campo de refugiados

“Sou um deles”

Shaban Osman movimenta-se com desenvoltura entre os colegas que se ocupam dos recém-chegados, na fila da primeira tenda armada para o controle sanitário: todos recebem medicamentos para parasitoses intestinais, as crianças são vacinadas contra sarampo e pólio; então, passa-se ao teste de tuberculose.

Algumas crianças choram. As mães, um tanto desorientadas. São elas a maioria dos que aqui chegam: mulheres e menores representam 90% dos refugiados sul-sudaneses em Uganda. Shaban os encaminha para a próxima tenda, onde cada um relata sua história. Shaban é delicado ao falar e se expressa na língua deles.

“Sou um deles. Fui refugiado também. Cheguei aqui ainda criança, em 1989. Havia uma outra guerra, entre norte e sul, mas as vítimas são sempre as mesmas, as pessoas comuns, inocentes”, aponta Shaban Osman, que cresceu e completou seus estudos em Uganda e há um ano e meio trabalha com os MSF. Orgulha-se por restituir à sua gente um pouco daquilo que recebeu.

Terra de conflitos

mapa do sudão do sul e ugandaA história que agita novamente o norte de Uganda é a mesma de sempre. Ou seja, é constante a recorrência de refugiados dos países confinantes, além da chegada dos desalojados internos ou em fuga. Uma terra marcada por conflitos internos e pela contínua invasão de gente de fora. Uma região pobre, muito mais do que o resto do país, por anos abandonada e negligenciada. Mesmo assim é surpreendentemente aconchegante.

Aqui se estratificaram ondas sucessivas de pessoas em fuga do Sudão durante a guerra entre Norte e Sul, à que se acrescenta o enorme fluxo de desesperados que chegam do mais jovem país da África, devastado por uma guerra fraticida. Este fluxo se inverteu apenas durante o breve período que antecedeu a Independência do Sudão do Sul, em julho de 2011, quando uma onda de esperança fugaz induziu milhões de sul-sudaneses a voltarem para casa. Para depois se encontrarem traídos pelo líder do próprio país. E assim, recomeçou novamente o exílio, e pior do que antes.

Às portas de uma fome que mata

“Hoje muitos escapam não apenas da guerra, mas também da fome”, diz Twaha Yabata, nutricionista do Medical Team International. Mas as duas situações são evidentemente correlacionadas. São cúmplices também as drásticas mudanças climáticas, pois hoje no Sudão do Sul sete milhões de pessoas, quase metade da população, correm risco de morte por falta de alimento.

“Sobretudo as crianças – salienta Yabata – correm risco. Mesmo porque, frequentemente cumprem longos e perigosos trajetos a pé, durante os quais comem somente o que encontram no caminho, ou nada.”

campo de refugiados no Sudão do Sul

Em situações dramáticas como esta, logo intervém a equipe do Cuamm-Médicos com a África, uma ONG de Pádua, na Itália, presente na Uganda há quase 50 anos. A entidade retornou à Província do Nilo Ocidental para contribuir nesta enorme emergência humanitária, priorizando mães e crianças.

“De fevereiro de 2017 até agora – explica o doutor Damasco Wamboya, chefe da Cuamm de Aruá – foram relatados neste centro um milhão de casos de má nutrição. Nós começamos a operar em setembro com uma presença fixa que nos permite identificar os casos críticos e intervir imediatamente, fornecendo um suporte nutricional por uma semana. Depois disso, continuamos a seguir os refugiados, até mesmo depois de serem transferidos para os assentamentos.” Sem esquecer a população local: “Colaboramos em seis distritos e 81 centros de saúde da Província do Nilo Ocidental, alguns dos quais são acessíveis também aos refugiados”, diz o doutor Wamboya.

Consequências da fragilidade

No interior do Centro há inclusive um lugar discreto para as mulheres que sofreram violência. São muitas, mesmo que muitas vezes escondam. Hoje, o estupro é uma arma de guerra usada sem limites e vergonha no Sudão do Sul, onde são violentadas milhares de mulheres. Infelizmente, elas não se sentem seguras, nem mesmo quando chegam ao campo de refugiados. “Estão sozinhas e particularmente vulneráveis – explica Richard Okoni, responsável pelo centro de saúde de Siripi –. E então, tendo o álcool como uma companhia frequente, há quem se aproveite da situação.” Uma das consequências é a difusão da Aids entre os refugiados em relação à população local. “Muitos nunca ouviram falar dela”, acrescenta Okoni. E, até mesmo quando deveriam estar a salvo, estas mulheres correm o risco de enfrentar um novo calvário.

Os esforços limitados de Kampala

De resto, os assentamentos são lugares abertos, e isto é positivo e negativo ao mesmo tempo. Imensas, infinitas extensões de cabanas e barracos se perdem a olho nu. A política da porta aberta, desenvolvida por Kampala, a capital de Uganda, prevê uma acolhida ‘difusa’. E, quem sabe, não poderia ser diferente, visto o enorme número de refugiados que não estão nos refúgios, mas distribuídos por todo o território. A cada um é designado um pequeno terreno, e lhe é entregue o necessário para construir um abrigo e instrumentos para cultivar a terra. A Organização das Nações Unidas fornece milho (12 quilos por pessoa, mensalmente), feijão (quatro quilos), óleo, sal e um pouquinho de outros produtos. Depois, cada um se vira como pode.

Saúde, escolas e serviços sociais são os mesmos da comunidade local. Esta coloca à disposição a terra, em troca dos benefícios que os refugiados recebem. Não é muito, mas a atitude, para o momento, parece mais de partilha que de oposição. É o aspecto mais tocante neste contexto de pobres que acolhem pobres. É obvio que os conflitos não faltam – entre ugandeses e refugiados e entre refugiados de diferentes etnias – mas são muito limitados. Parece um milagre.

O distrito de Aruá tem uma população fixa de aproximadamente 800 mil habitantes e acolhe 256 mil refugiados. Em alguns assentamentos, aqueles em que os sul-sudaneses foram transferidos há mais tempo, existe dificuldade de distinguir as casas dos habitantes locais das moradias dos refugiados. O centro de saúde e as escolas podem ser frequentadas por todos, indistintamente. Com grande prejuízo ao sistema educativo ugandense, que já é fragilizado.

O dr. Robert Titre Apangu, coordenador do programa no distrito de Aruá, confirma o efetivo elo entre o governo local e o alto comissariado da ONU para os refugiados, que, por sua vez, coordena a enorme máquina humanitária. Uma máquina que precisa de muito mais fundos: dos 675 milhões de dólares solicitados, chegaram apenas 24%. Mas é uma máquina que mostra também muitas inconsistências e inadequações.

Pontos críticos

Titre Apangu começou este trabalho em 2009, quando surgia um grande projeto de repatriamento assistido de refugiados sul-sudaneses que retornavam para casa, em vista da Independência do país. Agora administra uma situação ainda maior, complexa e dramática. “A política do governo – explica o funcionário – é a de oferecer aos refugiados a terra, um documento de identidade, liberdade de movimentos e de trabalho, a utilização dos serviços públicos, desde que eles respeitem as leis do país. O objetivo é de integrá-los primeiro e o melhor possível com a população local. É um grande empenho, com alguns pontos críticos, como o fornecimento de água a um número tão elevado de pessoas.”

Diante de uma necessidade estimada em aproximadamente 20 litros ao dia por indivíduo, é possível fornecer somente de 7 a 8, sobretudo por meio de carros-pipas, que devem percorrer estradas e vias em péssimas condições. “Já foi dado início à construção de poços, mas o processo requer tempos longos e é muito caro, mesmo que mais sustentável”, acrescentou Apangu.

O tema da água é crucial também por questões sanitárias e higiênicas, além do uso para cultivar os pequenos lotes que cada família de refugiados têm à disposição. Um desafio que parece sem medidas quando nos aproximamos do campo de refugiados de Bidi Bidi, mais ao norte, o maior do mundo, com 258 mil pessoas. Uma visão impressionante: parece não ter fim.

Etnias irreconciliáveis

Na Uganda estão presentes muitos nuer, uma das etnias sul-sudanesas mais envolvidas no conflito. A outra é a dinka, espalhada por todos os lugares. Mesmo com as tentativas do governo ugandense de unir os refugiados do Sudão do Sul, os dinka e os nuer estão separados por precaução. De resto, as feridas da guerra que se combate a poucos quilômetros de distância são ainda visíveis. No corpo e na alma.

Fora dos portões da base da ONU de Bidi Bidi, um jovem nuer, Nihal, está ansioso em partilhar sua história. Leva na testa, não apenas as seis linhas que o tornam imediatamente reconhecível, mas também a cicatriz de uma ferida. “Atiraram em mim bem aqui – conta, apontando o centro da testa – estou vivo por milagre!” Chegou de Jongley, no norte do Sudão do Sul, a milhares de quilômetros. É um dos locais mais devastados pela guerra, juntamente com o Alto Nilo e o estado de Unity, ou seja, os territórios dos poços de petróleo, o verdadeiro objeto de disputa desta nova e pavorosa guerra. Nihal parece um tanto perdido e inquieto. Sabe-se lá quando poderá retornar à sua casa. Pensa um pouco, levanta os ombros e abaixa o olhar.

Futuro nebuloso

É uma perspectiva ainda distante para esta humanidade em suspensão que, apesar de ganhar um país livre, teve que fugir para outro. A dimensão do futuro parece ausente nestes assentamentos. Especialmente naquele onde os refugiados chegaram recentemente, como o de Palorinya e arredores, que parecem abandonados por todos.

Sem previsão de término do conflito em seu país de origem, o futuro das famílias sul-sudanesas parece incerto.

Reportagem publicada na revista Mundo e Missão de maio de 2018 – Ed. 222

 

 

Telefone: (11) 5549-7295
Fax: (11) 5549-7257
Rua Joaquim Távora, 686
04015-011 Vila Mariana, São Paulo - SP